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Estar na escola não significa necessariamente sentir-se parte dela. Para crianças e adolescentes atípicos, situações como isolamento, dificuldade para fazer amizades, bullying e pouca participação nas atividades podem interferir na experiência escolar e na construção de vínculos.

O tema ganha espaço durante o Setembro Amarelo, campanha de conscientização sobre prevenção do suicídio e promoção da saúde mental. Dados recentes da Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) ajudam a dimensionar parte dos desafios enfrentados pelos adolescentes brasileiros: em 2024, 27,2% dos estudantes de 13 a 17 anos disseram ter sofrido bullying duas ou mais vezes nos 30 dias anteriores à pesquisa. O levantamento foi realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), em parceria com o Ministério da Saúde e apoio do Ministério da Educação.

A pesquisa também mostrou que 12,7% dos adolescentes relataram ter sofrido bullying nas redes sociais. Entre os estudantes de 13 a 15 anos, 3,9% disseram não ter amigos próximos. O percentual chegou a 5,5% entre aqueles de 16 e 17 anos.

Os dados da PeNSE não são específicos para crianças e adolescentes atípicos, mas ajudam a mostrar a dimensão das experiências de bullying e de ausência de vínculos entre estudantes brasileiros.

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Quando a exclusão aparece na rotina escolar

A exclusão nem sempre acontece por meio de uma agressão explícita. Ela também pode surgir em situações cotidianas: quando uma criança não é escolhida para uma brincadeira, fica sozinha durante o recreio, não participa de trabalhos em grupo ou deixa de receber oportunidades porque adultos acreditam que ela não conseguirá acompanhar determinada atividade.

Para a pedagoga, psicopedagoga e especialista em educação inclusiva e deficiências múltiplas Kathia Fernanda, o primeiro passo é mudar a maneira como a criança é percebida no ambiente escolar.

“Precisamos parar de enxergar primeiro o diagnóstico e começar a enxergar a criança. Antes de ser autista, ter TDAH ou qualquer outra condição, existe um indivíduo que quer fazer amigos, brincar, participar, ser reconhecido e desenvolver suas potencialidades”, alerta Kathia Fernanda.

A legislação brasileira também estabelece a participação como um dos elementos da educação inclusiva. A Lei Brasileira de Inclusão determina que o sistema educacional deve garantir acesso, permanência, participação e aprendizagem, com recursos e serviços capazes de eliminar barreiras.

Desde 2025, a Política Nacional de Educação Especial Inclusiva também estabelece que estudantes com deficiência, transtorno do espectro autista e altas habilidades ou superdotação tenham apoio para participar, permanecer e aprender nas classes e escolas comuns.

Bullying é um problema que ultrapassa a sala de aula

Os números da PeNSE 2024 mostram que o bullying faz parte da realidade de uma parcela significativa dos estudantes brasileiros. O percentual de adolescentes que relataram sofrer provocações, humilhações ou intimidações de forma recorrente passou de 23% em 2019 para 27,2% em 2024.

A pesquisa considerou como bullying situações em que colegas “esculacharam, zoaram, magoaram, intimidaram ou caçoaram” do estudante a ponto de deixá-lo magoado, incomodado, aborrecido, ofendido ou humilhado.

Entre os motivos relatados pelas vítimas, apareceram principalmente características relacionadas à aparência. 30,2% citaram o rosto ou o cabelo e 24,7% mencionaram o corpo.

O ambiente digital também entrou na pesquisa. Em 2024, 12,7% dos adolescentes disseram ter sofrido bullying nas redes sociais. O índice chegou a 15,2% entre as meninas e a 10,3% entre os meninos.

Além dos impactos sobre a convivência, o enfrentamento do bullying passou a contar com medidas específicas na legislação. A Lei nº 14.811/2024 incluiu no Código Penal a definição de intimidação sistemática, ou bullying, e também estabeleceu o cyberbullying como conduta praticada por meio de redes de computadores, redes sociais, aplicativos, jogos on-line ou outros ambientes digitais.

