O candidato do PL à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, ainda não conseguiu estabelecer uma versão única sobre quanto tempo pretende permanecer no Palácio do Planalto caso seja eleito. Em fevereiro, apresentou uma PEC para acabar com a reeleição. Em maio, disse que seu governo poderia durar “quatro, cinco ou oito anos”. Em agosto, colocou o fim da reeleição no plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral. Já na quinta-feira 20, ao lado de Tarcísio de Freitas (Republicanos), acrescentou uma nova definição ao repertório. Disse que gostaria de entrar para a história “nem que seja como presidente de transição”.

A declaração foi dada durante um almoço com empresários na Zona Leste de São Paulo. Ao elogiar Tarcísio, Flávio disse que o governador já havia entrado para a história como ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro (PL) e como governador de São Paulo. Em seguida, afirmou que também pretendia fazê-lo, ainda que como um presidente encarregado de atravessar o período de “mar revolto” vivido pelo País.

Tarcísio havia falado sobre o assunto poucas horas antes. Em sabatina de O Globo, Valor e CBN, afirmou que Flávio deveria cumprir apenas um mandato se eleito e disse acreditar que ele “vai honrar” o compromisso com o fim da reeleição. O governador destacou que o senador é signatário da PEC e argumentou que um presidente sem a preocupação de buscar um novo mandato teria mais liberdade para “tomar decisões impopulares”.

O comentário de Tarcísio ajuda a explicar a importância da promessa. O governador paulista foi um dos nomes considerados para disputar a Presidência em 2026 e tinha apoio de setores do empresariado e do mercado financeiro. Jair Bolsonaro, porém, escolheu o filho para representar o bolsonarismo na eleição. Tarcísio permaneceu no governo de São Paulo e se tornou um dos principais nomes disponíveis para a sucessão da direita em 2030.

Flávio sabe que a promessa de mandato único facilita essa equação. Seu plano de governo defende o fim da reeleição presidencial e sustenta que o presidente deve se preocupar com os resultados do mandato, não com a construção de uma nova candidatura. A PEC apresentada por ele prevê que o presidente fique impedido de disputar o cargo no mandato seguinte.

O problema é que o próprio candidato já relativizou a ideia. Em 9 de maio, em Santa Catarina, disse que seu sonho era concluir o governo “daqui a quatro, daqui a cinco, daqui a oito anos”. No dia seguinte, afirmou que a declaração havia sido distorcida, mas manteve a ressalva de que quatro anos seriam pouco para um único mandato. Disse que continuava contra a reeleição e que trabalharia para aprovar sua PEC no Congresso.

A declaração recente não resolve essa ambiguidade. Ao se chamar de “presidente de transição”, Flávio reforça a imagem de alguém disposto a abrir espaço para outro nome depois de seu eventual governo, mas não estabeleceu o que entende por transição nem disse como a ideia se relaciona com a possibilidade de um mandato de oito anos mencionada meses antes.

No PL, a avaliação é mais pragmática. Interlocutores do partido não tratam a fala como um acordo fechado para entregar a sucessão a Tarcísio. A prioridade é vencer a eleição de 2026. A discussão sobre 2030 fica para depois.

É uma cautela compreensível. Antes de organizar a fila da próxima eleição, Flávio precisa provar que consegue ganhar a atual. E, se chegar ao Planalto, terá de transformar em regra constitucional uma promessa que até agora foi apresentada de formas diferentes pelo próprio candidato.

Por enquanto, Tarcísio recebeu o gesto que lhe interessa. Flávio abriu espaço para falar em transição; o governador reafirmou que espera o cumprimento do mandato único e os dois puderam aparecer juntos sem transformar 2030 em uma disputa antecipada. O futuro da direita, no entanto, continua condicionado ao resultado da eleição que ainda nem terminou.

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Créditos do autor: Vinícius Nunes

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