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O coração acelera, o estômago se contrai, os músculos ficam tensos. A pessoa percebe que alguma coisa mudou, mas tem dificuldade para identificar se está ansiosa, triste, irritada, frustrada ou apenas cansada.

Esse desencontro entre as sensações percebidas no corpo e a capacidade de reconhecer e descrever a experiência emocional pode estar relacionado à alexitimia, um construto multidimensional caracterizado principalmente pela dificuldade para identificar e descrever os próprios sentimentos e por um estilo de pensamento mais orientado para aspectos externos.

Isso não significa que uma pessoa com alexitimia não tenha emoções. A dificuldade está em processos como reconhecer, diferenciar e comunicar aquilo que sente.

“A alexitimia não quer dizer que a pessoa não sinta. Muitas vezes, ela sente, mas não consegue reconhecer com clareza o que acontece internamente ou encontrar palavras para comunicar isso”, explica a psicóloga e neuropsicóloga Luanda Rosa Queiroz, especialista em autismo na adolescência e na vida adulta e com atuação em avaliação neuropsicológica de adultos.

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Quais são os sinais de alexitimia?

Entre os sinais que podem chamar atenção estão a dificuldade recorrente para identificar o que se sente, diferenciar emoções, colocar sentimentos em palavras e compreender alterações físicas associadas a estados emocionais.

Em algumas situações, a pessoa percebe que algo mudou internamente, mas não consegue determinar com clareza se está triste, ansiosa, irritada, frustrada ou sobrecarregada. Em outras, manifestações físicas podem chamar atenção antes que a experiência emocional seja compreendida.

Essa dificuldade de distinguir sentimentos de sensações corporais aparece entre as características tradicionalmente associadas à alexitimia na literatura científica.

É como receber sinais internos sem um sistema de tradução. A pessoa percebe que algo mudou, mas não identifica a mensagem emocional por trás daquela mudança”, afirma Luanda.

Isso não significa que toda dificuldade para nomear uma emoção seja sinal de alexitimia. Também não permite tirar conclusões a partir de uma situação isolada. O que merece atenção é a presença recorrente dessas dificuldades e o impacto que elas provocam na vida da pessoa.

A dificuldade também pode aparecer nos relacionamentos

Nem sempre a dificuldade é percebida primeiro pela própria pessoa. Nos relacionamentos, problemas na comunicação emocional podem gerar interpretações equivocadas.

O silêncio pode ser entendido como desinteresse. Uma resposta objetiva pode parecer rejeição. A ausência de palavras de conforto pode ser interpretada como indiferença, mesmo quando existe preocupação com o sofrimento do outro.

Sentir, reconhecer, expressar e comunicar são etapas diferentes. Uma pessoa pode ter dificuldade em uma delas e preservar as outras”, explica Luanda.

A literatura descreve a alexitimia principalmente a partir das dificuldades para identificar e descrever sentimentos, e não como ausência de emoções. Por isso, essa característica, isoladamente, não permite concluir que alguém seja frio, indiferente ou incapaz de estabelecer vínculos.

Ao mesmo tempo, compreender uma dificuldade de processamento emocional não significa retirar da pessoa a responsabilidade pela maneira como se comunica e se comporta em suas relações.

 

O corpo pode dar sinais antes que a emoção seja compreendida

Experiências emocionais podem vir acompanhadas de alterações físicas. O desafio para algumas pessoas está em diferenciar sensações corporais e sentimentos e compreender o significado daquela experiência.

Um conceito relacionado a essa discussão é a interocepção, que diz respeito à percepção dos sinais internos do organismo. Pesquisadores estudam como a percepção e a interpretação desses sinais se relacionam com o processamento das emoções.

Uma revisão sistemática com meta-análises publicada em 2024 na PLOS ONE examinou a relação entre alexitimia e medidas autorrelatadas de interocepção. Os resultados mostraram associações entre alexitimia e diferentes aspectos da percepção e interpretação dos sinais internos, mas também indicaram que essa relação varia conforme a maneira como a interocepção é definida e medida.

Por isso, não é adequado reduzir a alexitimia simplesmente a uma dificuldade de “escutar o corpo”. Trata-se de um fenômeno mais amplo, relacionado ao processamento da experiência emocional.

Também é necessário cuidado para não atribuir automaticamente sintomas físicos à alexitimia ou às emoções. Dor de cabeça, insônia, tensão muscular, desconforto gastrointestinal ou outros sintomas podem ter diferentes causas.

