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Dor ao mastigar, estalos ao abrir a boca, sensação de cansaço na face e travamentos repentinos costumam ser tratados como desconfortos passageiros. No entanto, especialistas alertam que esses sintomas podem indicar uma sobrecarga na articulação temporomandibular (ATM), estrutura responsável por funções essenciais, como falar, mastigar, bocejar e engolir.

Nos últimos anos, profissionais da saúde têm observado um aumento dessas queixas associado a fatores cada vez mais presentes na rotina moderna. Estresse contínuo, excesso de tempo diante das telas, noites mal dormidas, má postura e dificuldade de relaxar formam um cenário que mantém a mandíbula em tensão constante.

Segundo a fisioterapeuta Dra. Mariana Milazzotto, mestre em Ciências Médicas, a ATM está entre as regiões do corpo que mais sofrem os impactos da rotina acelerada.

A mandíbula é muito sensível à forma como a pessoa vive. Estresse, cabeça projetada para frente, noites ruins, apertamento dentário e repetição de hábitos da boca criam um quadro de sobrecarga que o corpo nem sempre consegue compensar sem sintomas”, afirma.

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Sinais podem começar de forma discreta

De acordo com a especialista, o problema geralmente surge aos poucos. Um clique ao abrir a boca, rigidez ao acordar ou desconforto leve ao mastigar podem ser os primeiros indícios de que a articulação está sobrecarregada.

Com o passar do tempo, porém, o quadro pode evoluir para dor persistente, limitação de movimento, alteração na mordida e episódios de travamento.

Nem todo estalo significa gravidade, mas quando ele se repete e vem acompanhado de dor, cansaço ao mastigar ou sensação de rigidez, a articulação já está mostrando que algo não vai bem”, explica Mariana.

Além disso, a fisioterapeuta destaca que a ATM funciona em conjunto com outras regiões do corpo. Face, pescoço, ombros e respiração precisam atuar em equilíbrio para evitar compensações musculares.

Por isso, hábitos posturais relacionados ao uso prolongado de celulares e computadores podem favorecer o problema. Quando a cabeça permanece inclinada para frente por muito tempo, a musculatura cervical entra em sobrecarga e altera o funcionamento da região facial.

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Bruxismo e tensão emocional aumentam o desgaste

Outro fator frequentemente associado às dores na mandíbula é o bruxismo, condição caracterizada pelo apertamento ou ranger dos dentes. Muitas vezes, o comportamento acontece de forma involuntária, principalmente durante o sono.

Ansiedade, tensão emocional acumulada e dificuldade de desacelerar costumam intensificar esse padrão. Como consequência, sintomas como dor de cabeça, fadiga facial e sensação de cansaço ao acordar aparecem com frequência.

Além disso, hábitos aparentemente inofensivos também contribuem para manter a ATM sob esforço contínuo. Entre eles estão roer unhas, mascar chiclete em excesso, apoiar o queixo com a mão, morder objetos e forçar a abertura da boca em bocejos ou mordidas grandes.

Para a psicóloga clínica Dra. Mirela Borges, especialista em burnout e esgotamento profissional, o problema vai além de episódios isolados de estresse.

“O que aparece em muitos casos é um estilo de vida que mantém o corpo em estado de alerta constante. A pessoa passa o dia sendo estimulada por notificações, informação em excesso, cobrança, comparação e velocidade. O cérebro não encontra tempo para processar, desacelerar e realmente descansar”, afirma.

Corpo continua em alerta mesmo nos momentos de descanso

Segundo Mirela, o excesso de telas não afeta apenas pelo tempo de uso, mas pelo padrão contínuo de ativação mental que ele sustenta.

O corpo deixa de alternar de forma saudável entre ativação e repouso. Ele continua ligado mesmo quando a pessoa tenta relaxar. E, quando esse padrão se torna crônico, a tensão começa a aparecer fisicamente: ombros contraídos, respiração curta e mandíbula pressionada”, explica.

Na avaliação da psicóloga, muitas pessoas entram em um ciclo silencioso de hiperestimulação. O dia começa com o celular e segue em ritmo acelerado, sem pausas reais para recuperação física e mental.

A pessoa até para, mas não desacelera. O organismo permanece em vigilância”, diz.

Com o tempo, dores e travamentos podem deixar de ser sintomas isolados e se tornar sinais de esgotamento mais amplo.

Dor, tensão e pequenos travamentos não são exagero nem fraqueza. São respostas coerentes de um organismo submetido à ativação constante, sem espaço suficiente de recuperação”, ressalta Mirela.

Quando procurar ajuda especializada

Para Mariana Milazzotto, um dos maiores problemas é a normalização desses sintomas. Muitas pessoas convivem diariamente com dor ao mastigar, estalos e tensão facial sem buscar avaliação profissional.

Os principais sinais de alerta incluem:

  • travamento da boca aberta ou fechada;
  • dor intensa ao mastigar ou falar;
  • mudança súbita na mordida;
  • sensação de desalinhamento da mandíbula;
  • limitação para abrir a boca.

Nesses casos, a recomendação é procurar atendimento especializado e evitar tentativas caseiras de “colocar a mandíbula no lugar”, já que a ATM é uma articulação delicada e cercada por músculos, ligamentos e nervos importantes.

Enquanto a avaliação profissional não acontece, algumas medidas simples podem ajudar a aliviar a sobrecarga:

  • evitar mastigação forçada;
  • não insistir na abertura da boca;
  • relaxar ombros e pescoço;
  • aplicar compressa morna na lateral do rosto;
  • desacelerar a respiração;
  • reduzir hábitos repetitivos da boca.

Tratamento envolve mudanças de hábitos e reeducação corporal

O tratamento varia conforme a causa e a intensidade dos sintomas. Em muitos casos, a abordagem inclui fisioterapia, reorganização de hábitos, manejo do estresse e acompanhamento odontológico.

Segundo Mariana, a fisioterapia busca identificar não apenas a dor, mas também o que mantém o padrão de sobrecarga.

“Nem sempre a origem da dor está na mandíbula. Às vezes, ela está em uma cervical rígida, em um padrão postural repetido ou em tensão sustentada ao longo do dia. O tratamento não é apenas aliviar a dor, mas ensinar o corpo a funcionar com mais eficiência e menos compensação”, explica.

A especialista reforça ainda que prevenir novos episódios depende menos da busca por uma postura perfeita e mais da redução de excessos cotidianos. Dormir melhor, respeitar os limites da articulação, controlar o estresse e procurar ajuda ao primeiro sinal de piora ajudam a evitar a evolução do quadro.

Fonte: clique aqui.

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