A cúpula do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) avalia que o governo Lula cometeu um equívoco ao negar os vistos de dois funcionários do governo dos Estados Unidos que viriam ao Brasil com a justificativa oficial de discutir liberdade de expressão no contexto das eleições.
A avaliação de três ministros do TSE ouvidos pelo blog em caráter reservado é a de que a administração petista adotou uma solução “muito ruim diplomaticamente” e que a medida só contribuiu para tensionar as já conturbadas relações entre a Casa Branca e o Palácio do Planalto a menos de três meses das próximas eleições.
Segundo uma reportagem publicada pelo Washington Post, os funcionários que tiveram os vistos cancelados – Riley M. Barnes e Samuel D. Samson, do Departamento de Estado americano — estavam sendo enviados ao Brasil pelo governo de Donald Trump para questionar a integridade das urnas eletrônicas.
O Itamaraty alega que os vistos foram recusados no último dia 24, antes, portanto, da publicação da reportagem do Washington Post, que ocorreu no dia seguinte. A visita dos dois funcionários estava prevista para ocorrer de 27 a 30 de julho, incluindo encontros com autoridades brasileiras, lideranças religiosas e representantes da sociedade civil.
“O melhor mecanismo é a transparência e o diálogo. São autoridades de um país importante, se quiserem conversar conosco, qual o problema disso?”, comenta um ministro do TSE que não atua na órbita do governo Lula.
“Se o governo dos Estados Unidos têm alguma dúvida, o certo é deixar eles virem, para esclarecermos, até porque podemos responder de forma técnica. A decisão do Itamaraty gera desconfiança e desconforto, ao invés de ajudar.”
No entorno do presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, há dúvidas se os representantes do governo Trump viriam para o Brasil com a missão específica de tentar colocar em xeque o sistema eleitoral brasileiro, ou se a atuação deles seria mais voltada a pedidos de esclarecimentos sobre o funcionamento dos aparelhos.
Fontes do Itamaraty, no entanto, discordam dessa avaliação. Sustentam que o objetivo da missão americana era disseminar desinformação a respeito das eleições brasileiras e provocar instabilidade institucional, seguindo o roteiro adotado por Trump em sua política doméstica.
“A decisão seguiu elementos muito sólidos, de defesa do sistema brasileiro como um todo”, afirmou um integrante do governo Lula ouvido reservadamente pelo blog. “Havia informações seguras sobre o objetivo do Departamento de Estado e por isso se decidiu por esse caminho.
Criado com a ajuda dos militares, o sistema de votação brasileiro é adotado no país desde as eleições municipais de 1996 e até hoje nenhuma acusação de fraude foi comprovada, apesar da insistência da tropa de choque bolsonarista de lançar suspeitas infundadas sobre as urnas.
Reunião com embaixadores
No próximo dia 17, o presidente do TSE fará um novo encontro com embaixadores para explicar o funcionamento das urnas. Nunes Marques já havia feito uma primeira rodada de conversas com representantes diplomáticos no mês passado, quando se reuniu com 25 embaixadores no TSE para tratar do sistema eletrônico de votação. Naquela ocasião, o governo norte-americano não enviou ninguém.
O mesmo gesto já foi feito por Edson Fachin durante as eleições de 2022, quando comandou a Corte Eleitoral. Na época, Fachin buscou construir uma aliança internacional em defesa do sistema brasileiro diante do recrudescimento dos ataques do governo Bolsonaro – e da ameaça do ex-presidente de não reconhecer uma eventual derrota em sua tentativa de reeleição.
Se desta vez aceitarem o convite do TSE, os Estados Unidos podem ser representados na reunião por Kimberly Kelly, que ocupa interinamente o posto de encarregada de negócios da embaixada.
O deputado estadual da Flórida Daniel Perez, indicado por Trump para assumir a embaixada dos Estados Unidos no Brasil, foi aprovado pelo Comitê de Relações Exteriores do Senado no último dia 22, por 13 votos a 8, mas ainda precisa ganhar o aval do plenário da Casa.
“A maneira como os Estados Unidos se relacionarem com o Brasil nos próximos anos terá enorme importância”, disse Perez na sabatina. “Minhas principais prioridades serão a proteção dos cidadãos americanos no Brasil, o avanço de nossos interesses nacionais em comércio e investimento, o combate ao tráfico de drogas e ao crime transnacional, e a construção de parcerias resilientes que beneficiem a economia e o trabalhador americanos”.
Procurado pelo blog, o TSE informou que a área internacional da Corte Eleitoral foi procurada pela Embaixada dos Estados Unidos para “tratar sobre visita de integrantes do governo norte-americano, mas não foi informada a temática da agenda, que não foi marcada em razão do recesso do Judiciário”.
O Itamaraty, por sua vez, não se manifestou sobre as críticas de ministros do TSE citadas nesta reportagem.
Já a embaixada dos Estados Unidos em Brasília não esclareceu se vai enviar representantes para a reunião do TSE no próximo dia 17, nem comentou a decisão do Itamaraty de recusar os vistos dos funcionários do Departamento de Estado.
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