As escolas públicas têm se tornado cada vez mais palco de disputas políticas que fragmentam a sociedade brasileira, indica um levantamento da Escola de Administração de Empresas de São Paulo, da Fundação Getúlio Vargas. A crescente politização de temas como gênero, sexualidade e religião, por exemplo, contribuiu para um ambiente de constante vigilância e insegurança profissional.
Os dados mostram que 61,7% dos docentes afirmam que a pressão política limita diretamente sua autonomia para lecionar, enquanto 75,6% temem consequências profissionais caso suas decisões contrariem interesses políticos. Os dados são da pesquisa Politização no Cotidiano das Escolas: um olhar para a prática docente, realizada em parceria com a Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação e divulgado nesta terça-feira 22. Clique aqui para ler a íntegra.
A sensação predominante é que a politização de conteúdos curriculares resultou em uma atmosfera constante de insegurança e vigilância: 71,7% dos docentes sentem-se muito mais expostos a críticas políticas do que em períodos anteriores, e 66,8% relatam que até mesmo atitudes rotineiras em sala de aula acabam distorcidas e interpretadas como manifestação política. Para capturar esse cenário, a pesquisa entrevistou pela internet 2.235 professores do ensino fundamental (anos finais) e do ensino médio em todas as regiões do País, entre 23 de junho e 20 de agosto deste ano.
Para os autores do estudo, os dados escancaram um paradoxo na experiência dos professores brasileiros: enquanto o discurso oficial e as diretrizes pedagógicas enaltecem a autonomia docente, a vivência nas salas de aula é engessada, quadro que, segundo os pesquisadores, agrava a desvalorização da carreira.
O reflexo dessa precarização já preocupa analistas: um estudo conduzido pelo Instituto Semesp em 2025 projeta um déficit de mais de 235 mil professores até 2040, alimentado por condições de trabalho insuficientes. A nota técnica vincula essa percepção de politização a movimentos como o Escola Sem Partido e à atuação de parlamentares focados em acusar docentes de “doutrinação ideológica”. No mesmo sentido, dados do Observatório Nacional da Violência contra Educadores, que mapearam mais de três mil profissionais entre 2010 e 2024, mostram que a maioria presenciou, sofreu ou tomou conhecimento de episódios de censura envolvendo temas políticos, de gênero e sexualidade, religiosos, étnico-raciais ou de negacionismo científico.
“Esta pesquisa traz mais uma evidência de como a atuação dos profissionais dos serviços públicos vem sendo profundamente afetada, nos últimos anos, pelo aumento da politização e da polarização em torno das políticas públicas”, resume a professora Gabriela Lotta, uma das responsáveis pelo estudo. “Os efeitos não recaem apenas sobre esses profissionais. Quem está, em última instância, no meio desse fogo cruzado são os cidadãos, que podem ter seu acesso a serviços e direitos afetado pelas disputas políticas e pelo ambiente polarizado.”
Como antídoto a essa crise, a recomendação do levantamento é a urgente revitalização da escola democrática, o que exige a criação de salvaguardas institucionais para que os professores recuperem sua autonomia com segurança e respaldo.
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Créditos do autor: Ana Luiza Basilio
Créditos da imagem: Reprodução/Divulgação

































