Por Stella Ferreira Gontijo*
As eleições de 2026 resultaram na maior presença feminina da história do Congresso Nacional, que contará agora com 21% de mulheres. Serão 109 deputadas e 18 senadoras, um aumento significativo em relação à legislatura atual. Nunca o Senado teve tantas eleitas ao mesmo tempo.
Ainda assim, essa realidade permanece distante do percentual de 37% de candidatas e, mais ainda, da participação delas população brasileira (51,5%). As mulheres seguem subrepresentadas nos espaços de poder.
É verdade também que este cenário passa longe da possibilidade de se estabelecer uma bancada feminina coesa e, muito menos, feminista, tendo em vista que o contexto de polarização em que vivemos tem em seu centro disputas em torno do lugar das mulheres na sociedade e de seus direitos conquistados ao longo de séculos de lutas coletivas.
Essa divisão atravessa compreensões distintas sobre igualdade de gênero, concepções de família, posicionamentos relativos aos direitos reprodutivos, direitos sociais, igualdade salarial e enfrentamento à violência. Dessa forma, o aumento da presença de mulheres no legislativo não produz, automaticamente, uma agenda compartilhada, o que reforça a importância de compreendermos quem são essas mulheres eleitas e quais seus projetos.
O aumento do número de candidatas e eleitas não acontece por acaso e é, sobretudo, resultado de reivindicações da sociedade civil que levaram a criação de leis que garantem e protegem essas candidaturas.
Em 2009, a cota de 30% de candidaturas femininas se tornou obrigatória. Entre 2018 e 2019, passou-se a garantir também o seu financiamento. Isso se reflete em dados concretos. Quarenta e cinco mulheres foram eleitas em 2010 e, depois disso, a curva é ascendente, até chegarmos ao total de 127 deputadas e senadoras que estarão em exercício em 2027.
Segundo análise de Bárbara Bloom, Angela Boldrini e Natália Santos, a bancada feminina será 48% de direita, 43% de esquerda e 9% ao centro. A presença progressista é significativamente maior, na comparação com o perfil ideológico dos homens eleitos: 62% deles são de partidos de direita, 19% de esquerda e 19% estão com o Centrão.
Em um país cada vez mais polarizado, o PT e o PL são os partidos com as maiores bancadas na Câmara, e também lideram o maior número absoluto de mulheres eleitas, sendo 25 do PT (35,7% do total) e 22 do PL (18,2%). O PSOL, apesar de ter apenas 8 deputadas federais eleitas, se destaca pela representação feminina: 57,1% de sua bancada é composta por mulheres.
Nos estados, os números são parecidos. O PT elegeu 31,9% de mulheres; o PL, 20,3%; e o PSOL, 65,4%, nas diferentes Assembleias Legislativas espalhadas pelo País. Mas essa distribuição se deu de forma desigual, pois enquanto o Ceará elegeu o recorde histórico de 30,4% de mulheres deputadas estaduais, o Acre não elegeu nenhuma.
No Senado, das 12 senadoras eleitas, três são do PL, entre elas a ex-primeira dama Michele Bolsonaro (Distrito Federal). Outras duas são do PT, das quais podemos destacar Marília Campos, ex-prefeita de Contagem, segunda mulher de Minas Gerais a ocupar uma cadeira na Casa.
No saldo final deste que é o Senado mais conservador desde a redemocratização, a eleição de mulheres da extrema-direita contribui para que esse cenário se consolide nos próximos anos.
Michele Bolsonaro, por exemplo, tem se destacado na articulação da atuação feminina no PL, ao mesmo tempo em que se coloca publicamente contrária a importantes avanços em políticas que protegem as mulheres. Defende o ideal de família tradicional, sustentada na submissão feminina.
Isso significa que, em sua maioria, as novas senadoras provavelmente se somarão à formulação e aprovação de políticas contrárias aos avanços femininos históricos, como os direitos reprodutivos e o direito ao aborto legal em casos garantidos em lei – como em caso de estupro de vulnerável.
No esteio desses posicionamentos foi eleita como deputada estadual em São Paulo, com quase 2 milhões de votos, Eduarda Campopiano (PL), uma jovem de 23 anos cujo discurso se baseia no antifeminismo e na oposição às políticas públicas de proteção a violência contra as mulheres.
Mas o projeto está em disputa, sobretudo quando temos, também em São Paulo, Erika Hilton (PSOL) como a deputada federal mais votada da história. As duas ocupam campos diametralmente opostos no espectro político atual.
Em Minas Gerais, a deputada federal do PT eleita com maior número de votos, e segunda mais votada no estado, foi Ana Elisa, uma mulher negra de 21 anos em sua primeira candidatura a um cargo público. A terceira pessoa mais votada no estado foi Duda Salabert, uma mulher trans.
Na sequência, Ana Pimentel foi a quarta mais votada do PT e a oitava mais votada no estado, tendo dobrado sua quantidade de eleitores em comparação com 2022. Ao mesmo tempo, o parlamentar significativamente mais votado foi Nikolas Ferreira, com mais de 3 milhões de votos, muitos por identificação ideológica de uma extrema direita que ataca os direitos das mulheres e reforça uma visão tradicional dos papéis de gênero.
Nos últimos anos avançou o discurso de que mulheres devem votar em mulheres, contudo esse comportamento, muitas vezes identitário, não deve ser descolado da realidade de que eleger mulheres não significa necessariamente avançar substantivamente na conquista de direitos.
Os interesses e agendas dessas parlamentares mulheres se inserem em projetos mais amplos para o País. Por isso, as pautas progressistas, que buscam avançar na igualdade de gênero, precisam ser assumidas de forma cada vez mais definitiva também por deputados e senadores homens.
Aumentar a representação das mulheres é importante para reforçar a democracia, ao mesmo tempo em que devemos nos atentar para qual agenda política está sendo eleita. Esse aumento da participação feminina também ocorre porque a extrema direita compreendeu que as mulheres são importantes – se não fundamentais – em seu projeto de disputa por poder.
Por isso, devemos observar, daqui para a frente, quais projetos políticos encabeçados pelas mulheres terão espaço na política institucional e na sociedade brasileira. Além disso, esse quadro coloca em maior tensionamento a disputa pelo segundo turno, tendo em vista o peso decisório do voto feminino, que compõe 52,8% do eleitorado brasileiro.
Parafraseando Simone de Beauvoir, segundo o relato de Claudine Monteil, os direitos das mulheres são sempre ganhos temporários, bastando uma crise política, econômica e religiosa para sejam questionados, o que demanda vigilância permanente. O que esta em jogo no Brasil e no mundo é uma disputa civilizatória, na qual a vida e o posicionamento das mulheres está no centro.
*Pesquisadora de pós-doutorado da “Cátedra Darcy Ribeiro: Soberania, Educação e Política” (IEAT/UFMG) e doutora pelo Programa de Pós-Graduação em História da UFMG.
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Créditos do autor: Rodrigo Martins
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