Jornal tradicional de 150 anos com sede em São Paulo anunciou investimento em maio de 2024, mas não havia dado detalhes sobre quem eram os investidores
O jornal diário paulistano O Estado de S. Paulo captou R$ 142,5 milhões de bancos, empresas e empresários em operações realizadas em 2024. O veículo, que completou 150 anos em 2025, havia anunciado o investimento em maio de 2024, mas sem divulgar detalhes sobre quem investiu.
A lista de empresas ficou conhecida na 6ª feira (17.abr.2026), em uma reportagem do portal Metrópoles. O Poder360 publicou em maio de 2024 que o Estadão havia emitido títulos de dívida (debêntures) e recebido um aporte da família Mesquita, responsável pelo veículo de mídia. As operações tinham o objetivo de fazer uma transformação digital no Grupo Estado. Foram R$ 142,5 milhões dos investidores e R$ 15 milhões dos acionistas do jornal –total de R$ 157,5 milhões.
Esse tipo de captação de recursos é corriqueiro no mercado. As informações publicadas pelo Metrópoles foram confirmadas pelo Poder360. A presença dos 3 maiores bancos privados que atuam no Brasil confirma uma tendência na indústria de mídia jornalística no país: ser financiada ou comprada pelo setor financeiro.
A família paulistana Frias, dona do jornal Folha de S.Paulo e do portal UOL, também é controladora do PagBank (um banco, conhecido pelas maquininhas amarelas para pagamento com cartão). O PagBank teve um lucro líquido recorrente em 2025 de R$ 2,4 bilhões e é o negócio mais rentável da família Frias.
A revista Exame pertence ao banco BTG Pactual. A XP Investimentos é dona do site de notícias financeiras InfoMoney.
A influência dos bancos na mídia não é nova. O telejornal mais antigo do Brasil, o “Jornal Nacional”, da TV Globo, nasceu em 1969 com os seus “naming rights” vendidos para o Banco Nacional, liquidado em 1995 e que foi da tradicional família mineira Magalhães Pinto.
Os R$ 142,5 milhões que investidores aportaram no Estadão foram obtidos em duas rodadas:
- março de 2024: recursos de operações de debêntures vendidas diretamente aos 3 maiores bancos privados que atuam no Brasil, totalizando R$ 45 milhões;
- maio de 2024: R$ 15 milhões da Cutrale via DPL (Debênture de Projeto de Longo Prazo) e o restante (R$ 82,5 milhões) via fundo de investimento em participação, somando R$ 97,5 milhões ao todo.
No caso dos R$ 82,5 milhões via fundos, houve empresas ou empresários ligados a essas empresas que investiram no Estadão. Não é pública a informação sobre qual parte do dinheiro foi aportado por pessoas físicas controladoras das empresas ou pelas empresas em si:
- Cosan (energia, logística, agronegócio, lubrificantes e infraestrutura) – R$ 15 milhões;
- Hapvida (saúde suplementar) – R$ 15 milhões;
- Votorantim (cimento, materiais de construção, mineração e metalurgia) – R$ 15 milhões;
- Ultra (energia, infraestrutura logística e mobilidade) – R$ 7,5 milhões;
- Unipar (indústria química) – R$ 7,5 milhões;
- Patria Investimentos (gestora de ativos) – R$ 7,5 milhões;
- Galápagos Capital (gestora de ativos) – R$ 7,5 milhões;
- JHSF (setor imobiliário de alto luxo) – R$ 7,5 milhões.
O investimento das empresas via fundo de investimento em participações resulta –na maioria dos casos– na compra de participação societária. O retorno financeiro para as empresas ou empresários que investiram vem com uma possível valorização do Grupo Estado. Não está claro como será a opção das empresas e/ou empresários que optaram por esse tipo de investimento no Estadão.
O jornal paulistano recebeu também R$ 45 milhões ao vender debêntures –o nome que se dá a títulos de longo prazo. Nesse caso, só bancos compraram o papel:
Outros R$ 15 milhões vieram da Cutrale (citricultura) via Debênture de Projeto de Longo Prazo.
O Poder360 procurou o Estadão, que optou por não responder sobre o grupo dos investidores ao jornal.
DEBÊNTURES
Uma empresa que emite debêntures, os títulos de vencimento de longo prazo, pode utilizar os recursos captados para investimento, pagamento de dívida, expansão do negócio e outras decisões mercadológicas. Como contrapartida, o investidor recebe o retorno do dinheiro ao final do contrato com valor corrigido por juros.
As debêntures compradas pelos 3 bancos (Itaú, Bradesco e Santander Brasil) têm prazo de vencimento em 10 anos, podendo ser renovado por mais 10 anos. Ou seja, o empréstimo pode ser prorrogado até 2044.
