“A turma do Herzog ganhou da turma do Ustra”. A frase compartilhada recentemente pela atriz Julia Lemmertz sintetiza o significado histórico do resultado das eleições de 2026. De um lado, Vladimir Herzog, jornalista assassinado pela ditadura e símbolo da luta pela liberdade de imprensa, pela democracia e pelos Direitos Humanos. De outro, Carlos Alberto Brilhante Ustra, reconhecido judicialmente como torturador. Não estivemos diante de uma simples disputa eleitoral. Estivemos diante de valores radicalmente distintos de País, de sociedade e de futuro.

O calendário reforçou esse sentido. O segundo turno aconteceu em 25 de outubro, Dia da Democracia, data que relembra o assassinato de Vlado nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo, em 1975. Neste ano, completam-se 51 anos de sua morte. Que a sociedade brasileira tenha escolhido a democracia justamente nesse dia diz muito sobre a memória que o País se recusou a abandonar.

Quando o primeiro turno terminou com o candidato da extrema-direita à frente, muitos analistas passaram a tratar a eleição como definida. Esse campo chegava ao segundo turno fortalecido, com uma base mobilizada e capacidade de difundir sua narrativa em escala nacional. Mas a política não se esgota nas projeções ou nos acordos de cúpula. Ela também se transforma quando as pessoas decidem agir coletivamente.

A vitória do candidato democraticamente eleito, com 64,2 milhões de votos, foi uma virada histórica. Como observou a jornalista Flávia Oliveira, não foi o candidato quem levou o povo à vitória. Foi o povo quem o levou.

Em 11 de outubro, a Avenida Paulista foi ocupada por movimentos sociais, estudantes, torcidas organizadas, comunidades de fãs e a comunidade LGBTQIA+, em atos que se espalharam por dezenas de cidades. Na véspera do segundo turno, a Paulista recebeu uma multidão ainda maior, estimada em 2 milhões de participantes – o maior ato cívico da história do País – enquanto Copacabana reunia outra grande mobilização e atos em outros diversos estados.

Na noite de 25 de outubro, confirmado o resultado, centenas de milhares de cidadãos voltaram à Avenida Paulista. A esperança deixava de ser uma aposta e se tornava uma experiência coletiva.

A classe artística teve papel particular nesse processo. Atrizes, atores, músicos e escritores não se limitaram a declarar seus votos: participaram de atos, produziram conteúdos e, em um ambiente de desinformação e ataques, ajudaram a traduzir o que estava em jogo. Mostraram que a defesa da democracia diz respeito à liberdade de criar, de se expressar e de existir sem a ameaça do autoritarismo.

É preciso, no entanto, evitar uma leitura triunfalista. A derrota eleitoral não dissolve a divisão social que permitiu à candidatura derrotada reunir quase 60 milhões de votos. Após o resultado, intimado pelo Supremo Tribunal Federal a entregar seus passaportes, Flávio Bolsonaro fugiu do País com a família horas depois do fim do prazo.

Segundo a Folha de S.Paulo, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, participou ativamente da operação para retirá-lo do Brasil. Se confirmada, essa atuação configura uma possível ingerência em assuntos internos de um país soberano, com a estrutura de um Estado estrangeiro usada para resgatar um agente político sujeito a uma determinação judicial.

Com outra tonalidade e “método”, assim também atuaram na Venezuela, projetando um opositor de pouca densidade política, mas com algum apelo popular, como Juan Guaidó e María Corina Machado, criando instabilidade com a narrativa de fraude e de ataque à liberdade de expressão, não reconhecendo o resultado das urnas, acolhendo no exterior quem foge da Justiça, e estimulando a autoproclamação e os movimentos de extrema-direita. No limite, a intervenção direta, como a que terminou, em janeiro, com a captura do presidente venezuelano por forças norte-americanas.

No Brasil, várias dessas etapas já ecoaram. Sem apresentar provas, Donald Trump afirmou que a eleição “pareceu fraudada”, e os EUA não reconheceram oficialmente o resultado. De território norte-americano, Flávio divulgou uma carta em que se apresentava como “o verdadeiro presidente eleito do Brasil”. Minutos depois, apagou o trecho e passou a se designar “Líder do Brasil”. A democracia brasileira não pode aceitar que suas instituições sejam subordinadas a articulações externas, nem que um fugitivo da Justiça seja resgatado por uma força estrangeira.

Acontece que o Brasil não é a Venezuela. O presidente Lula venceu por mais de 4,4 milhões de votos de diferença, com o peso de uma das maiores mobilizações populares da nossa história. Mais de cem chefes de Estado, de governo e de organismos internacionais, de diferentes orientações políticas, reconheceram o resultado, da União Europeia à China, da Rússia à Ucrânia, da Índia ao Canadá, além de boa parte da América Latina.

Além disso, o governo norte-americano se aproxima de eleições legislativas em que pode sofrer perdas, agora somadas ao desgaste de ter acolhido quem fugiu do Brasil em desrespeito a uma ordem judicial.

Tudo isso cria uma situação diferente, que dificulta os planos de Trump. Cabe agora ao governo reeleito corresponder a este momento histórico e trazer para mais perto a massa social que o elegeu e conquistar aqueles que se sentiram traídos por Flávio Bolsonaro.

Herzog representa a memória de quem foi silenciado pelo autoritarismo. A turma que leva seu nome representa a possibilidade de que essa memória se transforme em ação coletiva. À sociedade, cabe converter a energia das ruas em participação permanente. Cabe a nós cobrar o governo, proteger a liberdade de imprensa, enfrentar a desinformação e fortalecer a sociedade civil.

A vitória não pertence somente ao candidato que nos garantiu a democracia. Pertence a quem fez desta luta uma causa coletiva e compreendeu que, diante do autoritarismo, a esperança precisa garantir voto e levar voz, corpo e presença às ruas.

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Créditos do autor: Rogério Sottili

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