Por Stella Ferreira Gontijo*

As mulheres somam quase 9 milhões de eleitoras a mais que os homens. Esse número pode ser decisivo em um país polarizado, no qual a última eleição presidencial, em 2022, foi definida por uma diferença de cerca de 2 milhões de votos entre Lula e Jair Bolsonaro.

Em uma disputa tão apertada, cada voto faz diferença. Mas o que mobiliza as brasileiras? Para onde caminha a decisão delas? Quais projetos apresentados pelos candidatos e suas campanhas podem influenciar essa escolha?

Observando a série de pesquisas apresentadas pela Quaest ao longo do mês de setembro, impressiona a dinâmica do eleitorado feminino, considerando que as mulheres, desde a ascensão do bolsonarismo em 2018, têm sido o grupo social que mais resiste ao projeto apresentado pela extrema direita.

Nesse cenário, a tendência das mulheres tem sido votar no candidato do PT, ou contra o bolsonarismo. Em 2026, a rejeição das mulheres à candidatura de Flávio Bolsonaro é de 57%. Em contrapartida, tem diminuído a aprovação do governo entre elas. No início de setembro, 40% avaliavam a gestão Lula positivamente. No dia 21, eram apenas 33%.

Em 2018, a Quaest ainda não fazia esse tipo de levantamento. Considerando os dados do Datafolha, divulgados em 27 de outubro daquele ano, 37% das mulheres declararam voto em Bolsonaro, e 42% em Haddad. Enquanto isso, 55% dos eleitores homens afirmaram votar em Bolsonaro.

A pesquisa Quaest às vésperas do segundo turno de 2022, divulgada em 29 de outubro, mostrou que 49% das mulheres pretendiam votar em Lula e 38% em Bolsonaro. Entre os homens, 48% se declararam eleitores de Bolsonaro.

Um eleitorado em movimento

Na atual disputa, esse quadro tem sofrido oscilações relevantes. Ao longo de setembro, notamos que a distância entre Lula e Flávio Bolsonaro caiu de 14% para 5% entre as mulheres. No voto espontâneo, o cenário é parecido: Lula tinha 16 pontos de vantagem e, agora, apenas seis.

Em um contexto de disputa acirrada, em que as mulheres configuram o setor social com maior índice de indecisão, houve uma queda 5% entre as indecisas. Observando essas oscilações, percebemos que no 1º turno a aproximação entre Lula e Flávio Bolsonaro no eleitorado feminino continua avançando ao longo de setembro.

Já no 2º turno, depois de chegar a apenas três pontos de diferença em 14 de setembro, a distância entre os dois candidatos volta a aumentar para 7 pontos no final do mês. Ou seja, enquanto Flávio continua avançando no primeiro turno, Lula recupera vantagem no enfrentamento direto de segundo turno. Esta situação talvez nos mostre que, quando confrontadas com o projeto político bolsonarista, as mulheres se sentem mais à vontade para declarar seu voto em Lula.

Os diferentes indicadores mostram cinco mudanças simultâneas no eleitorado feminino nas últimas semanas: 1) as mulheres estão menos indecisas no voto espontâneo; 2) Lula permanece relativamente estável no voto estimulado; 3) Flávio Bolsonaro cresce numericamente e reduz a distância; 4) a rejeição a Lula aumenta e se aproxima da rejeição a Flávio; e 5) a avaliação do governo piora entre as mulheres.

Um movimento que pode ajudar a explicar desenho é o crescimento de Flávio Bolsonaro no Sudeste, que caminha na esteira do crescimento de Tarcísio de Freitas. Enquanto isso, Lula se mantêm estável, com 30%. Ressaltamos que o Sudeste é a região com o maior número de eleitores, dos quais 53% são mulheres, e com o estado de São Paulo concentrando o maior número de votos. Essa hipótese merece atenção nos próximos dias.

As campanhas já entenderam

Se, por um lado, as mulheres demoram mais para se inserirem no debate político – devido as suas várias jornadas de trabalho e à estrutura patriarcal da nossa sociedade que ainda as tenta manter afastadas das discussões –, por outro, quando isso acontece, elas tendem a se dedicar mais as análises das propostas dos candidatos, refletindo sobre sua realidade cotidiana.

