Uma garoa caía sobre a Fazenda Pedra Azul, em Domingos Martins, na região serrana do Espírito Santo, quando cerca de 350 convidados receberam guarda-chuvas transparentes para não atrapalhar a decoração branca. Era 30 de abril de 2023 e a noiva Lívia Bergamim Orletti entrou com um buquê de orquídeas.
O pastor Edésio de Oliveira, pai de Nikolas Ferreira, conduziu a cerimônia. Michelle Bolsonaro estava entre os convidados. Jair Bolsonaro, já fora da Presidência, não compareceu, mas surgiu num telão durante a festa. Na recepção, Nikolas tocou bateria enquanto Michelle dançava fazendo sinais em Libras.
Nikolas e Lívia se conheceram dois anos antes, durante uma visita de Bolsonaro ao Espírito Santo. Ela vivia em Pinheiros, no norte capixaba, e vinha de uma família milionária. Ele ainda era vereador em Belo Horizonte e construía a carreira como um jovem insurgente das redes, antissistema na linguagem e bolsonarista na identidade.
Três anos depois, a campanha pela reeleição ajuda a medir quanto cresceu o espaço ocupado pelo filho do pastor. Nikolas chega ao pleito com patrimônio milionário, grandes empresários entre seus financiadores, uma família do agronegócio com milhões investidos em terras ao seu redor, interlocução com um banqueiro hoje preso e uma lista de 70 candidatos aos quais decidiu emprestar sua popularidade pelo País.
O favor pedido a ‘Dani’ Vorcaro
Esses vínculos mostram a distância percorrida pelo político que construiu a carreira encarnando o personagem do outsider. Os áudios e mensagens revelados pelo ICL Notícias, envolvendo Nikolas e Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, ajudam a entender o perfil do deputado mineiro.
Vorcaro afirmou a um interlocutor ter bancado voos usados pelo parlamentar. Em outro momento, o pastor André Valadão, da Igreja Batista da Lagoinha, surge intermediando o mal-estar depois que Nikolas criticou um evento patrocinado pelo Master. Em 30 de março de 2025, Nikolas procurou Vorcaro para ajudar Thiago Rodrigues de Faria num negócio ligado a um ativo minerário.
Naquele momento, Faria trabalhava no gabinete de Nikolas. A Câmara dos Deputados registra que ele entrou como secretário parlamentar em 9 de março de 2023 e só deixou o gabinete em 30 de março deste ano. No áudio, Nikolas o apresenta a ‘Dani’ Vorcaro como “meu irmão aqui”. E diz que Faria tinha um ativo minerário pendente na empresa do banqueiro. Vorcaro respondeu positivamente, e Nikolas enviou o contato do advogado.
A primeira reportagem a revelar essa atividade profissional de Faria foi publicada pela Repórter Brasil em 24 de setembro de 2025, com base nos documentos da Operação Rejeito, da Polícia Federal. O então coordenador da assessoria jurídica de Nikolas aparecia no inquérito em documentos sobre a negociação dos direitos minerários da Topázio Imperial Mineração, transação investigada pela PF por indícios de fraude.
Faria confirmou que intermediara o negócio, disse atuar regularmente como advogado e especialista em direito minerário e negou irregularidade. O jornal Estado de Minas depois detalhou os negócios do “irmão” de Nikolas.
Ambições presidenciais
Nikolas recebeu quase 1,5 milhão de votos na última eleição e se tornou o deputado federal mais votado do País. Neste pleito, tenta descobrir quanto dessa força pode ser transferida. Seu site de campanha lista 70 candidatos apoiados em 21 estados e no Distrito Federal: 22 a deputado federal, 27 a deputado estadual, 16 ao Senado, quatro aos governos estaduais e uma candidata a deputada distrital.
É exagerado chamar o grupo de bancada de Nikolas. Tarcísio de Freitas (Republicanos), candidato à reeleição ao governo paulista, tem estrutura e poder próprios, assim como Deltan Dallagnol (Novo), Marcel van Hattem (Novo) e Gustavo Gayer (PL), candidatos ao Senado.
O que a lista mostra é uma tentativa do mineiro de nacionalizar o próprio nome enquanto prepara o terreno para uma futura candidatura à Presidência. Nikolas já disse que pretende disputar o Planalto. Pelas regras atuais, que exigem idade mínima de 35 anos, só poderá fazê-lo a partir de 2034.
Os perfis de Nikolas somam hoje mais de 39 milhões de seguidores e inscritos nas principais redes sociais, sem descontar as pessoas que o acompanham em mais de uma plataforma. Num Índice de Relevância nas redes, que combina frequência de publicação, alcance, engajamento e eficiência em cinco plataformas, Nikolas marcou 80 pontos, numa escala de zero a cem, entre 15 deputados analisados de fevereiro a abril de 2026. O segundo colocado ficou com menos da metade da pontuação do mineiro.
O patrimônio do deputado cresceu 10.000%
A transformação aparece também no patrimônio. Quando estreou nas urnas, em 2020, Nikolas não declarou bens. Em 2022, informou R$ 36,8 mil. Neste ano, registrou quase R$ 3,9 milhões, incluindo uma casa de R$ 2,2 milhões ainda financiada, com saldo devedor de R$ 1,7 milhão no fim de 2025. Ele atribuiu a evolução ao salário parlamentar, aplicações e atividades privadas, como livros, palestras e uma escola de inglês para cristãos.
