IK: Sempre trabalhei com a perspectiva de que a responsabilidade de fazer a contenção da extrema-direita na sua atuação institucional é também da direita. Passamos por um processo em que a direita democrática teve uma inflexão para a extrema-direita. Quando isso acontece, esse campo, de certa forma, abre mão de ocupar um lugar histórico importante, um lugar de contenção da própria extrema-direita.
É uma inflexão que, infelizmente, vai acontecer até com a negação do resultado eleitoral. No fim das contas, a direita tem essa responsabilidade. Ao contrário do cálculo que foi feito, quando essa direita passa a não fazer frente de fato ao bolsonarismo e, de uma maneira oportunista, tenta se aproveitar da própria onda do bolsonarismo imaginando que seria uma coisa controlável ou um fenômeno muito isolado, o que acaba acontecendo é que se perde posição política.
Ao contrário do que se imaginava dez anos atrás, a ideia de que seria possível controlar a família Bolsonaro acaba por não se realizar.
A própria tentativa de passar a anistia — seja o que chamaram de “anistia light”, seja a dosimetria — é algo muito sintomático do lugar que o campo da direita passa a ocupar nesse processo. Do ponto de vista histórico, se temos uma tentativa de golpe de Estado, qualquer força democrática deveria passar a ser muito enfática para que isso não se repetisse e para condenar esses atos. E o que vimos é o campo da direita, uma boa parte dele, flexibilizando esse processo.
CC: Desde 2022, o bolsonarismo busca ampliar seu apoio no eleitorado feminino — vide o exemplo do PL Mulher. Como avalia esse movimento?
IK: Tivemos o impeachment de Dilma Rousseff em boa parte envolvido em dinâmicas de gênero. E passamos a ter, inclusive no próprio campo da esquerda, uma espécie de receio de apoiar publicamente mulheres e de enfrentar essas questões, como se fosse algo que fragilizasse a própria esquerda, principalmente considerando o trauma do impeachment. E o que aconteceu é que, paradoxalmente, a própria direita passou a avançar nesses temas e apoiar mulheres que, muitas vezes, apoiam uma agenda antigênero.
O lugar das mulheres no campo da direita e da extrema-direita é muito instável e muito ambíguo — vimos isso com a própria Michelle Bolsonaro. A extrema-direita precisa do voto feminino, mas ao mesmo tempo sua base ideológica é machista. Ou seja, as mulheres ganham destaque quando são necessárias para o projeto, mas podem ser facilmente descartadas ou sofrer ataques quando passam a não performar de acordo com com aqueles projetos específicos.
Não estou dizendo ser o mesmo lugar que as mulheres ocupam no campo da esquerda, ainda que dificuldades em relação à atuação institucional ocorram com mulheres em qualquer campo político.
No campo da direita, aproveita-se de uma agenda de proteção de mulheres, de crianças e da família, e isso é um desafio. Por exemplo: o combate à violência doméstica ou à violência de gênero é uma agenda também encampada pela extrema-direita. É a extrema-direita falando em agendas que têm a ver com com coisas muito parecidas com as do campo da esquerda.
A resolução do problema e o enfrentamento daquelas questões se dão de maneiras diferentes, mas é difícil para o eleitor ou para a eleitora comum conseguir diferenciar essas agendas, porque parece que que essas mulheres conservadoras estão falando a mesma coisa que outras mulheres no campo da política. E não estão.
CC: Vemos agora uma campanha muito marcada por dúvidas sobre deepfakes. Como projetar o que nos aguarda neste ano em comparação com o que vivemos em 2022?
IK: Temos uma diferença fundamental em relação ao uso de inteligência artificial, e isso não tem a ver só com com deepfake.
Vemos, no caso desta eleição especificamente, o uso da inteligência artificial e do deepfake não para difamar adversários, mas para recompor a presença de Jair Bolsonaro em um momento em que essa presença está interditada.
Bolsonaro, do ponto de vista legal, impossibilitado de falar em público e de usar as redes sociais, e a campanha recompõe a sua presença como se ele não estivesse preso. Então, é um fenômeno complexo e que vai muito além do paradigma do deepfake — de enganar o eleitor — ou do paradigma da difamação.
Temos desafios muito sérios, das mais variadas ordens. Um deles é a recomposição do Bolsonaro, outro é a composição de eleitores que não existem. São esses avatares como o da Dona Maria, que ficou famoso. De uma certa maneira, simulam o eleitor comum, muitas vezes o eleitor indeciso, a partir da construção de um eleitor que não existe.
Neste caso, sim, é para enganar as pessoas, porque ele se passa por um eleitor real. A inteligência artificial, a partir de diferentes maneiras, tem uma série de mudanças de recomposição do debate público e daquilo que consideramos paradigmas comuns da democracia.
Essa questão da inteligência artificial está muito além do uso da propaganda em si, do deepfake, e é algo que a campanha de Flávio Bolsonaro tem utilizado para recompor a presença de Jair — quando não poderia fazer isso.
CC: A extrema-direita brasileira é subserviente aos EUA, enquanto em outros países tem uma fantasia mais nacionalista, como vimos no exemplo dos tarifaços?
IK: Temos chamado isso de ‘patriotismo subalterno’, um tipo de patriotismo que se coloca de maneira subserviente principalmente em relação aos EUA. É um tipo que eu nem chamaria de nacionalismo, mas, no caso do Brasil, de um tipo de ‘patriotismo’ que se coloca quando, por exemplo, Eduardo Bolsonaro presta continência para uma autoridade nos EUA.
Esse imaginário de patriotismo que herda noções a partir dos EUA é ambíguo: é um tipo de nacionalismo, é um apelo à Pátria, mas é uma subalternidade e uma fantasia de que em uma situação de conflito, haveria uma proteção dos EUA, de que Trump ofereceria algum tipo de proteção em relação aos interesses do Brasil, o que também não é verdade.
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Créditos do autor: Leonardo Miazzo
Créditos da imagem: Reprodução/Divulgação


































