País registrou 2.162 processos de pesquisa para mineração desde 2023, mas tem só 8 concessões de lavra
O Brasil registrou 2.162 processos referentes à pesquisa mineral de terras-raras desde 2023, segundo levantamento feito pelo Poder360 a partir de dados da ANM (Agência Nacional de Mineração), que vão até janeiro de 2026. O volume inclui requerimentos e autorizações de pesquisa, etapas iniciais em que empresas solicitam ou recebem aval para estudar áreas com possível ocorrência desses elementos.
Apesar da corrida por novas áreas, o Brasil tem só 8 concessões de lavra para terras-raras, fase que autoriza a extração comercial. Todas estão em Goiás e são vinculadas à mesma empresa: a Serra Verde, única com produção comercial relevante no país.
BOOM DA PESQUISA POR RESERVAS VIÁVEIS
Até 2023, o número total de processos relacionados à pesquisa de áreas para a exploração de terras-raras era de apenas 343, levando em consideração que os dados da ANM vão até 1975.
De acordo com o diretor-presidente do Ibram (Instituto Brasileiro de Mineração), Pablo Cesário, parte do avanço recente da busca por terras-raras está ligada à uma mudança regulatória implementada pela Lei nº 14.514 de 2022. A legislação alterou o tratamento dado a minerais antes enquadrados dentro da lógica dos minérios nucleares.
Segundo ele, esse enquadramento restringia a atuação privada, já que atividades nucleares estavam restritas ao monopólio estatal. O impasse com as terras-raras se dá porque depósitos desses elementos podem estar associados à presença de minerais que contêm urânio e tório, elementos classificados como nucleares.
Antes da mudança legal, essa associação fazia com que parte desses projetos fosse submetida a regras mais restritivas, o que dificultava a pesquisa e a lavra pela iniciativa privada.
“Ele colocava tudo como se fosse nuclear. Sendo nuclear, vira um monopólio estatal”, afirmou Cesário.
A legislação vigente permite a atuação da iniciativa privada na pesquisa e lavra de minérios nucleares, embora tenha mantido o monopólio da INB (Indústrias Nucleares do Brasil) em etapas ligadas à atividade nuclear, conforme determinado na Constituição.
Cesário afirma, contudo, que há também a influência da demanda global por terras-raras. Os 17 elementos da tabela periódica que compõem esse grupo abastecem cadeias estratégicas da economia contemporânea. Eles são usados, por exemplo, em componentes de data centers que sustentam ferramentas de inteligência artificial, além de motores de carros elétricos, turbinas eólicas, baterias, semicondutores, sensores, telas e sistemas de armazenamento de energia.
Com o avanço dessas tecnologias, as terras-raras ganharam valor econômico e geopolítico. Isso aumentou a busca por áreas onde esses elementos possam ser encontrados em concentrações suficientes para justificar a exploração comercial.
Apesar do nome, as terras-raras não são necessariamente escassas na natureza. O termo se refere a um conjunto de 17 elementos químicos com propriedades magnéticas, ópticas e eletrônicas importantes para a indústria de alta tecnologia.
A dificuldade está em encontrar jazidas com teor adequado, extrair o minério de forma economicamente viável e dominar as etapas de separação e processamento, que concentram boa parte do valor da cadeia.
PRODUÇÃO NO BRASIL ATUALMENTE
Apesar do incentivo à pesquisa mineral, o avanço dos processos ainda não se traduziu em produção relevante. O Brasil tem a 2ª maior reserva de terras-raras do mundo, estimada em 21 milhões de toneladas, mas produziu apenas 2.000 toneladas em 2025. O volume coloca o país só na 9ª posição global de produção, atrás de países com reservas menores ou menos conhecidas, como Mianmar, Tailândia, Índia e Madagascar.
Hoje, a única operação comercial relevante no país é a da Serra Verde, em Goiás. A empresa detém as 8 concessões de lavra de terras-raras, localizadas em regiões próximas. Segundo Cesário, a companhia está à frente das demais porque começou antes e conseguiu desenvolver uma rota tecnológica própria para chegar à produção de carbonatos de terras-raras.
“Eles são atrevidos… Pioneiros, mesmo. A tecnologia que eles têm hoje foram eles que inventaram”, afirmou.
O especialista explica que a Serra Verde levou cerca de 15 anos até iniciar a produção. Para ele, o diferencial da empresa foi combinar pesquisa mineral, desenvolvimento tecnológico e capacidade de processamento.
Essa rota tecnológica envolve a transformação do minério em concentrados e, depois, em carbonatos de terras-raras. A última etapa é considerada uma das mais sensíveis da cadeia, porque exige tecnologia pouco difundida fora da China.
De acordo com Cesário, a capacidade de processamento em escala industrial é o principal fator que separa países com reservas minerais daqueles capazes de disputar a cadeia global do produto.
“Essa tecnologia é altamente controlada. A capacidade de processamento em escala industrial, na verdade, só a China tem. Algumas empresas fora os chineses têm parcialmente”, disse.
Em abril de 2026, a Serra Verde foi incorporada à norte-americana USA Rare Earth em uma operação avaliada em US$ 2,8 bilhões. A transação levou os acionistas da Serra Verde a se tornarem os maiores acionistas individuais da empresa resultante nos Estados Unidos.
Embora a operação tenha sido interpretada como a venda de uma empresa brasileira para estrangeiros, a Serra Verde já tinha sido concebida com capital internacional antes da incorporação pela USA Rare Earth. A mineradora foi constituída com investidores dos Estados Unidos e do Reino Unido.
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FUTURO DAS TERRAS-RARAS NO BRASIL
Apesar da produção ainda pequena, Cesário vê espaço para expansão acelerada do setor no Brasil. Segundo ele, outras empresas estão em fases anteriores do processo minerário e podem avançar para projetos de produção nos próximos anos.
O diretor-presidente do Ibram cita o projeto da Borborema, no sul da Bahia, como um dos mais promissores. Segundo ele, a empresa já tem reserva comprovada, está capitalizada e deve iniciar com uma estrutura de refino no polo químico de Salvador.
“Acho que a próxima é Borborema. Provavelmente a gente vai ver isso em breve na Bahia”, afirmou.
A Bahia, assim como Goiás, é um Estado bastante cobiçado por mineradoras que desejam entrar nesse mercado. A região já foi objeto de 868 processos de autorização de pesquisa para mineração de terras-raras desde 1975.
Segundo Cesário, o projeto da Borborema pode ser equivalente ao da Serra Verde em capacidade tecnológica, produção e volume.
Ele ainda estima que o Brasil possa ter de 3 a 4 projetos equivalentes à Serra Verde nos próximos anos.
“Acho que em breve avançaremos na produção desses carbonatos. A gente vai acelerar muito rápido.”, afirmou.
O avanço, porém, depende de os projetos conseguirem sair da fase de pesquisa mineral e chegar à lavra comercial. Também será necessário superar o gargalo tecnológico do processamento, etapa em que se concentra o maior valor da cadeia e que ainda é dominada por poucos países e empresas.
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Créditos do autor: Poder360 ·
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