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A cada Copa do Mundo, uma tradição volta a movimentar escolas, praças, consultórios e reuniões de família: os álbuns e pacotinhos de figurinhas. O que parece apenas uma brincadeira divertida para muitas crianças também pode se transformar em uma importante ferramenta de desenvolvimento emocional e social, especialmente para crianças neurodivergentes.

Entre trocas, negociações e a busca pelas figurinhas raras, habilidades como paciência, flexibilidade, comunicação e tolerância à frustração acabam sendo estimuladas de forma natural. Segundo a psicóloga e neurocientista Mayra Gaiato, uma das principais referências brasileiras em autismo e neurodesenvolvimento, o universo das figurinhas envolve muito mais do que entretenimento.

Quando uma criança abre um pacote de figurinhas, ela está lidando com expectativa, surpresa, recompensa, organização e interação social. Existe muito aprendizado acontecendo ali. O cérebro está trabalhando conceitos importantes como espera, flexibilidade, negociação e tolerância à frustração”, explica.

Aprendendo a lidar com frustrações

Receber uma figurinha repetida pode parecer algo simples para muitos adultos. No entanto, para crianças neurodivergentes, lidar com situações inesperadas pode representar um desafio maior, já que muitas delas apresentam necessidade aumentada de previsibilidade.

De acordo com Mayra, isso não significa falta de limites ou “birra”, mas sim um cérebro que ainda está aprendendo a administrar emoções difíceis.

Nem sempre a frustração aparece porque a criança é mimada. Muitas vezes estamos diante de um cérebro que ainda está aprendendo a lidar com emoções difíceis. A boa notícia é que essas habilidades podem ser ensinadas, e as figurinhas acabam criando um ambiente muito rico para esse aprendizado”, afirma.

Além disso, a especialista destaca que a brincadeira também ensina algo cada vez mais raro na infância atual: a capacidade de esperar.

“Vivemos em uma época em que quase tudo é imediato. Mas a vida não funciona assim. Nem sempre a figurinha procurada aparece no primeiro pacote, e isso ensina algo importante: alguns objetivos precisam ser construídos aos poucos”, ressalta.

Imagem: Magnific

Interesse compartilhado favorece inclusão

Para muitas crianças neurodivergentes, iniciar interações sociais espontaneamente pode ser difícil. Nesse contexto, os álbuns de figurinhas funcionam como uma ponte de aproximação entre colegas, já que criam um interesse em comum.

A jornalista Débora Saueressig acompanha essa realidade de perto com o filho Benjamin, de sete anos. Segundo ela, o interesse pelas figurinhas abriu novas possibilidades de interação.

“Muitas vezes o Benjamin quer participar, observa as conversas e demonstra interesse, mas nem sempre os outros colegas percebem isso ou tomam a iniciativa de incluí-lo. Quando existe um assunto que mobiliza todas as crianças, fica mais fácil criar pontes”, relata.

Para Mayra Gaiato, esse interesse compartilhado possui um enorme valor social.

As figurinhas criam algo muito poderoso para crianças neurodivergentes: uma oportunidade natural de conexão. Muitas vezes elas têm dificuldade para entrar em grupos já formados, mas um tema comum facilita essa aproximação”, explica.

Segundo a especialista, experiências simples do cotidiano podem gerar oportunidades de interação mais espontâneas do que atividades planejadas exclusivamente para desenvolver habilidades sociais.

O papel das famílias e da escola

Embora a brincadeira favoreça a interação, especialistas alertam que a inclusão nem sempre acontece automaticamente. Por isso, o apoio de adultos pode fazer diferença importante nesse processo.

Entre as estratégias sugeridas por Mayra estão incentivar a criança a levar figurinhas repetidas para a escola, ensaiar trocas em casa e ensinar frases simples para iniciar conversas, como “Você quer trocar?” ou “Qual figurinha você está procurando?”.

Além disso, professores e familiares podem ajudar criando espaços organizados de troca e estimulando crianças mais tímidas ou isoladas a participarem das atividades.

Pequenos convites fazem diferença. Quando uma criança é chamada para mostrar uma figurinha ou participar de uma troca, ela começa a construir algo muito importante: o sentimento de pertencimento”, destaca.

Imagem: Magnifc

Muito além do álbum

Para Mayra Gaiato, um dos maiores erros dos adultos é enxergar os álbuns apenas como passatempo. Segundo ela, experiências aparentemente simples podem contribuir significativamente para o desenvolvimento infantil.

As crianças acreditam que estão apenas colecionando figurinhas, mas o cérebro está aprendendo muito mais do que isso. Está aprendendo a conversar, negociar, esperar, perder, ganhar e construir relações”, afirma.

Dentro da perspectiva da ABA Naturalista,  abordagem que utiliza situações reais do cotidiano para promover aprendizagem, momentos como trocas de figurinhas possuem grande potencial educativo.

Muitas vezes o aprendizado não acontece sentado em uma mesa. Ele acontece no recreio, no corredor da escola ou durante uma troca de figurinhas entre amigos”, pontua.

Enquanto a Copa mobiliza crianças de diferentes idades e perfis, especialistas reforçam que talvez o maior valor do álbum não esteja apenas em completá-lo, mas nas experiências construídas ao longo do caminho. Afinal, entre pacotinhos abertos com expectativa, negociações improvisadas e conversas iniciadas por uma figurinha repetida, crianças exercitam habilidades emocionais e sociais fundamentais para a vida em sociedade.

Para crianças neurodivergentes, essas interações podem ter um significado ainda mais profundo. Isso porque a brincadeira cria oportunidades reais de pertencimento, aproxima colegas e favorece conexões que muitas vezes não surgiriam de forma espontânea. Pequenos gestos, como convidar alguém para uma troca ou incluir uma criança na conversa, podem fortalecer vínculos, estimular a comunicação e ajudar na construção da autoestima.

Mais do que entretenimento, os álbuns acabam funcionando como ferramentas afetivas de convivência, aprendizado e inclusão. Segundo especialistas, quando famílias, professores e amigos valorizam esses momentos, a brincadeira deixa de ser apenas uma febre infantil e passa a ocupar um papel importante no desenvolvimento emocional das crianças.

Enquanto muitas crianças acreditam que estão apenas completando um álbum, seus cérebros estão aprendendo algo muito maior: estão aprendendo a conviver”, conclui Mayra Gaiato.

Fonte: clique aqui.

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