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A dor crônica afeta entre 30% e 40% dos adultos brasileiros, segundo dados do Ministério da Saúde reunidos em pesquisa da Sociedade Brasileira para o Estudo da Dor (SBED). Além do desconforto físico, o problema pode comprometer o sono, prejudicar a saúde emocional, limitar movimentos e reduzir a independência para atividades cotidianas. Especialistas ressaltam que o tratamento adequado pode ajudar a recuperar funções e preservar a qualidade de vida.

A importância do controle da dor é o tema central do Dia Mundial de Cuidados Paliativos, celebrado neste sábado (10). Em 2026, a campanha internacional coordenada pela Aliança Mundial de Cuidados Paliativos e Hospice (WHPCA) destaca o manejo da dor como parte essencial da assistência a pessoas que enfrentam doenças graves. A proposta é chamar a atenção para a necessidade de aliviar o sofrimento em diferentes fases do adoecimento.

Segundo a médica paliativista Yanne Amorim, da Florence Hospital de Transição, o sofrimento provocado pela dor não deve ser tratado como uma consequência inevitável da doença. A avaliação clínica e a definição de estratégias terapêuticas podem contribuir para que o paciente recupere atividades e mantenha sua autonomia.

“A dor não é algo que o paciente precisa aceitar calado. Ela pode e deve ser avaliada e tratada. Quando conseguimos controlar a dor, devolvemos à pessoa a possibilidade de voltar a fazer o que dá sentido à vida dela”, afirma a especialista.

Mais de 625 mil brasileiros precisam de cuidados paliativos por ano

A necessidade de cuidados paliativos representa um desafio para os sistemas de saúde. Segundo estimativas divulgadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em 2020, cerca de 56,8 milhões de pessoas precisam dessa assistência anualmente em todo o mundo, mas apenas 14% recebem o atendimento necessário.

Organização Mundial da Saúde
No Brasil, a Academia Nacional de Cuidados Paliativos (ANCP) estima que mais de 625 mil pessoas necessitem desse tipo de acompanhamento a cada ano. Apesar da ampliação da oferta de serviços especializados, o acesso permanece desigual entre as regiões do país.

Organização Nacional de Acreditação
O Atlas dos Cuidados Paliativos no Brasil 2025, elaborado pela ANCP e publicado em 2026, identificou 423 programas de atendimento, ante 234 registrados em 2022. A diferença corresponde a 80,7%, mas a entidade ressalta que o resultado não representa necessariamente a criação de 189 novos serviços. O levantamento mais recente adotou uma metodologia ampliada e passou a considerar programas institucionais anteriormente não identificados.

Embora os números indiquem avanços na organização da assistência, o desafio continua sendo transformar a expansão dos programas em atendimento efetivo para as pessoas que precisam de acompanhamento.

Crédito: Divulgação Florence

Cuidados paliativos podem começar no diagnóstico de doenças graves

Apesar de frequentemente associados à fase final da vida, os cuidados paliativos podem ser iniciados desde o diagnóstico de uma doença grave e oferecidos simultaneamente aos tratamentos destinados à cura ou ao controle da enfermidade.

Segundo a médica geriatra e paliativista Jackeline Gomes, cooperada da Unimed Goiânia, essa abordagem pode beneficiar pessoas com câncer, demências, doenças neurológicas progressivas e insuficiências cardíaca, pulmonar, renal ou hepática, além de outras condições que provoquem sofrimento e perda de funcionalidade.

A especialista ressalta que receber cuidados paliativos não significa interromper os tratamentos direcionados à doença. A assistência busca aliviar sintomas e oferecer suporte ao paciente e à família, considerando os benefícios e riscos de cada intervenção.

Outro aspecto importante é a participação do paciente nas decisões sobre o próprio cuidado. Para Jackeline, conversar antecipadamente sobre preferências de tratamento, possibilidades de internação e o local onde a pessoa deseja receber assistência pode ajudar familiares e profissionais a respeitar suas escolhas caso a doença avance.

“Ter essas conversas com antecedência traz mais segurança para os parentes e ajuda a garantir que as escolhas e a autonomia do paciente sejam respeitadas”, orienta a geriatra.

Dor persistente pode comprometer o sono e a saúde emocional

As consequências da dor prolongada vão além das limitações físicas. Pessoas que convivem com o problema podem apresentar fadiga, dificuldades para dormir, perda de mobilidade e redução da capacidade de realizar tarefas cotidianas.

