SECOM BA_VACINAÇÃO 2026

Tempo de Leitura: 8 minutos

Aos 30 anos, Matheus Paim tem objetivos que cabem tanto no presente quanto no futuro. Quer recuperar os movimentos das mãos, voltar a fazer sozinho atividades do dia a dia, brincar com as filhas com mais liberdade e reunir condições clínicas para um transplante renal. Professor de inglês e morador de Feira de Santana, ele atravessa uma etapa da vida em que tratamento e recuperação ocupam boa parte da rotina, mas não resumem quem ele é.

A diálise faz parte dessa história desde agosto de 2020. Matheus tinha 24 anos quando descobriu que o único rim com o qual havia nascido já não funcionava e começou a fazer hemodiálise.

Em janeiro de 2021, mudou para a diálise peritoneal, modalidade que pode ser realizada em casa. A decisão estava ligada à autonomia que buscava preservar. Matheus dava aulas nos três turnos e queria conciliar o tratamento com o trabalho e com a vida em família.

Nos anos seguintes, sua relação com a autonomia mudou. Segundo seu relato, vieram complicações de saúde, cirurgias, uma infecção grave e, mais recentemente, uma internação que durou seis meses. Hoje, Matheus utiliza cadeira de rodas e precisa de auxílio para algumas atividades cotidianas. Ao mesmo tempo, faz fisioterapia, busca recuperar movimentos, ganhar peso e avançar no tratamento necessário para que a possibilidade de um transplante renal possa ser avaliada.

É nesse percurso, entre aquilo que já consegue fazer, o que trabalha para recuperar e os planos que mantém, que a história de Matheus encontra o tema do Dia Nacional da Diálise, celebrado neste ano em 27 de agosto.

Instituída pela Lei nº 14.650/2023 e lembrada anualmente na última quinta-feira de agosto, a data tem em 2026 a campanha “A Vida Além da Diálise”, promovida pela Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplantes (ABCDT), com participação da Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN).
A mobilização convida pessoas em tratamento a responder a uma pergunta: “Quem eu sou além da diálise?”. No caso de Matheus, a resposta não fica restrita ao que a doença modificou. Ela também está no professor, no pai, nos projetos que mantém e na autonomia que trabalha para reconstruir.

O que é diálise e como funciona

A diálise é utilizada para substituir parte das funções que os rins deixaram de realizar.

Quando a pessoa perde a função renal, ou seja, os rins não estão mais funcionando, há necessidade de substituir a função dos rins pela diálise”, explica o nefrologista e intensivista André Luiz Pimentel, diretor médico da Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplantes (ABCDT).

Segundo o especialista, o tratamento promove a retirada de toxinas e do excesso de água que os rins já não conseguem eliminar adequadamente.

Diálise é um termo mais amplo. A hemodiálise faz a filtragem por meio do sangue. Na diálise peritoneal, o processo utiliza o peritônio, membrana localizada no abdome.

Para muitos pacientes em hemodiálise, a rotina envolve sessões de aproximadamente quatro horas, três vezes por semana. A frequência e a duração do tratamento podem variar de acordo com as necessidades de cada paciente.
A continuidade é essencial. Segundo Pimentel, a interrupção da diálise em uma pessoa que depende dela pode provocar acúmulo grave de substâncias e líquidos no organismo e levar à morte.

Imagem por IA

A vida também precisa caber entre as sessões

O impacto da hemodiálise não necessariamente termina quando a máquina é desligada.
Pimentel explica que alguns pacientes podem apresentar queda da pressão arterial, câimbras e mal-estar após uma sessão, especialmente quando é necessário retirar uma quantidade maior de líquido acumulado no intervalo entre os tratamentos.

Trabalho, estudo, atividades físicas, viagens e compromissos sociais podem continuar fazendo parte da vida, segundo o médico, mas precisam ser compatibilizados com as necessidades e os horários do tratamento.

Sempre recomendamos que a vida não pare pelo tratamento”, afirma Pimentel.
As viagens, por exemplo, exigem planejamento para que o paciente possa realizar a diálise em outra unidade. O deslocamento cotidiano também pode pesar na rotina. Segundo o médico, as unidades nem sempre estão próximas de quem precisa do tratamento e, em alguns casos, o percurso de ida e volta, somado às horas de diálise, pode consumir praticamente um dia.

