Durante o tratamento do câncer de mama, os cuidados com a pele também fazem parte do acompanhamento da paciente. Radioterapia, quimioterapia e cirurgia podem provocar alterações cutâneas, como ressecamento, irritação, descamação, coceira e mudanças na pigmentação. Em mulheres negras e mestiças, as características da pele exigem atenção individualizada, principalmente diante de processos inflamatórios.
O tema ganha destaque durante o Outubro Rosa, período de conscientização sobre prevenção, diagnóstico e tratamento do câncer de mama. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 78.610 novos casos de câncer de mama feminina por ano entre 2026 e 2028. Sem considerar os tumores de pele não melanoma, a doença aparece como o câncer mais incidente entre as mulheres brasileiras.
Como o tratamento pode afetar a pele
A radioterapia faz parte do tratamento de alguns casos de câncer de mama. A técnica utiliza radiações ionizantes para destruir células tumorais ou impedir que elas aumentem. O INCA explica que a pele que recebe radiação pode coçar, ficar vermelha, irritada, queimada, seca e escamosa.
Entre as manifestações mais frequentes estão eritema ou vermelhidão, ressecamento, descamação, prurido, hipersensibilidade e alterações na tonalidade da pele. A intensidade varia conforme a região tratada, a dose de radiação e as características de cada paciente.
Na região torácica, por exemplo, o INCA também cita ressecamento, escurecimento, vermelhidão e coceira como possíveis reações. A instituição orienta acompanhamento regular durante a radioterapia para avaliar as condições da pele e outros efeitos do tratamento.
A quimioterapia também pode provocar alterações dermatológicas. Segundo o INCA, alguns medicamentos podem causar escurecimento da pele, principalmente nas áreas expostas ao sol, nas dobras das articulações, nas unhas e no trajeto das veias. Alguns medicamentos também podem causar desconforto, ardência, queimação, placas avermelhadas e coceira.
A instituição orienta que a paciente comunique imediatamente à equipe qualquer sintoma inesperado durante a aplicação da quimioterapia. A orientação também vale para alterações na pele que surjam ao longo do tratamento.
Por que a pigmentação merece atenção
A pele negra ou mestiça não constitui um fator de risco para o desenvolvimento do câncer de mama. No entanto, as características de pigmentação podem influenciar a aparência de processos inflamatórios e de alterações que surgem após uma lesão ou irritação.
Em pessoas com maior pigmentação, processos inflamatórios podem desencadear hiperpigmentação pós-inflamatória. O quadro provoca o escurecimento da região após um processo inflamatório ou uma lesão.
Por isso, alterações provocadas pelo tratamento oncológico podem afetar também a uniformidade da tonalidade da pele. A avaliação deve considerar as características individuais de cada paciente e o tipo de tratamento realizado.
Uma revisão sistemática publicada na revista Clinical Breast Cancer analisou estudos sobre alterações provocadas pela radioterapia em pacientes com câncer de mama ou da parede torácica e diferentes tons de pele. O trabalho reuniu estudos prospectivos, transversais, retrospectivos e ensaios clínicos randomizados.
Os pesquisadores encontraram resultados de dermatite por radiação mais intensos em pacientes negras em parte dos estudos que utilizaram avaliações clínicas subjetivas. Porém, os autores destacaram que os dados sobre outros grupos não brancos ainda são mais limitados.
A revisão também identificou uma lacuna importante. Ainda faltam estudos prospectivos e randomizados que avaliem objetivamente as alterações de pigmentação durante a radioterapia, considerando a pigmentação inicial da pele. Por isso, os autores recomendam pesquisas que acompanhem essas mudanças antes, durante e depois do tratamento.
Assim, a literatura disponível aponta diferenças em parte dos estudos, mas não permite generalizar todas as reações para mulheres negras e mestiças. O acompanhamento individual continua fundamental.
Acompanhamento deve começar antes das alterações
Para a médica Danìelà Hermes, pós-graduada em Saúde Pública e com 20 anos de atuação dedicada à saúde de peles plurais, o acompanhamento da pele precisa fazer parte da jornada oncológica desde o início.
“Durante a jornada oncológica, a saúde da pele precisa ser acompanhada continuamente. A resposta inflamatória pode gerar alterações na pigmentação que persistem por anos, um cenário comum em peles negras e mestiças”, diz Danìelà Hermes.
A declaração reforça a importância de observar a pele antes mesmo do aparecimento de lesões. A duração e a frequência dessas alterações, porém, podem variar entre pacientes e tratamentos. A revisão científica disponível também aponta limitações na caracterização objetiva das mudanças de pigmentação em diferentes tons de pele.
