A fala do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sobre ter um “preço” para desistir de sua recém-anunciada candidatura à Presidência em 2026 provocou um terremoto político no entorno do ex-presidente Jair Bolsonaro. Para aliados próximos, a declaração foi considerada desastrosa, gerou instabilidade nos mercados e evidenciou a falta de estratégia da família em um momento de fragilidade crescente.
Flávio se lançou candidato na sexta-feira (5), apresentando-se como escolhido pelo pai para disputar o Palácio do Planalto. A simples movimentação foi suficiente para derrubar a bolsa, fazer o dólar subir e afastar figuras de centro-direita que ainda orbitavam o bolsonarismo. Dois dias depois, porém, o senador recuou e admitiu a possibilidade de desistir, afirmando ter um “preço” a negociar.
“Tem uma possibilidade de eu não ir até o fim e eu tenho um preço para isso, que eu vou negociar”, disse no domingo, deixando aliados atônitos.
Fala expõe estratégia improvisada
No núcleo político bolsonarista, a avaliação é de que Flávio expôs algo que até então se mantinha nos bastidores: a intenção da família de transformar apoio político em moeda de troca para buscar algum tipo de alívio judicial para Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado e inelegível após condenações na Justiça Eleitoral.
O comentário público reforçou a percepção de que o clã estaria disposto a negociar o futuro político em troca de anistia, tese que adversários devem explorar intensamente em 2026.
Tentativa de agradar Trump
A articulação repentina da candidatura também teria, segundo aliados, outra motivação: enviar um sinal ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A família Bolsonaro teme que Trump retire sanções impostas a Alexandre de Moraes e outras autoridades brasileiras, movimento que ganharia força com a aproximação recente entre Trump e Lula.
Para o bolsonarismo, isso representaria uma derrota simbólica, pois mostraria que a aposta do ex-presidente na pressão internacional para aliviar sua situação jurídica teria fracassado.
Centro-direita se distancia
Fora do círculo bolsonarista, o gesto de Flávio foi interpretado como mais um capítulo de improviso político. A centro-direita, que já discutia a construção de uma alternativa ao bolsonarismo, viu a oportunidade de acelerar esse processo. A avaliação interna é de que a candidatura de Flávio não tem capilaridade e pode comprometer projetos partidários em andamento.
Recuo em 48 horas aumenta desgaste
A desistência possível, sinalizada apenas 48 horas após o anúncio, escancarou a desarticulação da família. Para analistas e investidores, o movimento revelou falta de rumo e ampliou a percepção de que o bolsonarismo enfrenta sua fase mais desorganizada desde 2018.
Com Bolsonaro preso e sem condições de centralizar decisões, o sobrenome que antes unificava uma fatia expressiva da direita agora parece aprofundar divisões e incertezas — inclusive dentro do próprio campo conservador.
A crise, avaliam aliados, está longe de terminar. O que se viu nos últimos dias pode ser apenas o início de uma disputa interna pelo futuro do bolsonarismo em 2026.
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