As tensões entre a Rússia e o Ocidente aumentaram após a Alemanha atribuir a Moscou a responsabilidade por um ataque com drone ocorrido no aeroporto de Leipzig/Halle. O ministro do Interior alemão, Alexander Dobrindt, afirmou que o episódio segue o padrão das chamadas operações híbridas russas na Europa, que combinam ações militares e não militares para pressionar adversários sem iniciar uma guerra aberta.
Após a acusação, Alemanha e Rússia fecharam centros culturais uma da outra. O embaixador dos Estados Unidos na Otan, Matthew Whitaker, classificou o episódio como uma das ações híbridas mais preocupantes registradas na Europa e afirmou que esse tipo de conduta não pode ser tolerado.
Moscou negou envolvimento no ataque e classificou as acusações alemãs como infundadas.
O alerta de Macron
O presidente da França, Emmanuel Macron, afirmou que a ameaça de ataques híbridos russos aumentou e determinou a elaboração de um plano para proteger infraestruturas críticas e instalações da indústria de defesa.
Segundo Macron, a estratégia russa teria como objetivo intimidar os países europeus e dificultar o apoio à Ucrânia. Ele também anunciou medidas para reforçar a proteção contra drones e ataques cibernéticos.
O alerta ocorre após outros episódios envolvendo ferrovias, instalações de defesa e infraestruturas estratégicas em países europeus. Algumas dessas ocorrências foram atribuídas à Rússia pelas autoridades locais, embora Moscou tenha negado responsabilidade.
Moscou busca ‘discórdia e caos no Ocidente’
Estudos recentes apontam para o aumento de ações atribuídas à Rússia desde a invasão em larga escala da Ucrânia, em fevereiro de 2022.
Levantamento do centro de estudos Globsec identificou 151 casos de atividades russas contra países europeus entre fevereiro de 2022 e fevereiro de 2026. A lista inclui suspeitas de sabotagem, incêndios criminosos, vandalismo, tentativas de assassinato, operações cibernéticas e interferência política.
Segundo pesquisadores, países que desempenham papel importante no apoio à Ucrânia, como Polônia, Alemanha, França, Reino Unido e países bálticos, aparecem entre os principais alvos.
A pesquisadora Emily Ferris, do Rusi, avalia que Moscou procura aumentar o custo do apoio europeu à Ucrânia e provocar instabilidade sem ultrapassar o limite que poderia levar a um conflito direto com a Otan.
O pesquisador Maksym Beznosiuk, da Globsec, afirma que o Kremlin também busca testar a capacidade de resposta da Otan, explorar divisões políticas entre os aliados e criar incerteza.
Sabotagem, drones e desinformação
A Polônia, importante corredor logístico para o abastecimento da Ucrânia, reforçou a segurança de sua infraestrutura após episódios atribuídos à sabotagem russa.
Suspeitas envolvendo drones também foram registradas nas proximidades de aeroportos, instalações militares e outras estruturas críticas em países como Alemanha, Bélgica, Dinamarca, França, Noruega, Suécia e Reino Unido.
A chamada guerra híbrida também ocorre no ambiente digital. Governos europeus acusam redes ligadas à Rússia de espalhar desinformação por meio de contas falsas, conteúdos fabricados e materiais produzidos com inteligência artificial.
Na Alemanha e na França, autoridades investigaram operações de influência que teriam como objetivo ampliar a polarização política e reduzir a confiança nas instituições democráticas.
Especialistas afirmam ainda que Moscou passou a utilizar cidadãos de outros países para executar determinadas ações, dificultando a identificação direta de uma ligação com o governo russo.
A ‘frota paralela’ russa
Outro foco de preocupação está na chamada “frota paralela” da Rússia, formada por navios que operam sob bandeiras estrangeiras e empresas de fachada para contornar sanções.
Desde 2024, algumas dessas embarcações foram associadas a suspeitas envolvendo danos a cabos e oleodutos submarinos, além de atividades de vigilância próximas a infraestruturas estratégicas no Mar Báltico e no Mar do Norte.
A Rússia também rejeita essas acusações.
O que poderia ser feito?
Especialistas defendem que a Otan e a União Europeia ampliem a cooperação de inteligência, reforcem a proteção de infraestruturas críticas e adotem medidas mais coordenadas contra operações de sabotagem, ciberataques e desinformação.
Os países europeus já ampliaram a cooperação e as sanções contra pessoas, organizações e embarcações ligadas à Rússia, mas autoridades reconhecem que a resposta terá de acompanhar a evolução das chamadas ameaças híbridas.
‘Há muitas possibilidades de mal-entendidos’
Apesar do aumento das tensões, especialistas avaliam que um confronto direto entre Rússia e Otan não é o cenário mais provável. A preocupação está principalmente em provocações limitadas e ambíguas que possam gerar uma escalada involuntária.
Ferris e Beznosiuk, porém, esperam que as operações híbridas russas continuem aumentando, especialmente por meio de sabotagem, ataques cibernéticos e campanhas de desinformação.
Beznosiuk alerta que incidentes envolvendo civis ou danos a estruturas estratégicas podem provocar uma escalada que nenhuma das partes deseja.
Ferris defende, por isso, a manutenção de canais de comunicação com Moscou, mesmo diante do atual cenário de confronto. Para ela, mecanismos de diálogo podem reduzir o risco de erros de cálculo e de uma escalada acidental entre Rússia e Ocidente.
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