Por isso, o acompanhamento preventivo permite que a equipe identifique mudanças logo no início. A partir dessa avaliação, os profissionais podem orientar a paciente sobre os cuidados adequados para cada etapa do tratamento.
Cuidados com a pele durante a radioterapia
A equipe responsável pelo tratamento deve definir os cuidados conforme a região irradiada e as características de cada paciente. O INCA recomenda evitar banhos quentes e utilizar sabonete não perfumado, de preferência neutro. A instituição também orienta secar a pele com toques leves e evitar coçar a área que recebe radiação.
Também é importante não direcionar o jato do chuveiro diretamente para a região irradiada. Roupas apertadas e tecidos sintéticos podem aumentar o desconforto. Na região torácica, o INCA recomenda roupas mais confortáveis e orienta cuidados específicos quando a área tratada inclui a mama ou a axila.
A hidratação também pode fazer parte dos cuidados. No entanto, a equipe de saúde deve indicar o produto e orientar a forma de uso. O INCA recomenda a aplicação de uma camada fina de creme hidratante indicado pelo enfermeiro após a sessão de radioterapia. Antes da aplicação da radiação, a pele deve estar limpa e sem resíduos de cremes ou pomadas.
A médica Danìelà Hermes também destaca a necessidade de individualizar os cuidados e evitar a introdução de produtos por conta própria:
“O plano terapêutico precisa ser individualizado e alinhado à equipe responsável pelo tratamento do câncer. Medidas como a hidratação profunda da barreira cutânea, a higienização suave e a observação constante são fundamentais, mas a introdução de qualquer ativo ou produto deve passar por validação médica prévia”, aconselha Danìelà Hermes.
A recomendação é especialmente importante porque nem todo produto utilizado na rotina de cuidados com a pele deve ser aplicado durante a radioterapia. A equipe responsável precisa avaliar quais substâncias podem entrar na rotina e em qual momento.
Quando avisar a equipe médica
Durante o tratamento, algumas alterações exigem comunicação rápida com os profissionais responsáveis. Entre os sinais de atenção estão vermelhidão intensa, dor, coceira persistente, descamação acentuada, feridas, bolhas e secreções.
O INCA orienta que pacientes em radioterapia comuniquem ao médico ou ao enfermeiro a ocorrência de febre igual ou superior a 38 °C, dores, assaduras, bolhas ou secreção na pele.
Durante a quimioterapia, alguns sinais também exigem atenção. O INCA orienta que a paciente avise a equipe diante de sintomas como ardência, queimação, placas avermelhadas ou coceira durante a aplicação dos medicamentos.
A paciente não deve esperar que uma alteração se agrave para buscar orientação. A avaliação precoce ajuda a equipe a identificar a causa do problema e definir a conduta adequada.
Procedimentos para manchas, cicatrizes e textura exigem avaliação
Alterações de pigmentação, cicatrizes e mudanças na textura da pele podem permanecer após o tratamento. Em alguns casos, essas marcas levam a paciente a buscar procedimentos dermatológicos ou estéticos.
No entanto, qualquer intervenção precisa considerar a fase do tratamento e as condições da pele. Durante a radioterapia ou diante de lesões ativas, a paciente deve conversar com a equipe responsável antes de realizar procedimentos na região.
A prioridade é preservar a integridade do tecido e evitar novas agressões em uma área que já pode apresentar sensibilidade ou alterações decorrentes da terapia.
Depois do encerramento do tratamento, a paciente pode avaliar possibilidades para manchas, cicatrizes ou alterações de textura com profissionais habilitados. A decisão deve considerar o estado da pele, o histórico terapêutico e a orientação da equipe que acompanha o caso.
Cuidado integral vai além do tumor
O tratamento do câncer de mama envolve diferentes etapas e profissionais. Nesse processo, a saúde da pele também integra o cuidado da paciente.
Preservar a integridade do tecido, identificar alterações precocemente e controlar desconfortos pode contribuir para a qualidade de vida durante e depois da terapia.
O Outubro Rosa também amplia a discussão sobre os efeitos do tratamento. A atenção não precisa se limitar ao tumor. O cuidado oncológico também deve considerar o bem-estar físico e as particularidades de cada paciente.
No caso de mulheres negras e mestiças, a atenção às alterações de pigmentação e às respostas inflamatórias precisa ocorrer sem generalizações. A produção científica ainda apresenta lacunas sobre essas mudanças em diferentes tons de pele. Por isso, ampliar as pesquisas pode ajudar a compreender melhor a frequência e a intensidade dessas reações.
O acompanhamento médico, a identificação precoce das alterações e o cuidado individualizado ajudam a preservar a saúde da pele e o bem-estar ao longo do tratamento do câncer de mama.
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