A liquidação do Banco Master, determinada pelo Banco Central na semana passada, desencadeou a mais profunda crise enfrentada pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) em seus 30 anos de existência. O rombo estimado em R$ 41 bilhões, que envolve cerca de 1,6 milhão de investidores, transformou o episódio no maior resgate bancário já registrado no país, superando inclusive o caso Bamerindus, até então o mais emblemático do sistema financeiro nacional.

A derrocada do Master ganhou contornos ainda mais dramáticos após a prisão de seu principal acionista, Daniel Vorcaro, no âmbito da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal. Vorcaro, detido ao tentar deixar o país e liberado dias depois com uso de tornozeleira eletrônica, é acusado, junto ao antigo sócio Augusto Lima, de comandar um esquema fraudulento que envolveu a venda de R$ 12,2 bilhões em carteiras de crédito inexistentes ao BRB.

FGC entra em cena

De acordo com relatório publicado em setembro, o FGC dispõe de R$ 161,1 bilhões em ativos, sendo R$ 153,7 bilhões de liquidez imediata. O fundo garante até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ investidor, valor que agora será determinante para minimizar os prejuízos de centenas de milhares de clientes que foram atraídos pela promessa de retornos acima dos praticados pelo mercado, uma das principais estratégias comerciais do Master.

O reembolso será calculado com base no saldo atualizado até 18 de novembro, data da liquidação. Os pagamentos devem começar 48 horas após o FGC receber os dados oficiais dos credores, mas o processo pode levar cerca de 30 dias. Cada investidor terá até cinco anos para solicitar o resgate via aplicativo da instituição.

Maior rombo da história do FGC

A dimensão da crise supera todos os episódios anteriores do sistema financeiro. O Bamerindus, resgatado em 1997, custou o equivalente a R$ 19,6 bilhões corrigidos. Casos como BRK, BVA e Banorte também entram no histórico, mas nenhum deles chega perto do impacto estimado no colapso do Master.

Além do rombo, o episódio reacendeu debates sobre o incentivo ao risco. Em agosto, o Conselho Monetário Nacional aprovou resolução aumentando de 0,01% para 0,02% a contribuição das instituições ao FGC a partir de 2026, justamente para reduzir práticas consideradas temerárias, como as que levaram à implosão do Master.

Intervenções, afastamentos e pressão judicial

A liquidação extrajudicial do conglomerado, que incluía o Banco Master de Investimento, o Letsbank e a Master Corretora, ocorreu no mesmo período em que o presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, foi afastado por decisão judicial. O Ministério Público aponta que o banco público foi induzido a adquirir carteiras inexistentes. Costa deve depor na PF nos próximos dias.

Vorcaro, por sua vez, segue preso preventivamente. Sua defesa tenta reverter a decisão alegando risco para sua integridade física dentro da unidade prisional.

Um escândalo que expõe fragilidades

Criado a partir da compra do antigo Banco Máxima, o Master ascendeu rapidamente no mercado prometendo altos rendimentos e conquistando grande base de investidores. Agora, o mesmo banco se torna símbolo de como práticas desreguladas e operações arriscadas podem abalar a confiança no sistema financeiro, e colocar sob enorme pressão o maior mecanismo de proteção do país.

A crise ainda está longe do fim, mas seu impacto já é considerado histórico. O FGC, pela primeira vez, enfrenta um teste que pode redefinir sua atuação e expor a necessidade de maior rigor regulatório no setor bancário brasileiro.

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