A combinação entre crise internacional e mudança no mercado global de commodities está forçando o setor sucroenergético brasileiro a recalibrar sua estratégia. Com a queda acentuada no preço do açúcar e a disparada do petróleo em meio à tensão envolvendo o Irã, o etanol voltou ao centro das decisões das usinas.
Dados da StoneX indicam que o açúcar opera atualmente em níveis próximos aos mais baixos da última década, pressionado por excesso de oferta global e mudanças no consumo.
Migração para o etanol ganha força
Diante do cenário, produtores já iniciam uma migração no chamado “mix” de produção, reduzindo a participação do açúcar e ampliando a fabricação de etanol.
Segundo o economista Ricardo Nogueira, da StoneX, a safra ainda deve atingir cerca de 40 milhões de toneladas de açúcar, mas já apresenta sinais claros de mudança.
Empresas do setor, como a SCA Brasil, projetam redução na produção açucareira e aumento da fatia destinada ao combustível, numa tentativa de recuperar margens.
Guerra pressiona petróleo e favorece biocombustíveis
O agravamento do conflito no Oriente Médio, especialmente com impactos no Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo mundial, elevou o preço dos combustíveis fósseis.
Esse movimento cria uma janela de oportunidade para o etanol, que passa a se tornar mais competitivo frente à gasolina, especialmente no Brasil, onde o biocombustível tem forte presença na matriz energética.
Excesso global derruba preços do açúcar
O recuo nas cotações do açúcar é resultado de uma combinação de fatores. De um lado, mudanças no comportamento do consumidor, com menor crescimento da demanda, impulsionadas por tendências de saúde e uso de medicamentos como os agonistas de GLP-1.
De outro, uma produção elevada em países como Índia e Tailândia ampliou a oferta global, gerando um excedente estimado em cerca de 870 mil toneladas na safra 2025/2026.
A expectativa é que a migração das usinas brasileiras para o etanol possa reduzir essa sobra e até reverter o cenário para déficit, o que sustentaria uma futura recuperação de preços.
Desafio: competir com o etanol de milho
Apesar da nova oportunidade, o setor enfrenta um obstáculo relevante, o crescimento acelerado do etanol de milho.
Com custo de produção mais baixo e operação durante todo o ano, o modelo tem ampliado sua participação no mercado, pressionando as usinas de cana-de-açúcar.
Entre 2023 e 2024, segundo a StoneX, o etanol chegou a ser comercializado abaixo do custo de produção, reflexo da combinação de safra recorde e aumento da oferta.
Setor reage
Diante desse cenário, o movimento das usinas brasileiras indica uma tentativa clara de adaptação a um mercado mais volátil e competitivo.
A equação passa agora por equilibrar produção, acompanhar o cenário internacional e aproveitar o momento de valorização dos combustíveis.
Com o conflito no Irã ainda em curso e o mercado global em transformação, o etanol volta a ser visto como peça-chave para sustentar a rentabilidade do agronegócio brasileiro nos próximos meses.
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