As debêntures emitidas pelo Estadão podem ser convertidas em participação societária no futuro. Isso permitirá a entrada dos investidores atuais como sócios, com a conversão da dívida em ações, com fatia estimada em até 38,24% do capital.
O grupo de investidores que comprou as debêntures do Estadão concentrou cerca de 90% do negócio operacional na Agência Estado, enquanto o Estado de S. Paulo ficou com uma participação econômica direta menor, de cerca de 10%, mas manteve o controle societário como holding, responsável pelas decisões estratégicas e pela governança do conjunto.
2ª RODADA DE DEBÊNTURES
Na 2ª rodada de captação de recursos, realizada em maio de 2024, o Estadão captou R$ 82,5 milhões por meio de emissão da Província Fundo de Investimento (controlada pela Galápagos Capital Investimentos). O fundo recebeu dinheiro de investidores e aplicou no Estadão. Ou seja, o fundo Província atuou como um caixa coletivo dos investidores.
Já a Santalice Administração Ltda. (controlada pela Cutrale) teve um papel de investidor direto, sem participação de fundo. A operação foi comunicada ao público em maio de 2024.
Houve emissão de debêntures, mas os papéis não foram registrados para negociação em mercado regulamentado –sem cobrança do agente fiduciário. Ou seja, foi uma operação privada (fechada), sem que os papeis fossem oferecidos ao público em geral, vendidos diretamente para investidores específicos.
Em 15 de maio de 2024, o Grupo Estado comunicou também a nomeação de Marco Bologna para o Conselho de Administração da empresa. Ele é sócio da Galapagos Capital há quase 7 anos, controlador da empresa que comprou as debêntures do grupo. O mandato dele vai até 13 de maio deste ano, com possibilidade de reeleição. Leia a íntegra do comunicado (PDF – 417 kB).
Mesmo com os aportes que recebeu em 2024, segundo balanços financeiros, a S.A. O Estado de S. Paulo teve prejuízos de R$ 15,3 milhões em 2024 e de R$ 16,8 milhões em 2025. Leia a íntegra (PDF – 216 kB).
O Poder360 confirmou de maneira reservada com várias empresas que investiram no Estadão os dados publicados neste post. Também fez contato direto e formal desde 6ª feira (17.abr.2026) com as assessorias dessas empresas sobre os investimentos. Leia o que disseram:
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Bradesco – “O Bradesco esclarece que sua participação na emissão de debêntures do Grupo Estado decorre de operação de reestruturação de endividamento previamente constituído, estruturada de forma coordenada com outras instituições financeiras de grande porte. A operação tem por objetivo a reorganização da estrutura de divida da companhia, com exposição financeira do Bradesco no montante de R$ 15 milhões. Trata-se de operação típica de crédito no âmbito do mercado de capitais, contratada em condições de mercado, em bases estritamente comerciais e em conformidade com a legislação e a regulação aplicáveis. Em razão de sua natureza jurídica, a debênture não confere ao Bradesco quaisquer direitos societários, administrativos, gerenciais ou de ingerência sobre a linha editorial do veículo”;
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Itaú – “O Itaú Unibanco esclarece que sua participação na emissão de debêntures do Grupo Estado, em 2024, faz parte de uma operação de reestruturação de dívida preexistente, conduzida em conjunto com outros bancos de grande porte. A iniciativa visa a reorganização financeira da companhia, com valor total do Itaú de R$ 15 milhões. A operação é estritamente de crédito de mercado, contratada em condições usuais nesse tipo de contexto, e dentro dos parâmetros regulatórios. Vale ressaltar que, por sua natureza jurídica, a debênture bancária não confere ao Itaú qualquer poder administrativo, de gestão, participação em conselho ou influência sobre a linha editorial do veículo”;
- Santander Brasil – “O Santander esclarece que, conforme noticiado à época, participou em 2024 da reestruturação de dívidas do Grupo Estado, ao lado de outros bancos e investidores, na qual aportou, individualmente, R$ 15 milhões. A operação, que consistiu em um empréstimo sindicalizado por meio da emissão de debêntures, devidamente registradas em contrato e alinhadas à regulamentação vigente. Nenhuma cláusula prevê qualquer tipo de interferência sobre a gestão ou a linha editorial dos veículos do Grupo”;
- Cosan – “A Cosan não comentará”;
- Grupo Ultra – “O Grupo Ultra não vai se posicionar sobre o tema”;
- Unipar – “A Unipar não vai comentar sobre a pauta”;
- Votorantim – “A Votorantim não irá comentar sobre o tema”;
As empresas que não responderam terão suas manifestações incluídas nesta reportagem assim que enviarem algum comunicado.
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Créditos do autor: Poder360 ·
Créditos da imagem: Reprodução/Divulgação































