Documentário “Pedagogia do Abandono” aborda educação infantil; filmagens foram autorizadas pela prefeitura

Professores, pais de alunos, sindicatos e congressistas fizeram um ato no sábado (18.abr.2026) na capital paulista contra a utilização de uma escola infantil municipal como cenário para a produção de um filme. A obra, da produtora “Brasil Paralelo”, critica a educação pública e o educador Paulo Freire, patrono da educação brasileira.

A manifestação, uma aula pública, foi feita na Praça Roosevelt, em frente à Escola Municipal de Educação Infantil Patrícia Galvão, onde a produtora gravou imagens para o filme “Pedagogia do Abandono”. O 1º episódio terá exibição única na 2ª feira (20.abr), às 20h, no canal do YouTube da produtora.

A “Brasil Paralelo” já teve parte de seus colaboradores tornados réus em razão da produção de outro filme, “A Investigação Paralela: o Caso Maria da Penha”. A Justiça do Ceará aceitou denúncia do Ministério Público do Estado e tornou 2 colaboradores da produtora réus por suspeita de participação em uma campanha de ódio contra Maria da Penha, símbolo da luta contra a violência doméstica.

“A gente está aqui para dizer que Paulo Freire está presente. Ele está presente nas nossas escolas, nos nossos pensamentos, nos nossos estudos, e não só na Emei Patrícia Galvão. Ele está presente na cidade toda, no Brasil afora e fora do Brasil inclusive”, disse a diretora da Emei Patrícia Galvão, Sandra Regina Bouças.

Em suas redes sociais, Sandra questionou a produção que utilizou imagens internas da escola. As gravações foram autorizadas pela prefeitura de São Paulo.

“Identificamos que se trata de um projeto para destruir a educação pública, bem como a imagem de Paulo Freire com identificações muito equivocadas. Será que há, nesta proposição, uma tentativa de contribuir com as ideias de que a terceirização/privatização da educação infantil seria a solução para uma educação de qualidade?”, disse.

Na publicação, a diretora afirma que soube só na véspera das gravações que a produtora seria a “Brasil Paralelo”. “Na noite anterior à data marcada para a agravação, fomos surpreendidas por um termo de anuência em nome da ‘Brasil Paralelo’”, contou.

“Era a produtora responsável por vídeos de caráter marcadamente ideológico, em que diversas produções têm por objetivo descaracterizar e objetificar o ensino público pejorativamente”, completou.

A professora da Faculdade de Educação da USP e educadora popular Denise Carreira afirmou que o filme pretende enfraquecer políticas públicas de cunho social e racial e a agenda de gênero.

“Precisamos estar atentas contra esse absurdo. E defender a escola democrática, a escola que promova uma educação transformadora baseada no pensamento, na trajetória, na ação de Paulo Freire”, acrescentou.

Eduarda Lins, mãe de uma das alunas da escola, fez elogios aos funcionários e criticou a produtora e a prefeitura. “Quando a gente descobre que a nossa prefeitura está disponibilizando um espaço público para uma empresa privada com fins, no mínimo, obscuros, que inclusive está sendo investigada pelo MP, dói no nosso coração”, disse.

OUTRO LADO

A Spcine informou que recebeu o pedido para gravação e, depois de análise técnica da São Paulo Film Commission, responsável por receber, processar e encaminhar pedidos de filmagem, autorizou as gravações.

“O procedimento é padrão e foi o mesmo adotado em todas as outras 253 solicitações feitas ao município para essa finalidade até o momento em 2026. Somente no ano passado, foram autorizadas mais de 1.000 gravações”, informou o órgão em nota. A Spcine ressaltou, ainda que a checagem de aspectos legais, como uso de imagem e participação de menores, é de inteira responsabilidade dos produtores.

A Agência Brasil procurou a produtora “Brasil Paralelo”, mas ainda não recebeu resposta.

Segundo o site oficial do filme, “a produção mostra o que está sendo ensinado as crianças brasileiras e questiona as origens do método pedagógico atual”.

“Como a educação infantil está sendo usada pelo Estado e por que isso pode prejudicar toda uma geração?”, diz a sinopse.

Segundo a “Brasil Paralelo”, o documentário reúne depoimentos de Jay Belsky, Fausto Zamboni, Ilona Becskeházy, Vitor Haase, Marcelo Masruha, Pedro Caldeira, Eduardo Queiroz, Flávio Cunha e Édison Prado, especialistas em neuropsicologia, neuropediatria, economia e desenvolvimento infantil.


Este texto foi publicado originalmente pela Agência Brasil, em 18 de abril de 2026. O conteúdo é livre para republicação, citada a fonte, e foi adaptado para o padrão do Poder360.

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