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Retomar ou iniciar a prática de exercícios físicos durante e após o tratamento do câncer de mama pode trazer benefícios à saúde. No entanto, a atividade exige atenção às condições clínicas, aos sintomas e às limitações de cada paciente. A prática pode fazer parte do cuidado oncológico, desde que a intensidade, a frequência e o tipo de exercício sejam adequados a cada etapa do tratamento.

Um estudo publicado em abril de 2026 na revista científica JAMA Network Open encontrou uma associação entre o aumento individualizado da atividade física aeróbica e a redução da mortalidade entre mulheres diagnosticadas com câncer de mama. Os resultados reforçam a importância de investigar como os exercícios podem contribuir para a saúde dessas pacientes. Contudo, a atividade física, isoladamente, não garante melhores desfechos.

A recomendação não se resume a estabelecer uma meta semanal de exercícios. O planejamento precisa considerar os efeitos da quimioterapia, a recuperação de cirurgias, a fadiga e as mudanças físicas que podem ocorrer durante o tratamento. Nesse processo, o acompanhamento da equipe de saúde ajuda a definir quais atividades são adequadas, quando começar e como avançar com segurança.

Imagem: Magnific

Estudo associa aumento da atividade física à menor mortalidade

Publicado em abril de 2026, o estudo Tailored Exercise Strategies and Mortality Among Breast Cancer Survivors, disponível na JAMA Network Open, analisou dados de 2.107 mulheres com câncer de mama nos estágios I a III. Os pesquisadores investigaram a relação entre o aumento da atividade física aeróbica e o risco de mortalidade.

A pesquisa utilizou dados do estudo Pathways. Esse levantamento recrutou participantes entre janeiro de 2006 e dezembro de 2013, com acompanhamento até dezembro de 2021. Para analisar os resultados, os pesquisadores empregaram uma abordagem chamada emulação de ensaio-alvo. Esse método utiliza dados observacionais para estimar os efeitos de estratégias de intervenção, seguindo etapas semelhantes às de um ensaio clínico.

Entre as estratégias avaliadas, os pesquisadores consideraram aumentos semanais de atividade aeróbica moderada ou vigorosa. Em comparação com a ausência de intervenção, uma estratégia que previa acrescentar 60 minutos semanais de exercício vigoroso ou 120 minutos de atividade moderada apresentou associação com uma redução estimada de 3,1 pontos percentuais no risco de mortalidade por todas as causas em dez anos.

Para a mortalidade específica por câncer de mama, a redução estimada foi de 2,4 pontos percentuais.

O que os resultados significam para as pacientes

Os resultados precisam de uma interpretação cuidadosa. O estudo é observacional e identifica associações, mas não comprova que o aumento da atividade física tenha causado a redução da mortalidade. Os próprios pesquisadores apontam a necessidade de ensaios clínicos randomizados para confirmar os achados.

Ainda assim, a pesquisa contribui para o debate sobre a importância da atividade física no cuidado oncológico. Os resultados incentivam novas investigações sobre como adaptar os exercícios às condições de mulheres que enfrentam ou já enfrentaram o câncer de mama.

A proposta não é estabelecer uma meta única para todas as pacientes. O planejamento deve considerar a capacidade física de cada mulher e permitir uma progressão compatível com suas condições clínicas.

Durante a quimioterapia, o exercício precisa acompanhar os sintomas

A quimioterapia pode provocar efeitos colaterais que afetam a disposição para realizar atividades físicas. Entre eles estão a fadiga e a fraqueza, que podem comprometer a rotina. Por isso, a capacidade de se exercitar pode variar de um dia para o outro.

A paciente pode conseguir realizar uma atividade por mais tempo em determinados dias. Em outros, talvez precise reduzir a intensidade ou descansar. O planejamento deve acompanhar essas mudanças, sem transformar o exercício em mais uma fonte de pressão.

O ginecologista e mastologista Rodrigo Freitas, da Clínica Elsimar Coutinho, em São Paulo, destaca a importância de adaptar as recomendações a cada etapa do tratamento.

“Uma paciente em quimioterapia, uma mulher que acabou de passar por uma cirurgia e outra que terminou o tratamento há alguns anos estão em situações completamente diferentes. O exercício precisa acompanhar essa trajetória, respeitando sintomas, limitações e objetivos de cada fase.”

