O governo do presidente Lula da Silva (PT), planeja lançar ainda em abril o Desenrola 2.0, uma tentativa de frear o recorde de inadimplência que atinge o país. A nova fase do programa surge em um cenário alarmante, em uma década, o número de brasileiros com o nome sujo saltou 38,1%, passando de 59 milhões em 2016 para 81,7 milhões em 2026, conforme dados da Serasa.

A grande aposta desta edição é a utilização de valores retidos no Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) para a quitação de débitos, o que pode injetar cerca de R$ 7 bilhões no processo de renegociação. Contudo, analistas de mercado e economistas veem a medida com cautela.

O fracasso estrutural da primeira versão

Um levantamento da MB Associados, consultoria do economista José Roberto Mendonça de Barros, aplicou modelos econométricos para avaliar o impacto do primeiro Desenrola, lançado em 2023. O estudo concluiu que, embora tenha havido uma redução inicial na inadimplência das famílias de baixa renda, o efeito se dissipou em apenas 18 meses.

Atualmente, a inadimplência não apenas retornou aos níveis anteriores, como já os superou no início de 2026. Segundo os especialistas, o programa funciona como um “alívio de carteira”, mas não altera os vilões reais: os juros elevados e o custo abusivo do crédito rotativo.

Perfil do endividado: Mulheres e idosos na mira

O Mapa da Inadimplência revela que a crise financeira tem rosto e classe social. A base da pirâmide é a mais afetada, 48% dos endividados ganham até um salário mínimo. O estudo aponta ainda mudanças demográficas drásticas na última década:

  • Gênero: As mulheres agora são maioria entre os inadimplentes (50,5%).

Idade: O grupo com mais de 60 anos foi o que mais cresceu, saltando de 12,23% para quase 20% do total de endividados em dez anos.

  • Setores: O setor financeiro (bancos e cartões) concentra 55% de todas as dívidas.

A Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio, reforça o pessimismo, 80,4% das famílias brasileiras possuem dívidas a vencer em março de 2026, o maior patamar da história.

Pressão eleitoral e o custo do Tesouro

A pressa em lançar o Desenrola 2.0 é lida nos bastidores de Brasília como uma resposta à pressão eleitoral. Para o relator da CPMI do INSS, Alfredo Gaspar (União-AL), e outros nomes da oposição, o uso de instrumentos parafiscais como o FGTS para este fim tem um custo elevado para o Tesouro Nacional sem oferecer uma solução definitiva.

Para os economistas da MB Associados, o governo está sob pressão para apresentar saídas rápidas, mas a solução efetiva passaria por um ajuste fiscal rigoroso que permitisse a queda sustentável dos juros, algo que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, tenta equilibrar junto ao Banco Central.

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