As internações por Acidente Vascular Cerebral (AVC) aumentaram 33% na Bahia entre 2020 e 2025, passando de 13.802 para 18.334 registros, segundo dados do DataSUS utilizados no levantamento que fundamenta esta reportagem. Entre janeiro e julho de 2026, foram contabilizados 10.211 registros, número 31% superior aos 7.787 registrados no mesmo período de 2021.
Os dados apresentados também apontam que os homens representam 51% dos pacientes e que a faixa etária de 70 a 79 anos concentra 32% dos registros. Esses percentuais integram o levantamento original, mas o período de referência precisa ser identificado na base consultada para que a comparação seja interpretada corretamente.
O AVC acontece quando o fluxo sanguíneo para uma região do cérebro é interrompido. Isso pode ocorrer pela obstrução de um vaso sanguíneo, no caso do AVC isquêmico, ou pelo rompimento de um vaso, no AVC hemorrágico. A falta de circulação adequada pode provocar lesões cerebrais e comprometer diferentes funções do organismo.
Segundo o Ministério da Saúde, reconhecer os sintomas e procurar atendimento médico imediatamente aumenta as chances de recuperação. Os sinais de alerta incluem fraqueza ou formigamento em um lado do corpo, alteração na fala, desvio da boca, dificuldades de equilíbrio e alterações na visão. As sequelas variam de acordo com a região e a extensão da lesão e podem afetar os movimentos, a fala, a sensibilidade, a visão, a cognição e o estado emocional.
O mês de outubro também chama a atenção para a conscientização sobre a doença. O Dia Mundial do Acidente Vascular Cerebral e o Dia Nacional de Prevenção ao AVC são lembrados em 29 de outubro, data que reforça a importância de reconhecer os sinais e buscar ajuda rapidamente.
Atendimento rápido pode limitar as sequelas do AVC
A neurologista Luana Amorim, médica da Florence, instituição apresentada no material de origem como o primeiro Hospital de Transição do Norte e Nordeste, destaca a importância de reconhecer os sinais da doença e procurar atendimento sem demora.
“O AVC é uma emergência médica em que cada minuto conta. Quanto mais rápido o paciente recebe atendimento, maiores são as chances de limitar a área do cérebro afetada e, portanto, as sequelas. Por isso é tão importante reconhecer os sinais, como boca torta, fraqueza em um lado do corpo e dificuldade para falar, e procurar ajuda imediatamente”, alerta Luana Amorim, médica neurologista da Florence, o primeiro Hospital de Transição do Norte e Nordeste.
Diante de sintomas súbitos compatíveis com AVC, a recomendação é procurar atendimento de emergência. O Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) pode ser acionado gratuitamente pelo número 192. O serviço funciona 24 horas por dia e atende situações de urgência, incluindo suspeitas de AVC.
A rapidez no atendimento é importante para a avaliação do quadro e a definição do tratamento adequado. Mesmo após a fase de emergência, muitos pacientes precisam de acompanhamento e reabilitação para recuperar funções comprometidas pela lesão cerebral.
AVC mudou a rotina de enfermeiro de 41 anos
Antes de sofrer um AVC isquêmico, em abril de 2026, Hebert Aguiar, de 41 anos, mantinha uma rotina movimentada. Enfermeiro, ele trabalhava em uma casa de acolhimento que recebia pacientes vindos a Salvador para tratamento médico. Ao mesmo tempo, cursava Psicologia e participava de um grupo de terapias comunitárias humanizadas, com rodas terapêuticas.
“Tinha uma rotina muito agitada”, conta.
A rotina mudou após o AVC, que atingiu o lado esquerdo do cérebro. Hebert começou a sentir alterações físicas e dificuldades para realizar atividades básicas.
“Eu senti o braço formigando, ao mesmo tempo dormente, a boca estava torta, dificuldade para falar, para ficar em pé, dor na cabeça”, descreve.
Ele estava sozinho em casa quando os sintomas começaram. O socorro só aconteceu quando o marido chegou ao local. Como Hebert não conseguia se movimentar normalmente, precisou de ajuda para chegar ao hospital.
“Meu marido não conseguia me carregar. Eu tenho 1,85 m e pesava 90 kg, então cheguei no hospital de cadeira de rodas e fui logo para a sala vermelha”, lembra.
Segundo o relato de Hebert, os médicos explicaram que a demora no atendimento comprometeu as possibilidades de reverter as sequelas que atingiram o lado direito do corpo. Entre as dificuldades estavam alterações na fala e limitações nos movimentos do braço, da perna e do rosto.
“Quando soube que era um AVC, a minha ficha não caiu. Fiquei sem reação”, diz.
