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Os cigarros eletrônicos estão assumindo novas formas e se tornando cada vez mais difíceis de identificar. Disfarçados em acessórios, moletons e dispositivos tecnológicos, eles ampliam a exposição de adolescentes à nicotina e preocupam especialistas em saúde.

Além disso, os chamados sachês de nicotina também avançam no mercado ilegal e reforçam o alerta para uma nova geração de produtos que atraem principalmente o público jovem. O tema ganha ainda mais relevância às vésperas do Dia Mundial Sem Tabaco, celebrado em 31 de maio.

Segundo a Fundação do Câncer, a sofisticação desses dispositivos representa um desafio crescente para as políticas de controle do tabagismo, especialmente porque os produtos são desenvolvidos para se integrar à rotina dos usuários de forma discreta.

Dispositivos camuflados desafiam pais e educadores

Entre os exemplos mais preocupantes estão os chamados vaporizer hoodies, moletons com vaporizadores incorporados ao tecido. Nesses modelos, o bocal fica escondido na ponta do cordão do capuz, permitindo a inalação de nicotina sem chamar atenção e dificultando a identificação por pais e professores.

Segundo Luiz Augusto Maltoni, cirurgião oncológico e diretor executivo da Fundação do Câncer, essa estratégia representa um retrocesso nas ações de controle do tabagismo.
Esses dispositivos camuflados comprometem décadas de avanços nas políticas de controle do tabaco. Quando se estimula que jovens fumem sem serem percebidos, abrem-se as portas para o vício precoce.”

Além da camuflagem física, os novos produtos incorporam recursos tecnológicos que aumentam o engajamento dos usuários.

Imagem: Magnific

Dependência química encontra a dependência digital

Os dispositivos mais recentes contam com jogos, música, telas sensíveis ao toque, troca de mensagens e até mecanismos semelhantes aos chamados “bichinhos virtuais“. Dessa forma, o consumo da nicotina passa a ser estimulado por meio da interação constante.

Para Maltoni, o fenômeno vai além do tabagismo tradicional e passa a envolver elementos típicos do ambiente digital.

O que estamos vendo é a fusão entre dependência química e dependência digital. O vape deixa de ser apenas um dispositivo e passa a funcionar como um acessório interativo, integrado à rotina”, explica Maltoni.

A preocupação também aparece nos números. De acordo com a Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) 2024, a experimentação de cigarros eletrônicos entre estudantes de 13 a 17 anos passou de 16,8% em 2019 para 29,6% em 2024.

O avanço dos cigarros eletrônicos entre adolescentes reforça uma preocupação que já mobiliza especialistas e autoridades de saúde em todo o país. Em entrevista à Agência Brasil, o diretor-geral do Instituto Nacional de Câncer (INCA), Roberto Gil, alertou que o Brasil vive atualmente um cenário que vai além do combate ao tabagismo tradicional.

Segundo ele, a disputa agora é contra toda a indústria da nicotina, que utiliza novos formatos e estratégias para alcançar principalmente adolescentes e jovens.

Me impressiona a desinformação que a gente ainda tem, porque um produto que mata um em cada dois usuários, isso não é um produto que podia existir“, declarou.

Para Milena Maciel de Carvalho, consultora na área de tabagismo da Fundação do Câncer, os riscos associados aos cigarros eletrônicos vão além da dependência da nicotina. Segundo a especialista, o uso desses dispositivos durante a adolescência pode comprometer o desenvolvimento cerebral, afetando funções relacionadas à atenção, aprendizagem, humor e controle dos impulsos. Além disso, os jovens ficam mais vulneráveis ao vício ao longo da vida.

Milena também alerta que os cigarros eletrônicos expõem os usuários a substâncias tóxicas, como partículas ultrafinas, compostos orgânicos voláteis e metais pesados, que podem provocar danos à saúde respiratória e cardiovascular.

A exposição à nicotina na adolescência pode afetar o desenvolvimento do cérebro, especialmente áreas relacionadas à atenção, aprendizagem, humor e controle de impulsos, além de aumentar a vulnerabilidade à dependência de nicotina ao longo da vida.”

Mercado ilegal segue em expansão no Brasil

Embora a comercialização de cigarros eletrônicos seja proibida pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) desde 2009, a oferta desses produtos continua crescendo por meio das redes sociais, sites e comércio informal.

Dados da Receita Federal mostram a dimensão do problema. Apenas nos dois primeiros meses de 2026, foram apreendidas 238.801 unidades de cigarros eletrônicos no país. O número equivale a cerca de quatro mil dispositivos por dia.

Maltoni avalia que o crescimento desses produtos representa um risco para os avanços conquistados pelo Brasil no combate ao tabagismo.

Depois de décadas de queda consistente no número de fumantes no Brasil, o que estamos vendo agora é um risco real de retrocesso, agora embalado em tecnologia e integrado ao cotidiano dos jovens. Esses dispositivos criam uma nova porta de entrada para o consumo de nicotina e reconfiguram o comportamento, especialmente entre adolescentes“, defende.

Sachês de nicotina também preocupam especialistas

Outra tendência que vem chamando atenção dos profissionais de saúde são os sachês de nicotina. Pequenos e discretos, eles são posicionados entre a gengiva e o lábio e dispensam fumaça ou combustão.

Apesar de não terem comercialização autorizada pela Anvisa, esses produtos continuam sendo vendidos livremente pela internet no Brasil.

Imagem: Andrii Atanov/Getty Images

Segundo relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), as vendas globais de sachês de nicotina ultrapassaram 23 bilhões de unidades em 2024. Além disso, o crescimento foi superior a 50% em relação ao ano anterior. Já em 2025, o mercado movimentou quase US$ 7 bilhões.

A cirurgiã-dentista Suyana Carneiro, da Hapvida, alerta que a ausência de fumaça contribui para uma falsa sensação de segurança.

Mesmo sem combustão, os sachês de nicotina não são inofensivos para a saúde bucal. Eles liberam nicotina e outras substâncias químicas diretamente sobre a mucosa oral, podendo causar irritação local crônica, alterações celulares e desequilíbrio da microbiota oral“, explica.

Entre os principais problemas associados ao uso estão recessão gengival, ulcerações, inflamações persistentes e lesões na mucosa oral. Além disso, especialistas alertam para as altas concentrações de nicotina presentes nesses produtos.

A nicotina é um potente vasoconstrictor. Ela reduz o fluxo sanguíneo gengival, prejudica a oxigenação dos tecidos e dificulta a cicatrização. Além disso, pode mascarar sinais inflamatórios, criando uma falsa impressão de saúde enquanto a doença periodontal evolui silenciosamente”, alerta Suyana.

Segundo a dentista, os danos podem se tornar permanentes.

O uso crônico pode levar à progressão da doença periodontal, perda de inserção gengival, reabsorção óssea localizada, mobilidade dentária e, em casos mais avançados, perda dentária“, afirma.

Novo desafio para a saúde pública

Especialistas avaliam que a combinação entre tecnologia, marketing digital e produtos com alto potencial de dependência representa um dos maiores desafios atuais para o controle do tabagismo.

Nesse contexto, a campanha da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o Dia Mundial Sem Tabaco deste ano traz o tema “Desmascarando o apelo, combatendo a dependência de nicotina e tabaco“.

Diante desse cenário, profissionais de saúde defendem o fortalecimento da fiscalização, o combate ao comércio ilegal e a ampliação das ações educativas voltadas para famílias, escolas e adolescentes.

O objetivo é impedir que uma nova geração seja atraída por produtos que unem tecnologia, entretenimento e dependência química.

Imagem: Magnific

Fonte: clique aqui.

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