Dez anos depois da conclusão do impeachment de Dilma Rousseff, a política brasileira apresenta uma das maiores reviravoltas daquele episódio. Parlamentares que votaram pela saída da então presidente hoje integram grupos políticos apoiados por Lula da Silva (PT) e disputam cargos majoritários nas eleições de 2026.
Como relembra reportagem de Caio Sartori, do jornal O Globo, a votação que encerrou o processo ocorreu em 31 de agosto de 2016. Na ocasião, o Senado aprovou por 61 votos a 20 a perda do mandato de Dilma. Em uma segunda votação, os senadores decidiram, por 42 votos a 36, manter os direitos políticos da petista.
Entre os personagens que mudaram de posição política ao longo da última década estão Simone Tebet (PSB-SP), Renan Calheiros (MDB-AL), Pedro Paulo (PSD-RJ), Eliziane Gama (PT-MA), Expedito Netto (PT-RO), Veneziano Vital do Rêgo (MDB-PB), Omar Aziz (PSD-AM), Júlio Cesar (PSD-PI), Rafael Motta (PDT-RN) e André Moura (União Brasil-SE).
De adversários a aliados
Um dos casos mais simbólicos é o de Simone Tebet. Em 2016, quando era senadora pelo Mato Grosso do Sul e integrava o MDB, ela votou pela cassação de Dilma. Anos depois, disputou a Presidência da República em 2022, apoiou Lula no segundo turno e passou a integrar o governo Lula como ministra do Planejamento.
Em 2026, Tebet mudou novamente de partido e concorre ao Senado por São Paulo. A disputa é acirrada, com pesquisas recentes apontando a candidata entre os nomes competitivos pela única vaga disponível no estado. Levantamento da RealTime Big Data divulgado em agosto mostrou empate técnico entre quatro candidatos, incluindo Tebet.
Outro caso é o de Renan Calheiros, que presidia o Senado durante o processo e votou pela saída da presidente. O senador alagoano, entretanto, manteve posteriormente uma relação política próxima ao campo petista e atualmente integra a articulação eleitoral alinhada a Lula no estado.
Pedro Paulo também revisitou o próprio voto. O deputado, que na época pertencia ao MDB, afirmou posteriormente considerar equivocada a decisão de apoiar o impeachment e passou a defender que não houve crime de responsabilidade que justificasse a cassação.
Mudanças dentro da própria esquerda
A transformação política também alcançou parlamentares que, após o impeachment, passaram a integrar diretamente o campo petista.
Eliziane Gama é um dos exemplos mais claros. A senadora, que votou pela cassação quando ainda era deputada federal e integrava o então PPS, atualmente está filiada ao PT e disputa novamente uma cadeira no Senado pelo Maranhão. A candidatura consta na relação oficial de concorrentes publicada pelo Senado.
Expedito Netto seguiu trajetória semelhante e atualmente concorre ao governo de Rondônia pelo PT. Na pesquisa Quaest divulgada em agosto, ele apareceu com 10% das intenções de voto, empatado tecnicamente com Hildon Chaves e atrás de Marcos Rogério e Adailton Fúria.
Veneziano Vital do Rêgo também permanece na política nacional. O senador paraibano, que votou pelo impeachment em 2016, atualmente está no MDB e mantém proximidade com o governo Lula. Registros recentes do Senado mostram sua atuação parlamentar e sua defesa de medidas e investimentos do governo federal.
Do impeachment à disputa pelos governos estaduais
O movimento de aproximação com Lula também envolve nomes que agora tentam chegar aos governos estaduais ou permanecer no Senado.
Omar Aziz, que votou pela cassação de Dilma quando era senador, continua no PSD e está inserido no grupo político que apoia Lula no Amazonas. Já Rafael Motta concorre novamente ao Senado pelo Rio Grande do Norte pelo PDT, enquanto André Moura disputa uma cadeira no Senado por Sergipe pelo União Brasil. As candidaturas constam nas listas oficiais divulgadas pelo Senado para as eleições de 2026.
A relação mostra como o sistema de alianças brasileiro mudou desde 2016. Partidos e lideranças que naquele momento estavam reunidos em torno da derrubada do governo Dilma passaram a ocupar posições diferentes no tabuleiro político, especialmente após a ascensão de Jair Bolsonaro, a eleição de Lula em 2022 e a polarização que marcou os últimos anos.
Direita tradicional perdeu espaço para o bolsonarismo
Para o cientista político Josué Medeiros, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, parte da centro-direita que participou do processo de impeachment percebeu posteriormente que o espaço político aberto pela queda de Dilma não foi ocupado pelos grupos tradicionais, mas pela direita radical.
A avaliação ajuda a explicar por que antigos adversários do PT passaram a estabelecer alianças com Lula ou a atuar em posições mais próximas do governo federal.
A mudança também está relacionada à reorganização partidária ocorrida após 2018. A vitória de Jair Bolsonaro, o fortalecimento do bolsonarismo e a disputa entre lulismo e direita radical alteraram as alianças estaduais e nacionais.
Dez anos depois
O impeachment de Dilma Rousseff tornou-se um dos principais marcos da política brasileira recente. O processo foi concluído em 31 de agosto de 2016, quando o Senado determinou a perda do mandato por 61 votos a 20. Michel Temer assumiu definitivamente a Presidência no mesmo dia.
Uma década depois, parte dos políticos que ajudaram a construir aquele resultado está em outro campo político. Alguns se aproximaram do PT, outros passaram a apoiar Lula sem mudar de partido e há ainda aqueles que hoje disputam eleições em chapas apoiadas pelo petista.
A transformação expõe uma característica marcante da política brasileira, na qual antigas divergências podem dar lugar a novas alianças conforme mudam os adversários, os interesses regionais e as estratégias eleitorais. No fim, a mudança de posições revela que, para muitos políticos, as alianças podem ser menos determinadas por convicções ideológicas e mais pela busca por espaço, influência e poder. Esse é o Brasil.
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