Foto: Arquivo pessoal/Matheus e suas filhas

Quando a busca por autonomia muda de forma

Foi justamente para preservar parte da própria rotina que Matheus conta ter escolhido a diálise peritoneal em 2021.

Eu era uma pessoa ativa. Era professor, dava aula nos três turnos e tinha uma vida normal”, relata.

Professor de inglês, Matheus conta que o trabalho fazia parte de uma rotina que também incluía as tarefas domésticas e a participação ativa na criação das filhas. Ele afirma que continuou dando aulas enquanto conseguiu conciliar a atividade profissional com as condições de saúde.

Eu trabalhei até onde deu”, conta.

Nos anos seguintes, Matheus relata ter enfrentado uma série de complicações. Ele afirma que chegou a pesar 130 quilos e que, ao longo de sua trajetória de tratamento e adoecimento, chegou ao menor peso de 64 quilos. Atualmente, diz estar com cerca de 70 quilos e busca recuperar peso.

Matheus também relata ter desenvolvido calcinose tumoral e passado por uma cirurgia para retirada das paratireoides, além de diferentes procedimentos para remoção de calcificações.

A nefrologista Maria Aparecida Arroyo, vice-presidente regional da Associação Brasileira dos Centros de Diálise e Transplantes (ABCDT) em Mato Grosso do Sul, explica que, na doença renal avançada, o organismo pode perder parte da capacidade de controlar adequadamente o fósforo, o cálcio, a vitamina D e o paratormônio, conhecido como PTH.

Esse desequilíbrio pode favorecer depósitos de cálcio e fósforo em diferentes partes do organismo. A calcinose tumoral é caracterizada pela formação desses depósitos em tecidos moles próximos às articulações, podendo formar massas volumosas.

Segundo Arroyo, essas alterações também podem favorecer calcificações em vasos sanguíneos e outros tecidos e estão associadas a consequências que vão além dos ossos e das articulações, incluindo maior risco cardiovascular.

A explicação descreve mecanismos que podem ocorrer na doença renal avançada. No caso de Matheus, a relação entre essas alterações e cada uma das complicações que apresentou depende de sua avaliação clínica individual.

As sucessivas intercorrências acabaram levando Matheus de volta à hemodiálise convencional, segundo conta.

Uma internação de seis meses

A fase mais crítica dessa trajetória começou no fim de 2025.
Matheus relata ter sido internado em novembro daquele ano após uma infecção que evoluiu para sepse, resposta extrema do organismo a uma infecção. Segundo ele, foi intubado, passou sete dias em coma e permaneceu internado durante seis meses.

Foto: Arquivo pessoal/Em tratamento

Uma nova etapa da recuperação.

Hoje, Matheus relata utilizar cadeira de rodas e precisar de auxílio para algumas atividades que anteriormente realizava sozinho, como comer e tomar banho. Calcificações e uma lesão grave no braço também comprometeram os movimentos da mão, segundo conta.

O braço passou por desbridamento, procedimento para retirada de tecidos comprometidos, e continua recebendo cuidados. Matheus relata melhora da lesão e faz fisioterapia para tentar recuperar os movimentos dos dedos.

É nas atividades cotidianas que ele percebe com mais clareza o que deseja reconquistar.

“O que eu sinto mais falta são de coisas simples da vida”, diz.

Entre elas, Matheus cita pegar as filhas no colo, correr e brincar com elas, tomar banho sozinho e voltar a escrever. Também conta que atualmente depende da esposa para alguns movimentos cotidianos que antes realizava sem ajuda.

São essas atividades que ajudam a dar outra dimensão à palavra autonomia. O que motivou uma escolha de tratamento em 2021 permanece como objetivo anos depois, agora em uma etapa diferente da vida e da recuperação.

Foto: Arquivo pessoal/Matheus e sua esposa

Diálise na Bahia: milhares dependem do tratamento

Na Bahia, 9.841 pessoas faziam hemodiálise regularmente e 215 realizavam diálise peritoneal, segundo dados da Secretaria da Saúde do Estado divulgados pela ABCDT em outubro de 2025.

