A decisão do governo dos Estados Unidos de classificar o PCC e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras também provocou reações dentro das Forças Armadas brasileiras. Embora a maioria dos militares ouvidos por analistas e especialistas em defesa tenha manifestado preocupação com possíveis impactos sobre a soberania nacional, também houve reconhecimento de que o avanço do crime organizado representa um dos maiores desafios enfrentados pelo Brasil.
Entre oficiais-generais da ativa e da reserva, predomina a avaliação de que a medida anunciada pela gestão do presidente Donald Trump amplia instrumentos de combate financeiro e internacional às facções, mas cria um precedente considerado sensível para a autonomia brasileira na condução de suas políticas de segurança e defesa.
O debate ganhou força após manifestações de integrantes do meio militar apontarem que problemas internos devem ser resolvidos pelo próprio Estado brasileiro. A avaliação predominante é que o combate ao crime organizado exige fortalecimento das instituições nacionais, cooperação internacional e investimentos em inteligência, sem abrir espaço para interferências externas em assuntos internos do país.
Nos bastidores militares, a classificação de PCC e CV como organizações terroristas não encontra consenso. Muitos oficiais entendem que, embora as facções utilizem violência extrema, intimidação e controle territorial em diversas regiões do país, seus objetivos diferem dos grupos tradicionalmente enquadrados como organizações terroristas pela legislação internacional.
Ainda assim, parte dos militares reconhece que a estrutura financeira das facções, baseada em tráfico de drogas, lavagem de dinheiro e atuação transnacional, exige respostas cada vez mais sofisticadas por parte das autoridades brasileiras.
Outro ponto destacado é a possibilidade de ampliação da cooperação internacional no rastreamento de ativos financeiros ligados ao crime organizado. Para alguns oficiais, a nova classificação poderá facilitar investigações sobre movimentações financeiras internacionais, empresas de fachada e redes de apoio utilizadas pelas organizações criminosas.
Por outro lado, há preocupação com eventuais interpretações que permitam ações unilaterais por parte dos Estados Unidos em nome do combate ao terrorismo. Militares lembram que a legislação brasileira possui mecanismos próprios para enfrentar organizações criminosas e que qualquer atuação das Forças Armadas segue estritamente os limites constitucionais e legais estabelecidos pelo país.
Oficiais também destacam que o emprego das Forças Armadas no combate direto às facções continua condicionado às hipóteses previstas na legislação brasileira, especialmente em operações de Garantia da Lei e da Ordem (GLO), não havendo mudança automática em razão da decisão adotada por Washington.
Outro aspecto citado por integrantes da área de defesa é o contexto político envolvendo a medida. Alguns militares enxergam componentes eleitorais tanto no cenário brasileiro quanto no norte-americano, avaliando que o tema pode ser explorado por diferentes grupos políticos nos dois países.
Apesar das divergências sobre a classificação adotada pelos Estados Unidos, existe convergência em um ponto: a necessidade de o Brasil aperfeiçoar suas políticas de enfrentamento ao crime organizado. Para os oficiais consultados, o crescimento das facções, a expansão territorial dessas organizações e sua influência sobre atividades econômicas ilícitas representam desafios que exigem respostas estruturais e permanentes do Estado brasileiro.
A avaliação predominante é que o país precisa fortalecer mecanismos de inteligência, controle de fronteiras, combate à lavagem de dinheiro e cooperação entre forças de segurança, reduzindo espaços ocupados pelo crime organizado e reforçando a presença do Estado em áreas vulneráveis.
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