A Argentina confirmou na madrugada desta quarta-feira (28) que o senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato derrotado à Presidência da República, fugiu do Brasil para a Argentina e seguiu a caminho do Equador acompanhado da esposa e das duas filhas.
O senador e sua família receberam vistos dos Estados Unidos no dia anterior, concedidos pelo governo do presidente Donald Trump, segundo a agência de notícias AP.
A fuga de Flávio Bolsonaro pelo país vizinho deverá piorar ainda mais as já desgastadas relações diplomáticas entre Brasil e Argentina, que se deterioraram com declarações feitas pelo presidente argentino, Javier Milei, durante a recente disputa pela Presidência.
Milei foi ao Brasil para participar de atos de campanha de Bolsonaro e, em solo brasileiro, chamou o presidente Lula da Silva de “ladrão”, “presidiário” e “delinquente”. Depois disso, o Brasil comunicou a dispensa do embaixador da Argentina em Brasília e decidiu não enviar o embaixador brasileiro a Buenos Aires, efetivamente rebaixando as relações diplomáticas entre os dois países.
O governo argentino também se recusou inicialmente a reconhecer a vitória de Lula nas eleições. O porta-voz da Presidência da Argentina, Adrián Ravier, disse que o Executivo registrou o resultado do pleito e afirmou que Lula também não parabenizou Milei após a vitória do argentino em 2023.
“Quando em 2023 Javier Milei foi eleito, não houve nenhum gesto do presidente Lula para cumprimentá-lo pessoalmente nem nada. Por enquanto, não há nenhum comunicado que vamos fazer”, destacou.
A fuga de Flávio Bolsonaro pelo país vizinho se dá apesar de o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes ter proibido o senador de deixar o país e determinar que ele entregasse seus passaportes, no âmbito de uma investigação criminal sobre seu suposto envolvimento num esquema de lavagem de dinheiro. Bolsonaro não entregou os passaportes, e os documentos foram cancelados pela Polícia Federal.
Argentina inicialmente negou presença de Flávio
O jornal argentino Clarín diz ter sido informado de que não havia, na Argentina, nenhum alerta vigente contra Flávio Bolsonaro que impedisse sua entrada e lembrou que o senador também tem passaporte italiano, documento que ele poderia ter utilizado ao cruzar a fronteira por via terrestre, passando pelo controle migratório. Além disso, brasileiros Não precisam de passaporte para entrar na Argentina, basta um documento de identidade.
A autoridade migratória argentina assinalou que “os que ingressaram no país possuíam documentação de viagem válida e não enfrentavam qualquer impedimento legal para entrar; além disso, sua passagem foi registrada pela autoridade competente sem qualquer incidente”.
Durante o dia, o governo de Milei negou “enfaticamente” que Flávio Bolsonaro tivesse entrado na Argentina, e também as autoridades de migração disseram que não havia registro de entrada dele no país.
Só na madrugada desta quarta-feira, às 2h01, a autoridade migratória argentina comunicou, por meio de uma postagem na rede social X, que Flávio Bolsonaro e sua família cruzaram a fronteira para entrar no país às 22h50. Até então, o paradeiro dele era desconhecido.
“A Direção Nacional de Migrações informa que, às 22h50 do dia 27/10, entraram pelo posto de fronteira da Ponte Internacional Tancredo Neves, na província de Misiones, os cidadãos Flavio Nantes Bolsonaro, Fernanda Antunes Figueira Bolsonaro, Carolina Figueira Bolsonaro e Luiza Figueira Bolsonaro. Eles apresentaram documentação de viagem válida, sem qualquer impedimento legal para a entrada no país; a passagem foi registrada pela autoridade competente, sem incidentes”, comunicou a autoridade.
“Além disso, às 23h30, o grupo embarcou em um voo privado, operado pela empresa Baires Fly S.A., com destino à cidade de Guayaquil, no Equador, conforme consta no plano de voo”, concluiu.
A ida para os EUA
O comunicado oficial foi divulgado três horas após a passagem do grupo pela fronteira. Por volta das 23h, duas vans da empresa brasileira Iguaçu Dallas Travel atravessaram a fronteira em Puerto Iguazú, vindas do lado brasileiro, informou o Clarín.
Segundo a emissora TN, os veículos seguiram em velocidade máxima, escoltados por uma viatura da Polícia de Segurança Aeroportuária (PSA), até entrarem diretamente na pista do Aeroporto de Puerto Iguazú, em Misiones.
A emissora argentina C5N, que transmitia ao vivo do aeroporto no momento da chegada das vans, informou que a comitiva era composta de quatro veículos, com escolta da polícia, e ao menos um deles entrou na pista do aeroporto.
A bordo de um dos veículos, de vidros escurecidos, havia uma pessoa usando boné, sentada no banco traseiro, que o Clarín identificou como sendo Flávio Bolsonaro. O jornal observou que a movimentação de segurança vista no local era incomum para um aeroporto que, àquela hora, quase não recebe voos.
Segundo o jornal argentino La Nación, o estrategista de Milei, Santiago Caputo, estava na província de Misiones no momento da partida da aeronave privada, o que aumentariam as suspeitas de colaboração do governo argentino na fuga de Flávio. A Casa Rosada negou qualquer envolvimento no caso.
Ainda de acordo com o La Nación, perfis ligados ao campo libertário comemoram nas redes sociais a saída de Flávio Bolsonaro pela Argentina, um deles seria Juan Pablo Carreira, conhecido nas redes como Juan Doe, que ocupa o cargo de diretor de Comunicação Digital da Presidência.
“O governo de Milei é o governo com mais coragem da história. Flávio Bolsonaro está a salvo das garras do comunismo, que quer prender todos os opositores; e agora poderá continuar a luta a partir dos Estados Unidos, em vez de fazê-lo de uma cela em Brasília, como seu pai”, escreveu nas redes sociais.
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