O especialista também ressalta que, durante a quimioterapia, preservar a funcionalidade pode ser mais importante do que buscar ganhos de desempenho físico.

“Durante a quimioterapia, muitas vezes o objetivo não é ganhar performance, mas preservar funcionalidade. Em um dia em que a paciente está bem, ela pode se movimentar mais; em outro, pode precisar reduzir a intensidade ou descansar. O planejamento precisa ser flexível”

Na prática, a atividade física não deve seguir uma progressão rígida. A paciente precisa receber orientações compatíveis com sua condição clínica. A equipe de saúde também deve explicar quando modificar ou interromper uma atividade.

O Instituto Nacional de Câncer (INCA) reúne recomendações para a prática de exercícios durante e após o tratamento oncológico. A publicação foi elaborada em parceria com entidades da área. O material destaca que, em geral, a atividade física pode ser segura e tolerável para adultos com câncer quando recebe orientação adequada.

A prática também pode contribuir para reduzir a fadiga e melhorar a qualidade de vida. Entretanto, essas recomendações não substituem a avaliação individual. A escolha dos exercícios deve considerar o tratamento em andamento, os efeitos colaterais e as condições clínicas de cada paciente.

Após a cirurgia, a recuperação dos movimentos exige progressão

A cirurgia para tratar o câncer de mama pode afetar a mobilidade e a força, especialmente na região do ombro e do braço. Dependendo do procedimento e da recuperação, algumas mulheres apresentam dor, rigidez ou dificuldade para executar movimentos cotidianos.

Nesse período, a paciente precisa seguir as orientações da equipe responsável pela cirurgia. Quando houver indicação, profissionais de reabilitação também podem acompanhar o processo. A progressão dos exercícios deve respeitar a cicatrização e as limitações individuais.

Isso não significa manter o braço imóvel por tempo indeterminado. Após a liberação clínica, a movimentação orientada pode ajudar a recuperar a amplitude dos movimentos, a força e a confiança para realizar atividades cotidianas.

Rodrigo Freitas destaca a importância de equilibrar a proteção da região operada com a recuperação funcional.

“Proteger a cirurgia não significa manter o braço imóvel. A reabilitação precisa ser progressiva, para que a mulher recupere amplitude de movimento, força e confiança para usar novamente o membro”

Cuidados com o braço e risco de linfedema

O acompanhamento também ajuda a identificar possíveis complicações, como o linfedema. Essa condição provoca acúmulo de líquido e inchaço e pode ocorrer após procedimentos que envolvem os linfonodos. O risco varia conforme o tratamento e as condições de cada mulher.

Por isso, a paciente deve retomar os exercícios conforme as orientações dos profissionais responsáveis pelo cuidado oncológico e pela reabilitação. Exercícios de mobilidade, fortalecimento e atividades aeróbicas podem integrar a recuperação. A indicação e a progressão, porém, dependem da cirurgia realizada, da evolução clínica e da presença de sintomas.

Fortalecimento muscular também pode fazer parte da retomada

Os exercícios de fortalecimento muscular podem integrar o planejamento de atividade física durante ou após o tratamento do câncer de mama. A indicação depende da condição clínica, da fase de recuperação e das orientações da equipe de saúde.

Fortalecer os músculos não significa buscar alto desempenho ou levantar cargas elevadas. O objetivo é desenvolver a capacidade funcional de maneira progressiva, respeitando as limitações e as necessidades da paciente.

Mulheres que passaram por cirurgia ou apresentam dificuldades de mobilidade podem precisar começar com movimentos adaptados. Conforme a evolução, a equipe pode orientar a progressão dos exercícios.

A paciente também deve observar sinais como dor e fadiga, que podem interferir na execução das atividades. O acompanhamento profissional permite ajustar a rotina e reavaliar o planejamento diante de novos sintomas ou mudanças no tratamento.

Assim, a prática de fortalecimento pode fazer parte do cuidado, desde que a equipe adapte os exercícios às condições de cada mulher.

Mudanças hormonais e fadiga também influenciam a atividade física

O tratamento do câncer de mama pode provocar alterações que afetam o bem-estar e a disposição para se exercitar. Entre elas estão a fadiga e, em algumas mulheres, mudanças hormonais ou sintomas associados à menopausa. Determinados tratamentos oncológicos podem desencadear essas alterações.