No país, o número de pessoas em tratamento dialítico chegou a 170.868 em dezembro de 2025, segundo o Observatório da Diálise, da ABCDT. Em dezembro de 2024, eram 156.473 pacientes, o que representa aumento de 9,2% em um ano.

De acordo com o levantamento da associação, 47,7% dos pacientes estão no Sudeste. O Nordeste concentra 21%; o Sul, 18,3%; o Centro-Oeste, 8%; e o Norte, 5%.
A ABCDT representa clínicas privadas prestadoras de serviços de terapia renal substitutiva no Brasil e também atua na discussão sobre financiamento e acesso ao tratamento.

Image gerada por IA

Para marcar o Dia Nacional da Diálise, a entidade lançou neste ano a campanha “A Vida Além da Diálise”. A Sociedade Brasileira de Nefrologia aderiu à mobilização, que busca chamar a atenção para a vida das pessoas para além do diagnóstico e para a continuidade e a qualidade da assistência.

Para parte dos pacientes, o transplante renal pode representar uma etapa posterior do tratamento. Pimentel explica que a possibilidade depende das condições clínicas necessárias para que a pessoa possa ser submetida ao procedimento, além de questões relacionadas à doação e à compatibilidade. A avaliação é individual.

Para Matheus, o transplante permanece como uma perspectiva. Ele relata que atualmente busca ganhar peso e seguir o tratamento indicado pela equipe que o acompanha para alcançar condições clínicas adequadas ao procedimento.

Matheus também afirma ter indicação de hemodiafiltração, modalidade que associa diferentes mecanismos de remoção de substâncias do sangue. A indicação específica e os resultados esperados dependem da avaliação da equipe assistente.

O custo de reconstruir a rotina

Além das limitações físicas, a mudança na capacidade de trabalhar e a recuperação trouxeram impacto financeiro para a família.

Matheus conta que a aposentadoria reduziu sua renda em mais da metade. A família mora de aluguel e, antes da aposentadoria, ele afirma que conseguia arcar com despesas como moradia, escola, alimentação e plano de saúde.

Com esse corte de mais da metade da minha renda, a gente começou a passar por situações que eu nunca imaginei que pudesse passar na minha vida”, relata.

Durante grande parte do período de adoecimento, segundo Matheus, a instituição em que trabalhava custeou seu plano de saúde. Ele afirma que, após cerca de um ano aposentado, passou a ter de arcar com as mensalidades a partir de maio de 2026.

Diante das despesas acumuladas, a mãe e a esposa organizaram uma campanha de arrecadação para ajudar na continuidade do tratamento e da recuperação.

→ Matheus afirma que, neste momento, busca recursos principalmente para fisioterapia intensiva em domicílio, acompanhamento com geneticista e pagamento de mensalidades atrasadas do plano de saúde. Ele também espera encontrar uma alternativa de acompanhamento pelo Sistema Único de Saúde (SUS) em um centro de referência adequado às suas necessidades.

 

A necessidade financeira, porém, é apenas uma parte do momento que Matheus atravessa.

O professor, o pai e o homem que escolheu uma modalidade de diálise pensando em conciliar tratamento e trabalho agora concentra esforços em ampliar novamente aquilo que consegue fazer por conta própria.

Alguns dos objetivos parecem pequenos quando descritos isoladamente. Escrever, tomar banho sem ajuda, movimentar melhor as mãos, brincar com as filhas com mais liberdade. Para Matheus, cada um deles representa uma parte da autonomia que busca reconstruir.

O transplante permanece no horizonte como uma possibilidade, enquanto a vida continua acontecendo no presente.

Como ajudar Matheus Paim

A família de Matheus Paim mantém uma arrecadação para auxiliar nas despesas relacionadas ao tratamento e à recuperação. Segundo ele, os recursos serão destinados principalmente à fisioterapia intensiva em domicílio, acompanhamento médico e pagamento de mensalidades atrasadas do plano de saúde.
Pix (e-mail): [email protected]

Imagem: Divulgação pessoal da vaquinha

Fonte: clique aqui.

Você gostou desse conteúdo? Compartilhe!