Hebert permaneceu cinco dias na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) e ficou internado por quase 15 dias. Durante esse período, enfrentou dificuldades para se comunicar, inclusive na fase inicial da recuperação.
“Na UTI, eu não conseguia falar. Só voltei a me comunicar um pouco, através de gestos, quando fui para a semi-UTI. Foi horrível”, relata.
Durante a internação, a família recebeu uma avaliação médica sobre as dificuldades que Hebert poderia enfrentar para voltar a andar. O marido, porém, manteve a confiança na recuperação. Segundo Hebert, ele acreditava que o paciente voltaria a caminhar.
Após a alta do hospital geral, Hebert continuou o processo de recuperação na Florence. Na chegada, ainda não conseguia andar, mantinha o braço direito elevado e não conseguia falar.
Reabilitação ajuda a recuperar movimentos e autonomia
A reabilitação tem como objetivo recuperar, dentro das possibilidades de cada paciente, funções comprometidas pelo AVC e favorecer a retomada da autonomia. O processo pode envolver diferentes profissionais, conforme as necessidades identificadas na avaliação clínica, incluindo médicos, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, terapeutas ocupacionais, psicólogos e nutricionistas.
As diretrizes do Ministério da Saúde para a reabilitação de pessoas que sofreram AVC orientam as equipes multiprofissionais no cuidado de pessoas que apresentam alterações físicas, auditivas, visuais, intelectuais e emocionais após a doença. A avaliação profissional ajuda a definir as necessidades e os objetivos do tratamento de cada pessoa.
A neurologista Luana Amorim explica que o período após o AVC exige atenção às possibilidades de reorganização do cérebro e à continuidade dos cuidados.
“Nos primeiros meses depois do AVC, o cérebro tem uma capacidade maior de se reorganizar, o que chamamos de neuroplasticidade. Uma reabilitação intensiva e precoce aproveita essa janela e faz diferença real na recuperação dos movimentos, da fala e da independência do paciente”, explica Luana Amorim.
A experiência de Hebert mostra parte dos desafios e dos avanços que podem ocorrer durante esse processo. Na Florence, ele voltou a caminhar, uma das principais preocupações desde o início da recuperação.
“A minha maior preocupação era não voltar a andar. E graças a Deus eu voltei a andar. Eu andava no quarto, na área de reabilitação, no jardim. Eu subia as escadas, andava nos corredores. Quando eu voltei a andar, eu andava o tempo todo”, relata.
O retorno dos movimentos permitiu que ele retomasse gradualmente atividades do dia a dia. A recuperação, porém, continua, e Hebert ainda utiliza um recurso para auxiliar sua mobilidade.
“Hoje, eu estou bem, estou andando, faço as coisas em casa, lavo os pratos, faço comida. Uso uma órtese na perna direita que é importante para a minha mobilidade. Estou mais independente”, comemora.
Ele também destaca a importância da reabilitação e da fé durante o período de recuperação. A experiência trouxe mudanças à rotina, mas não eliminou seus planos para o futuro.
“Eu sempre acreditei que eu ia voltar a andar. Eu sou uma pessoa muito religiosa e sempre acreditei na proposta divina”, resume.
Hebert pretende voltar a estudar e concluir a graduação em Psicologia. O objetivo faz parte da retomada dos projetos que mantinha antes do AVC, enquanto segue o processo de recuperação.
Prevenção continua importante após o AVC
A recuperação não encerra os cuidados com a saúde. Segundo a neurologista Luana Amorim, pessoas que já sofreram um AVC apresentam risco maior de ter outro episódio. Por isso, o acompanhamento médico e o controle dos fatores de risco devem continuar após a fase inicial do tratamento.
“Quem já teve um AVC tem risco maior de ter um novo episódio. Por isso, além da reabilitação, é essencial controlar a pressão arterial, o colesterol e o diabetes, manter uma alimentação equilibrada, praticar atividade física e fazer acompanhamento médico regular. Prevenção e reabilitação andam juntas”, reforça a Luana Amorim.
O Ministério da Saúde destaca a importância de controlar fatores de risco e manter hábitos saudáveis, como manter a pressão arterial sob controle, adotar uma alimentação equilibrada e praticar atividades físicas regularmente. O acompanhamento médico também permite avaliar as necessidades de cada paciente e orientar os cuidados após um episódio de AVC.
Reconhecer os sinais, procurar atendimento de emergência e manter o acompanhamento após a alta são etapas importantes do cuidado. Para quem apresenta sequelas, a reabilitação pode contribuir para recuperar habilidades e ampliar a independência, respeitando as condições clínicas e a evolução de cada paciente.
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