A pessoa pode procurar ajuda dizendo que tem um problema físico, quando também existe dificuldade para perceber que está triste, ansiosa ou sobrecarregada. Uma investigação responsável precisa considerar as duas dimensões”, afirma Luanda.

A dificuldade para reconhecer estados emocionais, portanto, não substitui a investigação clínica de sintomas físicos.

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Quando vale a pena investigar?

A dificuldade para reconhecer e comunicar emoções pode justificar uma investigação profissional quando é recorrente, provoca sofrimento ou interfere de forma relevante na vida cotidiana e nos relacionamentos.

O objetivo não deve ser chegar a uma conclusão a partir de uma lista de sinais, mas compreender como essas características aparecem no funcionamento daquela pessoa e o que pode estar relacionado a elas.

Mais importante do que simplesmente identificar uma característica é compreender como ela se manifesta naquela pessoa, quais impactos provoca e quais outros aspectos do funcionamento podem estar relacionados a ela”, explica Luanda.

A Toronto Alexithymia Scale (TAS-20) é um dos instrumentos mais utilizados em pesquisas sobre alexitimia. Uma revisão publicada em 2020, após 25 anos de estudos com a escala, concluiu que o conjunto das evidências acumuladas sustenta diferentes aspectos de sua confiabilidade e validade, embora os autores também discutam controvérsias relacionadas ao instrumento e à mensuração da alexitimia.

O resultado de uma escala, porém, não deve ser confundido com uma conclusão individual baseada apenas em um questionário. Da mesma forma, identificar-se com uma lista de características não permite estabelecer sozinho o que está por trás da dificuldade emocional.

Qual é a relação entre alexitimia e autismo?

Alexitimia e autismo não são sinônimos. A alexitimia aparece com maior frequência entre pessoas autistas, mas nem toda pessoa autista apresenta alexitimia, assim como ter alexitimia não significa que uma pessoa seja autista.

Uma revisão sistemática e meta-análise publicada no European Psychiatry reuniu 15 estudos que compararam grupos de pessoas autistas e neurotípicas utilizando a Toronto Alexithymia Scale (TAS). A prevalência estimada de alexitimia foi de 49,93% nos grupos autistas e 4,89% nos grupos neurotípicos.

Os números precisam ser interpretados dentro do contexto da pesquisa. Dos 15 estudos incluídos, nove informaram quantos participantes ultrapassavam o ponto de corte para alexitimia. Além disso, as estimativas entre os grupos autistas variaram nos diferentes estudos. Portanto, o resultado não significa que metade de todas as pessoas autistas necessariamente tenha alexitimia.

A relação entre autismo, alexitimia e percepção dos sinais internos do organismo também continua sendo investigada. Não é adequado presumir que dificuldades interoceptivas estejam presentes em todas as pessoas autistas.

Alguns pacientes só percebem que estavam no limite quando já precisam se isolar, interromper uma atividade ou lidar com uma crise. O corpo vinha dando sinais, mas esses sinais não foram interpretados a tempo”, explica Luanda a partir da experiência clínica.

Alexitimia não acontece apenas no autismo

A alexitimia não é exclusiva do autismo. A literatura científica investiga essa característica em diferentes populações e contextos clínicos.

Essas associações, porém, não permitem determinar a origem da dificuldade emocional de uma pessoa individualmente. Também não significam que alexitimia seja evidência suficiente para identificar autismo, trauma ou qualquer outro quadro.

Por isso, reconhecer algumas características em si mesmo não permite estabelecer sozinho o que está por trás delas.

Alexitimia não define o caráter de uma pessoa

Ter dificuldade para identificar ou colocar sentimentos em palavras não significa ausência de afeto e, por si só, não permite concluir que alguém seja indiferente.

Reconhecer essa dificuldade pode ajudar a compreender por que determinadas situações emocionais e relacionamentos exigem mais esforço de algumas pessoas. Essa compreensão, porém, não transforma alexitimia em justificativa automática para problemas de comunicação ou comportamentos que afetem outras pessoas.

Compreender a alexitimia não elimina a responsabilidade de construir relações mais cuidadosas. Mas permite trocar o julgamento por estratégias e buscar formas de expressão mais acessíveis para cada pessoa”, conclui Luanda.

 

Fonte: clique aqui.

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