O Datafolha mostrou que, entre as mulheres chefes de família – 52% dos lares brasileiros, segundo a FGV – quase metade, 47%, afirma a intenção de votar em Lula. O fato de serem maioria como chefes de família nos ajuda a compreender por que custo de vida, cuidado, emprego, endividamento e bets detêm mais a atenção das mulheres. Nesse cenário, as campanhas já compreenderam o que está em jogo e disputam o voto feminino.

Em 19 de setembro, Flávio Bolsonaro apresentou propostas de políticas públicas para as mulheres em seu programa eleitoral na tevê. Na ocasião, o candidato observou que a independência feminina – como trabalhar fora de casa e dirigir seu próprio carro – expõe as mulheres à violência, o que demanda proteção do Estado. Em seguida, ele é validado como pai, filho e esposo, reafirmando a ideia de família tradicional que, por si só, o qualificaria como “protetor das mulheres”. Por fim, oferece programas voltados às mães, especialmente atípicas.

Junto disso, busca apresentar alguns projetos de lei que apresentou como senador, embora apenas um deles tenha sido aprovado em sete anos. As cerejas do bolo vêm do meio para o fim: surge Michelle Bolsonaro, a maior articuladora da extrema direita pelo voto feminino, reivindicando o protagonismo feminino e legitimando Flávio Bolsonaro. Por fim, mulheres trabalhadoras surgem declarando seu voto.

Projetos em disputa

As cenas descritas contrastam diretamente com os dados do governo Bolsonaro, reivindicados como herança por Flávio: em 2022, o Ipea mostrou os desmontes das políticas públicas para as mulheres a partir de cortes de investimentos, como a desestruturação do Disque 180 e o desfinanciamento da Casa da Mulher Brasileira; a subordinação da política para as mulheres à um ministério que também era da Família e dos Direitos Humanos; e os sucessivos recordes de feminicídios. Em resumo: entre 2019 e 2022, houve um desmonte estrutural das políticas públicas para as mulheres.

A campanha de Lula, por outro lado, adota enquadramento distinto ao associar o bolsonarismo à misoginia – em 2 de setembro, o programa eleitoral de Lula ressaltou: “meu adversário quer explorar mulheres, eu quero protegê-las e dar oportunidades”. Ao mesmo tempo, o presidente apresenta políticas sociais e de cuidado como instrumentos de autonomia feminina.

O combate à violência aparece associado aos investimentos e as políticas públicas recentes. Além disso, a sociedade figura como sujeito ativo para a mudança dessa realidade. A imagem de Janja é construída, não como a esposa que legitima seu marido, mas, sobretudo, como “mais uma Silva”.

Por fim, a campanha de Lula busca expandir a compreensão de políticas para as mulheres, colocando-as no centro de políticas públicas gerais, como o Minha Casa Minha Vida e o Bolsa Família.

Bets entram no debate

Vale ressaltar a centralidade que vêm tomando na campanha o posicionamento de Lula contrário às bets, questão eleitoral com forte dimensão de gênero. As mulheres não aparecem apenas como apostadoras, mas também como familiares que lidam com consequências econômicas e emocionais do endividamento e do vício.

Segundo o Instituto Clarice, 62% das mulheres apoiam a proibição das casas de apostas, contra apenas 50% dos homens. Ao menos dois terços delas avaliam que as apostas estão acabando com as famílias, contra 59% dos homens. Elas também reconhecem que o endividamento provocado pelas apostas contribui para o aumento da violência doméstica.

Reconhece-se, assim, que as mulheres são um setor social profundamente impactado com as bets, seja em sua dimensão material – pois são a maioria como chefes de família, controlam o orçamento familiar e são historicamente responsáveis por construir alternativas financeiras em contextos de crise – seja no âmbito emocional ou psicológico.

Essas discussões ganham centralidade em uma disputa eleitoral estreita, como tem sido demonstrado pelas pesquisas, em que o peso numérico das mulheres, e as diferenças de seu comportamento, tornam o voto feminino uma dimensão relevante. As oscilações de setembro, as diferenças entre primeiro e segundo turno e o contingente de indecisas podem explicar por que as duas campanhas intensificaram seus apelos a ela, mas, não existe um “voto feminino” único.

As mulheres são atravessadas pelas dimensões de classe, raça, sexualidade, região, escolaridade, idade; são do campo e da cidade. É preciso compreender quais mulheres estão mudando de posição, por quais razões e em torno de quais agendas.

*Pesquisadora de pós-doutorado da “Cátedra Darcy Ribeiro: Soberania, Educação e Política” (IEAT/UFMG), doutora pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFMG.

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