O isolamento social, a ansiedade e a depressão também estão associados à dor crônica. Essa relação pode ocorrer nos dois sentidos: o sofrimento provocado pelos sintomas afeta a saúde emocional, enquanto fatores psicológicos podem intensificar a percepção dolorosa.

Para Yanne Amorim, compreender essas repercussões é fundamental para estabelecer um tratamento que considere as necessidades individuais, e não apenas a intensidade dos sintomas.

“Muitas vezes o paciente chega dizendo que a dor tirou dele o trabalho, o sono, o convívio com a família e até a vontade de sair de casa. Por isso, não olhamos só para a nota de 0 a 10. Olhamos para a pessoa inteira e para o que essa dor está roubando dela”, explica a médica.

Imagem: Magnific

Quais são os principais tipos de dor?

Identificar as características e os mecanismos responsáveis pela dor é uma etapa importante para definir o tratamento.

A dor aguda geralmente aparece em resposta a lesões, inflamações ou procedimentos cirúrgicos e tende a desaparecer quando sua causa é resolvida. Já a dor crônica persiste por mais de três meses e, em determinadas situações, passa a ser reconhecida como uma condição de saúde por si mesma.

Os mecanismos de dor também apresentam diferenças. A dor nociceptiva está relacionada a lesões ou processos inflamatórios em músculos, ossos, articulações e órgãos internos, como pode ocorrer em casos de artrose, lombalgia e determinados tipos de câncer.

A dor neuropática resulta de lesões ou alterações no funcionamento do sistema nervoso. Costuma ser descrita como sensação de queimação, choque ou formigamento e pode surgir em pessoas com neuropatia diabética, após episódios de herpes-zóster ou como consequência da quimioterapia.

Outro mecanismo é o da dor nociplástica, caracterizada por alterações no processamento dos sinais dolorosos pelo sistema nervoso, sem uma lesão evidente que explique o quadro. A fibromialgia é um dos exemplos mais conhecidos.

Quando diferentes mecanismos aparecem simultaneamente, a condição é classificada como dor mista, situação frequente entre pacientes oncológicos.

Essa diversidade ajuda a explicar por que pessoas com sintomas aparentemente semelhantes podem necessitar de abordagens terapêuticas distintas.

Tratamento da dor pode combinar medicamentos e reabilitação

O controle da dor crônica exige uma avaliação individualizada, que considere a origem dos sintomas, sua intensidade e as consequências para a vida do paciente.

As possibilidades terapêuticas incluem medicamentos, procedimentos intervencionistas, fisioterapia, exercícios orientados, acupuntura, terapia ocupacional e acompanhamento psicológico. Esses recursos podem ser utilizados de forma combinada, conforme as necessidades clínicas.

O atendimento multidisciplinar reúne profissionais de diferentes áreas, como medicina, enfermagem, fisioterapia, psicologia, terapia ocupacional e nutrição. A atuação conjunta permite acompanhar os sintomas físicos, as dificuldades funcionais e os aspectos emocionais associados à dor.

Esse modelo também favorece a definição de objetivos terapêuticos relacionados à recuperação de movimentos, à realização de atividades cotidianas e à preservação da independência.

Assistência individualizada busca preservar a autonomia

Com unidades na Bahia e em Pernambuco, a Florence Hospital de Transição informa que adota o acompanhamento multidisciplinar no atendimento a pacientes que superaram a fase aguda de uma internação, pessoas com doenças crônicas e indivíduos que necessitam de cuidados paliativos.

Segundo a instituição, os planos terapêuticos são individualizados e incluem avaliação contínua da dor, com ajustes realizados conforme a evolução clínica e a resposta aos tratamentos.

A assistência tem entre seus objetivos proporcionar conforto, favorecer a recuperação de funções, ampliar a independência e reduzir o risco de novas internações. O acompanhamento também busca contribuir para um retorno mais seguro ao ambiente domiciliar.

Para Yanne Amorim, o controle da dor deve integrar o cuidado desde as primeiras etapas de uma doença grave, sem representar a interrupção de outras possibilidades terapêuticas.

“Cuidado paliativo não é desistir do paciente, é justamente o contrário. É garantir que, em qualquer fase da doença, ele tenha a dor controlada, autonomia para tomar decisões e qualidade de vida ao lado de quem ama. Controlar a dor é o primeiro passo para tudo isso”, reforça a médica.

 

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