Popularidade elevada, apoio de Trump e tensões com a China marcam o início do mandato da premiê japonesa
A primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, decidiu colocar sua própria liderança em jogo ao dissolver o Parlamento apenas três meses após assumir o cargo. A medida, anunciada em janeiro, é vista como uma das mais ousadas da política japonesa recente e pode definir o futuro de seu governo em um sistema historicamente dominado por homens e por lideranças conservadoras avessas a riscos.
Parlamentar experiente e figura influente do Partido Liberal Democrata (PLD), Takaichi chegou ao posto máximo do Executivo no outono passado, após a renúncia de Shigeru Ishiba, pressionado internamente depois de uma sequência de derrotas eleitorais do partido. Em 4 de outubro, ela venceu a disputa interna do PLD em sua terceira tentativa e, no dia 21 do mesmo mês, foi eleita primeira-ministra, em um resultado considerado surpreendente.
Decisão que pode custar o cargo
Ao justificar a dissolução do Parlamento, Takaichi foi direta ao reconhecer os riscos políticos da escolha. Em coletiva de imprensa, afirmou que a iniciativa representava uma decisão “profundamente importante” e admitiu que, ao adotá-la, também colocava sua posição como primeira-ministra em risco.
O gesto rompe com a postura cautelosa tradicional da política japonesa e reforça o estilo de liderança firme que tem marcado seu curto mandato.
Popularidade alta e diplomacia direta
Desde que assumiu, Takaichi tem registrado índices de aprovação considerados excepcionalmente altos. Parte desse apoio vem de sua postura menos protocolar e mais direta nas relações internacionais, o que tem gerado repercussão positiva dentro e fora do Japão.
Durante um encontro com o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apenas uma semana após tomar posse, os dois demonstraram forte afinidade. Trump chegou a descrevê-la como “uma delícia” diante de líderes empresariais e declarou que conseguiu conhecê-la muito bem em pouco tempo. Dias antes da eleição, o republicano manifestou apoio público à japonesa e afirmou que ela já havia provado ser uma líder forte, poderosa e sábia.
A relação se ancora também na proximidade histórica entre Trump e o mentor político de Takaichi, o ex-primeiro-ministro Shinzo Abe, assassinado em 2022.
Estilo firme e valores tradicionais
O perfil decisivo da premiê e sua defesa de valores tradicionais renderam comparações com a ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher, citada por Takaichi como uma de suas inspirações políticas. Internamente, porém, o mesmo estilo também alimenta críticas.
Ela foi alvo de questionamentos por impor uma agenda de trabalho considerada extenuante, que incluiu reuniões com assessores durante a madrugada, reforçando a imagem de uma liderança centralizadora e implacável.
Crise diplomática com a China
Outro ponto de desgaste surgiu na política externa. Takaichi rompeu décadas de ambiguidade estratégica do Japão ao afirmar, no Parlamento, que um eventual ataque da China a Taiwan poderia provocar uma resposta militar japonesa. A declaração teve forte repercussão regional.
Pequim reagiu com medidas de retaliação, como o cancelamento de voos, restrições à importação de frutos do mar japoneses e o aumento de patrulhas militares. O episódio elevou a tensão entre os dois países e colocou a premiê no centro de um debate sensível sobre segurança regional.
Futuro em aberto
Ao dissolver o Parlamento e endurecer o discurso em temas estratégicos, Takaichi aposta na força de sua popularidade e em sua imagem de liderança firme para consolidar poder. O movimento, no entanto, transforma as próximas eleições em um verdadeiro plebiscito sobre seu governo.
Para aliados, trata-se de coragem política. Para críticos, um risco desnecessário. O resultado das urnas dirá se a primeira mulher a liderar o Japão sairá fortalecida ou se pagará o preço mais alto por ter apostado tudo tão cedo.
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