É muito dinheiro para alguém que entrou tão jovem na política, mas vira troco de pinga diante do patrimônio da família da esposa. Pouco antes do casamento, o sogro, Gilmar Orletti, e a sogra, Ziani Maria Bergamim Orletti, haviam comprado por R$ 35,7 milhões uma fazenda de 1.151 hectares em Mucurici, no norte do Espírito Santo.
Somadas as outras propriedades reunidas na LLV Agrícola somam cerca de 2,45 mil hectares — área equivalente a mais de 15 parques Ibirapuera. A empresa familiar tem capital de aproximadamente R$ 18 milhões e, além do sogro e da sogra, conta com a esposa e o cunhado de Nikolas como sócios. Os dados constam em documentos da Junta Comercial do Espírito Santo, aos quais a coluna teve acesso.
Nikolas não é sócio das empresas da família da esposa e se casou com Lívia sob separação total de bens. Ele assinou atos da empresa como “interveniente anuente”, concordando com a utilização dos imóveis de Lívia na formação do capital, e voltou a assinar alterações societárias neste ano. A família mantém ainda a LLV Investimentos, holding que aprovou a distribuição de R$ 6,28 milhões em lucros acumulados.
Campanha abastecida por empresários graúdos
A campanha de Nikolas também cresceu. Na prestação mais recente ao Tribunal Superior Eleitoral, o candidato declarava R$ 1,3 milhão arrecadado. Quase tudo, R$ 1,2 milhão, ou 94,8%, veio diretamente de pessoas físicas. O financiamento coletivo somava R$ 67,7 mil, ou 5,2%.
O dinheiro vem de empresários graúdos de setores diferentes. No agronegócio, Robert Carlos Lyra, presidente da Delta Sucroenergia, do setor de açúcar e etanol, deu R$ 200 mil. O cafeicultor José Carlos Kubit, que atua no norte do Espírito Santo, na mesma região dos negócios rurais do sogro de Nikolas, doou R$ 60 mil. Hélio e Salo Davi Seibel, irmãos ligados à família controladora da Leo Madeiras, deram R$ 25 mil cada.
A locação de veículos responde por outros R$ 350 mil. A maior doação individual da campanha, de R$ 300 mil, veio de Sérgio Augusto Guerra de Resende, fundador da Locamerica, que passou a operar como Unidas e foi incorporada pela Localiza em 2022. Resende hoje integra o Conselho de Administração da Localiza. José Salim Mattar Junior, um dos fundadores da locadora de veículos, doou outros R$ 50 mil.
Mineração e siderurgia aparecem com R$ 155 mil. André Bier Gerdau Johannpeter, presidente do Conselho de Administração da Gerdau, colocou R$ 100 mil. Paulo Thiago Puga Miranda, presidente da EXE Mineral, empresa de engenharia e mineração, deu R$ 55 mil.
Outros R$ 200 mil vieram de Sérgio Fischer Teixeira de Souza, CEO da LOG e sobrinho do bilionário Rubens Menin. A LOG atua com condomínios e galpões logísticos. Menin fundou a MRV, é um dos fundadores do Banco Inter e preside os conselhos dessas empresas, além da própria LOG, da CNN Brasil e da Rádio Itatiaia.
Completam o grupo dos maiores financiadores Carlos Miura Junior, sócio-administrador da Brasilpack, com R$ 100 mil, e Matheus Pereira de Souza Neves, sócio da rede de supermercados MartMinas, com R$ 80 mil.
Além disso, cinco das 70 campanhas apoiadas por Nikolas receberam recursos de infratores ambientais, revela um cruzamento das prestações de contas entregues ao TSE com os autos do Ibama.
O figurino desbotado do ‘outsider’
Os fatos reunidos aqui não colocam tudo no mesmo saco. O patrimônio dos Orletti não pertence a Nikolas. Quem recebe uma doação legal não assume o histórico do doador. E apresentar alguém de seu gabinete a um banqueiro, que hoje está preso acusado de um mundaréu de fraudes, não prova que o deputado tenha participado financeiramente do negócio.
Juntos, porém, eles mostram onde Nikolas chegou. O político que cresceu vendendo distância da “velha política” hoje reúne dezenas de milhões de seguidores, recebe grandes doações empresariais, circula entre empresários, trata banqueiros pelo apelido e tenta transformar a própria popularidade em votos para candidatos de 22 unidades da Federação.
A rebeldia continua sendo parte central do personagem alinhada, é claro, a uma pauta moral e de costumes fervorosa. Ao mesmo tempo, Nikolas amplia a rede e os instrumentos de influência de quem aprendeu a circular por dentro do poder. Igualzinho os baluartes da velha política tão criticados por ele.
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Créditos do autor: Rodrigo Martins
Créditos da imagem: Reprodução/Divulgação



































