Os deputados federais intensificaram o uso de recursos públicos para ampliar o alcance de publicações nas redes sociais em 2026. De janeiro a junho, parlamentares destinaram R$ 2,1 milhões da Cota para o Exercício da Atividade Parlamentar para impulsionar conteúdos no Instagram e no Facebook, plataformas controladas pela Meta.
O montante é quase quatro vezes superior aos R$ 572 mil desembolsados no mesmo período de 2022, ano da última eleição federal, considerando valores nominais. O crescimento ocorre em um momento no qual as redes sociais ocupam espaço cada vez maior nas estratégias de comunicação e construção de imagem dos parlamentares.
A cota parlamentar pode ser utilizada para despesas relacionadas ao exercício do mandato, incluindo a divulgação da atividade parlamentar. Dados públicos da Câmara dos Deputados permitem consultar os gastos dos congressistas com esse tipo de despesa.
Entre os deputados que mais utilizaram a verba para impulsionamento está Bruno Ganem (Podemos-SP). Segundo os dados apresentados no levantamento, o parlamentar gastou R$ 155 mil da cota parlamentar no primeiro semestre de 2026.
Em uma das campanhas, Ganem pagou cerca de R$ 2 mil para ampliar o alcance de um vídeo sobre recursos destinados à causa animal. A publicação ultrapassou 1 milhão de visualizações e alcançou principalmente usuários do estado de São Paulo, com destaque para Indaiatuba, principal base eleitoral do deputado.
“Hoje, a maior parte das pessoas recebe informação pelo celular. A notícia, o vídeo, a prestação de contas e até o diálogo com o parlamentar acontecem na palma da mão”, afirmou Ganem.
O parlamentar utiliza o impulsionamento para divulgar ações relacionadas à causa animal, como campanhas de castração de cães e gatos, denúncias de maus-tratos e propostas legislativas. Uma das publicações promovidas tratou do caso do cão comunitário Orelha, ocorrido em Florianópolis.
Gastos com divulgação digital avançam desde 2023
O crescimento das despesas com comunicação digital não começou neste ano. Desde o início da atual legislatura, os gastos dos deputados com impulsionamento e divulgação nas redes vêm avançando.
Em 2023, foram desembolsados R$ 1,8 milhão. O valor subiu para R$ 2,1 milhões em 2024 e alcançou R$ 3,2 milhões em 2025. Somente Ganem teria destinado R$ 740,9 mil ao impulsionamento de conteúdos desde agosto de 2020, período que inclui anos anteriores ao seu mandato na Câmara.
Para especialistas em comunicação política, o avanço dos gastos acompanha a mudança na forma como os eleitores consomem informação. As redes sociais passaram a funcionar não apenas como canais de prestação de contas, mas também como instrumentos permanentes de construção de reputação e posicionamento político.
A concentração dos anúncios na Meta também ocorre após mudanças nas políticas de outras grandes plataformas. Desde maio de 2024, o Google proíbe no Brasil anúncios relacionados a eleições, partidos, cargos eletivos, propostas de governo, projetos de lei e outras matérias vinculadas ao processo político-eleitoral.
Com as restrições adotadas por outras plataformas, Instagram e Facebook ganharam ainda mais relevância no mercado de publicidade política digital. A própria Meta mantém mecanismos de transparência para anúncios sobre eleições e política, com informações sobre valores, alcance, segmentação e responsáveis pelo financiamento das campanhas.
Maria Carolina Lopes, doutora em Comunicação pela Universidade Pompeu Fabra, avalia que a concentração do mercado aumentou o peso da Meta na estratégia dos políticos.
“A Meta, que tem a principal plataforma usada por políticos, o Instagram, hoje tem uma espécie de monopólio nesse mercado”, afirmou.
Na avaliação da pesquisadora, o impulsionamento digital passou a ocupar um espaço anteriormente dominado por materiais físicos de campanha e divulgação, como panfletos.
Redes sociais viram arena permanente da política
O especialista em estratégia eleitoral e marketing político Erick Sá, fundador da Insight Político, avalia que a presença digital se tornou essencial para a construção da imagem pública dos parlamentares.
“Quem não aparece não é lembrado. A nova ágora da política são as redes sociais”, afirmou.
Segundo ele, os anúncios não são utilizados necessariamente para pedir votos. O objetivo também pode ser fortalecer a reputação do parlamentar, divulgar bandeiras políticas e ampliar o alcance das ações realizadas durante o mandato.
O crescimento do uso de dinheiro público para impulsionar conteúdos, no entanto, também provoca debate sobre os limites entre divulgação da atividade parlamentar e promoção política, especialmente em anos eleitorais.
A professora de Comunicação Política da Universidade de Glasgow Patrícia Rossini alerta que o impulsionamento fora do período formal de campanha pode levantar questionamentos sobre conteúdos potencialmente enganosos ou problemáticos.
Pelas regras das plataformas da Meta, anúncios relacionados a candidatos, figuras políticas, partidos, eleições e temas políticos precisam cumprir requisitos específicos de identificação e transparência. A Biblioteca de Anúncios permite consultar informações sobre campanhas patrocinadas no Facebook e no Instagram.
Com R$ 2,1 milhões gastos apenas no primeiro semestre de 2026, o avanço do impulsionamento pago mostra que a disputa por atenção nas redes sociais já ocupa uma parcela crescente das estratégias de comunicação dos deputados, financiada, em parte, com recursos da própria Câmara.
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