Essas condições podem interferir no sono, na disposição e na capacidade de manter atividades habituais. Por isso, o planejamento dos exercícios deve considerar não apenas o diagnóstico e o tratamento, mas também as dificuldades enfrentadas no dia a dia.

A paciente pode precisar adaptar a atividade física à própria condição. A intensidade e a duração dos exercícios podem variar conforme a tolerância, os sintomas e as orientações da equipe de saúde.

O INCA reúne recomendações sobre atividade física durante e após o tratamento oncológico. O material aborda os possíveis benefícios dos exercícios para a fadiga e a qualidade de vida, sem desconsiderar a necessidade de adaptar a prática a cada paciente.

Sintomas persistentes ou mudanças significativas na disposição devem ser comunicados à equipe de saúde. Essa avaliação ajuda a identificar a necessidade de ajustes no planejamento e a definir quais atividades são adequadas para aquele momento.

Como definir uma meta de exercícios possível e segura

As recomendações gerais para adultos indicam pelo menos 150 minutos semanais de atividade aeróbica moderada ou 75 minutos de atividade vigorosa. O Guia de Atividade Física para a População Brasileira, do Ministério da Saúde, apresenta orientações sobre a prática regular de atividade física.

Entretanto, essas metas não representam uma exigência imediata para todas as mulheres em tratamento ou em recuperação do câncer de mama. A capacidade para realizar exercícios varia conforme a condição clínica, os efeitos colaterais, a recuperação cirúrgica e o nível de atividade física anterior ao diagnóstico.

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Uma paciente que consegue caminhar apenas alguns minutos pode precisar começar com uma meta menor. Depois, poderá avançar gradualmente, conforme sua tolerância e as orientações profissionais. Já uma mulher que retomou parte da rotina e apresenta condições clínicas favoráveis pode seguir outro planejamento.

Rodrigo Freitas ressalta que a recomendação deve partir da capacidade atual da paciente, e não apenas de um número fixo de minutos por semana.

“Dizer simplesmente ‘faça 150 minutos por semana’ não resolve para uma paciente que hoje consegue caminhar apenas alguns minutos. Primeiro precisamos entender o que ela consegue fazer. Depois, construir uma progressão possível e segura”

A adaptação também pode envolver o tipo de exercício, a distribuição das atividades ao longo da semana, os períodos de descanso e a intensidade dos movimentos. A paciente não precisa insistir em uma rotina incompatível com suas condições.

O planejamento deve acompanhar a evolução do tratamento e da recuperação. Assim, a atividade física pode fazer parte do cuidado de forma viável, sem que uma meta semanal se sobreponha às necessidades clínicas.

A recomendação deve considerar cada etapa do tratamento

A possibilidade de praticar exercícios durante e após o câncer de mama não tem uma resposta única para todas as pacientes. A atividade adequada depende da fase do tratamento, dos sintomas, da recuperação cirúrgica e das condições físicas de cada mulher.

O estudo publicado na JAMA Network Open reforça a importância de investigar estratégias individualizadas de atividade física e sua relação com a mortalidade. No entanto, por utilizar dados observacionais, a pesquisa não comprova uma relação de causa e efeito. Seus resultados também não substituem as orientações clínicas.

A equipe de saúde deve ajudar a definir quando iniciar ou retomar os exercícios, quais modalidades são apropriadas e como ajustar a intensidade. Mudanças nos sintomas e na capacidade funcional também exigem atenção para manter o planejamento adequado à paciente.

Rodrigo Freitas defende uma abordagem que vá além da pergunta sobre a possibilidade de se exercitar. Para ele, é necessário avaliar qual atividade a mulher pode realizar, em que momento e com quais adaptações.

“A pergunta não deveria ser apenas se a mulher que teve câncer pode fazer exercício. Precisamos perguntar qual exercício ela pode fazer, em que momento, com qual intensidade e quais adaptações são necessárias. É essa individualização que transforma a atividade física de uma recomendação genérica em uma ferramenta de cuidado”

A atividade física pode integrar o cuidado durante e após o câncer de mama, desde que respeite as condições de cada mulher. A avaliação individual, a progressão gradual e o acompanhamento profissional ajudam a adequar os exercícios à realidade da paciente, sem transformar metas gerais em exigências incompatíveis com o tratamento.

 

 

 

 

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