Em entrevista ao Poder360, Monica Kruglianskas afirma que agenda já afeta crédito, mercado e competitividade

Pressões por crédito mais caro, exigências regulatórias e mudanças nas cadeias globais transformaram a sustentabilidade em um fator econômico para empresas. A agenda, antes associada à reputação, hoje está diretamente ligada à competitividade e ao posicionamento de países e companhias.

Esse cenário deve estar no centro dos debates da 3ª edição do Horizons – Inovabilidade em Ação, evento que reúne empresas, investidores, setor público e startups para discutir os rumos da transição sustentável. Em entrevista ao Poder360, a diretora de Sustentabilidade e Parcerias da FIA Business School, Monica Kruglianskas, afirma que o desafio deixou de ser compreender o tema e passou a ser transformar esse entendimento em decisão econômica.

Segundo ela, empresas mais expostas a riscos climáticos ou com cadeias pouco rastreáveis já enfrentam condições de crédito mais restritivas e maior cobrança de investidores.

A especialista também afirma que o acesso a mercados internacionais passou a depender de comprovação de origem, rastreabilidade e conformidade regulatória, o que tem levado empresas a reorganizar cadeias produtivas.

Para setores integrados a cadeias globais, a perda de competitividade já começou. “Quem se posiciona antes captura valor; quem reage depois tende a operar em desvantagem”, declara.

Kruglianskas avalia que o Brasil tem vantagens relevantes, como uma matriz energética relativamente mais limpa e potencial em bioenergia. O risco, segundo ela, está na capacidade de transformar esses ativos em escala, produtividade e inovação.

Leia abaixo a entrevista completa:

Poder360: Quando a agenda de sustentabilidade deixou de ser reputacional e virou questão econômica?

Monica Kruglianskas: Quando passou a afetar custo, risco e acesso a mercado. Isso ficou mais evidente nos últimos anos, quando energia, cadeias produtivas e o uso de recursos passaram a impactar diretamente as decisões de investimento e operação. Hoje, não se trata mais de compromisso ou reputação; trata-se de competitividade. A compreensão dos desafios climáticos, energéticos e sociais passou a ser pré-requisito para a operação e a perenidade do negócio.

Hoje, como custo de capital e acesso a mercados já estão pressionando empresas?

A pressão já é concreta. Empresas com maior exposição a riscos climáticos ou cadeias pouco rastreáveis enfrentam maior cobrança de investidores e condições de crédito mais restritivas. Além disso, custo e segurança energética passaram a ser variáveis centrais para praticamente todos os setores. O acesso a mercados também já depende de comprovação de origem, rastreabilidade e conformidade regulatória, o que tem levado empresas a reorganizar cadeias produtivas.

Quem não fizer a transição agora perde competitividade em quanto tempo?

Em alguns setores, já está perdendo. Para quem exporta ou depende de cadeias globais, o impacto já aparece em contratos, financiamento e acesso a mercado, e tende a se intensificar. Trata-se de uma mudança estrutural. Quem se posiciona antes captura valor; quem reage depois tende a operar em desvantagem.

O Brasil está bem posicionado ou corre risco de ficar para trás?

O Brasil está bem posicionado em termos de ativos, como energia relativamente mais limpa, bioenergia e base produtiva relevante. O risco surge se não conseguirmos converter essa vantagem em escala, produtividade, inovação e capacidade de execução. O país pode ter vantagem e, ainda assim, não capturar valor.

Qual é o principal gargalo hoje: regulação, financiamento ou execução?

O principal desafio não é falta de iniciativa, é coordenação. Vemos empresas avançando, mas ainda de forma pouco integrada. Falta alinhamento entre política pública, financiamento e execução, e entre os próprios atores privados.

O que o Horizons deste ano deve mostrar sobre o futuro da transição?

O Horizons reflete essa mudança de fase. A agenda saiu do campo conceitual e entrou na implementação. O que deve ficar mais evidente é que não se trata mais de iniciativas isoladas, mas da capacidade de integrar tecnologia, financiamento, governança e operação.

Ao longo da sua trajetória, houve algum momento em que você percebeu que a agenda tinha mudado de patamar?

Foi um processo gradual, mas ficou mais claro nos últimos anos, quando esses temas passaram a entrar nas decisões estratégicas das empresas. Houve uma mudança no tipo de conversa: menos foco em compromisso e mais em viabilidade econômica e execução. A agenda passou a influenciar diretamente investimento, risco e operação.

Entre todas essas frentes, qual considera mais decisiva para acelerar a transição?

A capacidade de coordenação, inclusive no setor privado. As empresas avançam, mas ainda de forma pouco articulada, o que limita escala. Além disso, a capacidade de operar em um ambiente de mudança contínua e ainda entregar resultado se torna um diferencial competitivo.

SERVIÇO
Nos dias 6 e 7 de maio de 2026, São Paulo recebe a 3ª edição do Horizons – Inovabilidade em Ação. O evento reúne empresas, investidores, representantes do setor público e startups para discutir temas como energia, finanças, infraestrutura, tecnologia e bioeconomia.

A participação é gratuita. As inscrições podem ser feitas no site do evento Horizons.

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Créditos do autor: Poder360 ·

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