Gabriel Galípolo, o presidente do Banco Central, disse certa vez a um interlocutor, antes de assumir o BC, que os derrotados da eleição de 2022 queriam impor a agenda econômica ao vencedor. O dia seguinte à eleição de 2026 vê a repetição do enredo. No dito “mercado” e na mídia, a porta-voz dos interesses do sistema financeiro, o que não falta é pregação de arrocho fiscal. E o vitorioso nas urnas?

“O presidente Lula não vai aceitar ser emparedado pelo ‘mercado’, nem ser tolhido por regras fiscais rígidas”, diz um economista de cargo elevado no governo. “Vai montar um Ministério com atores capazes de construir uma estratégia de política econômica que mantenha a estabilidade fiscal mas dê ao governo espaço para políticas públicas que permitam ao País dar um salto de desenvolvimento.”

O “salto” depende de uma das obsessões de Lula: a ampliação dos investimentos públicos. O “mercado” sustenta que não há como aumentá-los por causa da dívida pública, só em caso de arrocho fiscal, com o governo a cortar gastos para pagar débitos, inclusive na área social.

Quando Lula assumiu, a dívida pública era de 71% das riquezas nacionais, o PIB. Agora, de 82%. O juro do BC pesa nela, parte é atrelada à chamada Selic. Essa taxa está em 13,75%, a mesma deixada por Jair Bolsonaro. Esteve em níveis superiores por um ano e meio com Lula, de março de 2025 a agosto passado.

O “mercado” defende o arrocho para conter a dívida, pois conviver com juro civilizado não faz parte da sua cartilha. É a receita de Javier Milei na Argentina. Era a receita de Flávio Bolsonaro, que embora a escondesse na campanha, tinha tido Milei como estrela no lançamento de sua candidatura e tinha como coordenadora do programa econômico alguém (Daniella Marques) que dizia ser a Argentina um “ótimo exemplo”.

Dois dias após a reeleição, Lula festejou o aniversário em Brasília e comentou publicamente que muitos “trabalharam contra nós”. O sistema financeiro estava na lista dos adversários citados, ao lado das big techs — em especial a Meta, dona de Instagram, Facebook e WhatsApp — e dos Estados Unidos. Tendo enfrentado e vencido essa coalizão, não há motivo para Lula entregar à política econômica ao “mercado”.

“Ninguém apoiou o Lula, ninguém ajudou a gente a elaborar o programa de governo, ninguém defendeu nossas teses, ninguém arrumou um voto, mas quer enquadrar o governo. Normal, é da vida, estamos acostumados. A gente só não pode cometer o erro da Dilma 2. Temos de governar com o programa que ganhou”, afirma um integrante do comitê da reeleição.

Dilma Rousseff derrotou o tucano Aécio Neves em 2014 da forma apertada como se deu com Lula agora: 51,6% a 48,3%. A campanha dela tinha politizada, contra os bancos, os ricos etc. Ao montar o novo Ministério, botou na Fazenda um economista pró-austeridade fiscal, Joaquim Levy. Perderia popularidade ao longo de 2015 e se tornaria presa do impeachment em 2016.

Para não perder o ibope e manter o eleitorado mobilizado, Lula terá um trunfo no próximo mandato: as redes sociais. Acesso ao celular e às redes até o primeiro turno da eleição, apesar dos conselhos de quem o cerca, tomou gosto por eles no turno final. Descobriu que possui canal direto com os brasileiros, sem intermediários. E pretende usá-lo todos os dias. “Não vou aceitar ser sequestrado por jornalista com má-fé”, disse no discurso da vitória.

Esse canal será necessário não somente para adotar uma política econômica avessa aos interesses do “mercado” e da mídia. Terá pela frente o Congresso mais conservador desde o fim da ditadura. É o que leva aquele membro do comitê da reeleição a comentar: “A esquerda tem de entender que precisa estar em estado permanente de atenção e de mobilização. A extrema-direita faz isso faz tempo, politiza tudo”.

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Créditos do autor: André Barrocal

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