Inclusão vai além da matrícula

A presença da criança na escola representa apenas uma parte da inclusão. A legislação determina que o estudante com deficiência tenha condições de acesso, permanência, participação e aprendizagem, além de recursos de acessibilidade e apoio necessários para sua participação nas atividades educacionais.

O Atendimento Educacional Especializado (AEE), por exemplo, tem justamente entre suas finalidades a eliminação de barreiras que possam comprometer a participação dos estudantes. Segundo o Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), o serviço deve complementar ou suplementar a escolarização e considerar as singularidades de cada estudante.

Na prática, isso significa que a inclusão não envolve apenas permitir que o estudante esteja na mesma sala que os demais. A escola também precisa considerar as barreiras que dificultam sua participação nas atividades e na convivência escolar.

A própria Lei Brasileira de Inclusão determina ainda a adoção de práticas pedagógicas inclusivas, a oferta de profissionais de apoio quando necessários e o acesso a atividades recreativas, esportivas e de lazer em igualdade de condições.

Mudanças de comportamento podem indicar sofrimento

O isolamento também pode aparecer por meio de mudanças na rotina. Recusar-se a frequentar determinados espaços, perder o interesse por atividades, apresentar queda repentina no rendimento ou mudar significativamente o comportamento são sinais que merecem atenção.

Em publicação de setembro de 2026, o Hospital Escola da Universidade Federal de Pelotas, integrante da Rede HU Brasil, orientou familiares, professores e outros adultos de referência a observar mudanças como isolamento, tristeza persistente, irritabilidade intensa, alterações no sono ou na alimentação, queda no desempenho escolar e perda de interesse por atividades antes prazerosas.

Esses sinais não permitem, sozinhos, identificar uma causa ou estabelecer um diagnóstico. Por isso, a orientação é acolher o adolescente, escutar sem julgamentos e procurar ajuda profissional quando houver preocupação.

O UNICEF também mantém materiais voltados à comunidade escolar com orientações sobre identificação de situações graves, sofrimento mental e formas de oferecer acolhimento e apoio a crianças e adolescentes.

No Brasil, a legislação educacional determina ainda que as escolas promovam ações de conscientização, prevenção e combate a diferentes formas de violência, incluindo o bullying, além de desenvolver ações voltadas à cultura de paz.

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Pertencimento também faz parte da prevenção

Para Kathia Fernanda, falar sobre prevenção durante o Setembro Amarelo também significa discutir os espaços de convivência oferecidos às crianças e aos adolescentes.

“Falar de prevenção também é falar sobre pertencimento. Uma criança precisa saber que seu diagnóstico não define seus limites, suas relações ou suas possibilidades. Inclusão é criar espaços onde ela possa participar, construir vínculos e sentir que existe um lugar para ela”, conclui Kathia Fernanda.

A relação entre saúde mental, vínculos e convivência também aparece nos dados da PeNSE. O levantamento do IBGE incluiu questões sobre amizade, ansiedade, tristeza, vontade de se machucar e outros indicadores de saúde mental entre adolescentes.

A pesquisa mostrou que a ausência de amigos próximos aumenta entre os grupos etários analisados: 3,9% dos estudantes de 13 a 15 anos disseram não ter amigos próximos, enquanto o percentual chegou a 5,5% entre aqueles de 16 e 17 anos.

Esses números não permitem afirmar que a falta de pertencimento cause sofrimento emocional ou que o bullying leve, isoladamente, a comportamentos suicidas. Eles, porém, mostram que vínculos, convivência escolar e saúde mental fazem parte de dimensões que precisam ser observadas conjuntamente quando se fala sobre a adolescência.

A construção de um ambiente escolar inclusivo envolve, portanto, mais do que garantir a presença do estudante. Significa criar condições para que ele participe das atividades, estabeleça relações, tenha sua individualidade respeitada e encontre apoio diante de situações de violência ou sofrimento emocional.

 

 

 

 

 

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