A primeira virada entre turnos de uma eleição presidencial brasileira não pode ser interpretada apenas como uma vitória nas urnas. Precisa mudar a maneira como o campo progressista compreende o País. No dia seguinte à eleição, o governo federal precisa olhar nos olhos do Brasil, reconhecer seus problemas e recuperar a capacidade de construir uma esperança de futuro. Não há mais espaço para uma política limitada ao tecnicismo administrativo, à gestão do existente e ao olhar fixado no retrovisor.
A mobilização das ruas, protagonizada por jovens estudantes, combinada com a disputa nas redes digitais, demonstrou a capacidade de reação popular. A atuação de André Janones revelou a importância de enfrentar a política no terreno dos algoritmos. Mas a vitória eleitoral não significa a derrota das forças políticas, econômicas e sociais que sustentaram o projeto protofascista.
O resultado das urnas oferece uma oportunidade, não uma garantia. As forças que ameaçam a democracia permanecem organizadas, com representação institucional, recursos econômicos e acesso aos meios de comunicação. Confundir governo com transformação das estruturas de poder seria repetir um erro histórico.
É nesse ponto que a esquerda precisa recuperar sua capacidade de formular um projeto de sociedade. Parte do campo progressista concentrou-se em defender conquistas, administrar restrições fiscais e resistir a retrocessos. Defender direitos é indispensável, mas quem se limita a preservar o existente entrega aos adversários o monopólio da imaginação sobre o futuro.
Não basta comunicar melhor as realizações do governo. É necessário ter algo novo a comunicar. A população precisa reconhecer na política uma possibilidade concreta de transformar suas condições de existência. Isso exige abandonar a ideia de que não existem alternativas à organização econômica e social dominante.
O desenvolvimento tecnológico, as transformações do trabalho e a concentração de poder nas plataformas digitais impõem desafios que não podem ser enfrentados apenas pela regulação. Se a tecnologia reorganiza o trabalho, o consumo e as relações sociais, por que o Estado brasileiro deveria se limitar a administrar seus efeitos?
As grandes empresas de tecnologia controlam infraestruturas fundamentais da comunicação. Seus algoritmos influenciam a opinião pública e a organização coletiva. Enfrentá-los em uma eleição não garante repetir a experiência. As plataformas mudam suas regras conforme seus interesses econômicos. Uma democracia dependente dessas empresas para seu debate público permanece vulnerável. Não nos enganemos, a Meta aprenderá com seus erros.
Por isso, a soberania digital precisa ocupar o centro de um projeto nacional de desenvolvimento. É preciso discutir quem controla as infraestruturas digitais, como se distribuem os ganhos de produtividade e quais interesses orientam serviços essenciais à vida cotidiana.
Uma alternativa pode começar pelo transporte por aplicativo. Milhões dependem de plataformas que definem remuneração, controlam a demanda e concentram informações. O motorista possui o veículo, assume custos e riscos, mas pouco influencia as regras. O usuário desconhece a composição do preço que paga.
Por que não construir uma plataforma pública de transporte, uma empresa-espelho que ofereça alternativa real aos prestadores de serviços?
Um aplicativo sob controle público, desenvolvido em software aberto e com regras transparentes, poderia assegurar que a maior parte da tarifa fosse destinada ao motorista, com contribuições previdenciárias, seguro e taxa de manutenção. A inovação não seria reproduzir as plataformas privadas, mas substituir a maximização do lucro do intermediário pela ampliação da renda do trabalhador, pela proteção social e por serviços de qualidade.
Essa experiência poderia inaugurar uma infraestrutura pública de serviços digitais, que poderia ser gradativamente expandida para entregas, serviços profissionais e outras atividades. O Estado deixaria de atuar apenas como regulador para participar da construção de alternativas.
A proposta também recoloca uma questão fundamental para a cidadania. Durante o século XX, o trabalho formal foi um dos principais caminhos de acesso à proteção social. A expansão das plataformas e a automação tornam essa relação instável. Uma agenda progressista precisa assegurar direitos em um mundo no qual o emprego tradicional já não organiza toda a vida econômica.
Vincular plataformas digitais à Previdência seria um primeiro passo. A ambição deve ser usar o desenvolvimento tecnológico para ampliar direitos e distribuir os ganhos de produtividade. Isso exige recuperar o Estado como agente de transformação e reconhecer que as regras dos mercados e a distribuição da riqueza resultam de escolhas políticas.
Essa agenda depende de mobilização social e de uma linguagem capaz de disputar o imaginário coletivo. Os canais da campanha precisam seguir ativos, articulando redes e ruas em torno de propostas concretas.
A virada eleitoral só se converterá em uma virada histórica se mudar esse horizonte. Isso exige enfrentar a tendência sectária de parte do campo progressista, inclusive práticas de cancelamento e exclusão. Uma esquerda capaz de construir o futuro precisa dialogar com quem não votou em Lula, mas tampouco se identifica com o extremismo protofascista.
A tarefa não é apenas derrotar adversários, mas ampliar a base social de um projeto transformador. A virada precisa ser à esquerda, porque o Brasil necessita mais do que uma administração competente, precisa recuperar a capacidade coletiva de imaginar e construir um futuro diferente.
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Créditos do autor: Rodrigo Martins
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