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Em uma época em que quase tudo acontece depressa, a Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô) faz um convite pouco comum: desacelerar.Caminhar sem pressa pelas ruas de pedra do Centro Histórico de Salvador. Sentar para ouvir uma conversa. Descobrir um livro. Encontrar um autor. Compartilhar histórias.

Em um cotidiano marcado pelo excesso de informações, pela disputa permanente da atenção e por relações cada vez mais mediadas por telas, o festival oferece uma experiência que segue na direção contrária. Durante cinco dias, a literatura ocupa largos, museus, casarões históricos e praças para transformar o espaço público em um território de encontros.

É justamente nessa experiência de escuta, convivência e partilha que a Flipelô estabelece um diálogo com o cuidado.

Entre os dias 5 e 9 de agosto, a décima edição do festival homenageia a poeta Myriam Fraga e celebra os 40 anos da Fundação Casa de Jorge Amado. Embora não tenha uma curadoria dedicada à saúde, a programação reúne atividades sobre acessibilidade, maternidade atípica, cuidados paliativos, infância, memória, arte e inclusão social.

Imagem: Pelourinho/ Divulgação

Mais do que abordar esses temas em diferentes mesas, oficinas e lançamentos, a programação revela uma característica comum a praticamente todo o evento: criar espaços onde as pessoas possam ouvir, compartilhar experiências e reconhecer histórias que, muitas vezes, permanecem invisíveis no cotidiano.

É a partir dessa experiência que a literatura amplia o olhar sobre o cuidado e aproxima diferentes dimensões da vida humana.

O tempo da escuta

Talvez a principal contribuição da Flipelô não esteja apenas nos livros lançados ou nos encontros com escritores. Ela está na possibilidade de interromper, ainda que por algumas horas, a lógica da pressa.

Enquanto a rotina fragmenta a atenção, o festival convida o público a permanecer diante de uma conversa, de uma leitura ou de uma história. Ao ocupar o Centro Histórico com atividades gratuitas, a Flipelô cria oportunidades para que pessoas de diferentes gerações, origens e experiências compartilhem narrativas, construam vínculos e ampliem repertórios.

Sem transformar a literatura em tratamento ou intervenção, a programação evidencia como a cultura pode favorecer experiências de convivência, pertencimento, inclusão e participação social, dimensões que dialogam diretamente com uma compreensão ampliada do cuidado.

Histórias que aproximam experiências

Essa perspectiva aparece em diferentes momentos da programação.

A exibição do documentário “Mães Atípicas – O Filme” abre espaço para reflexões sobre deficiência, maternidade, redes de apoio e os desafios enfrentados por milhares de famílias brasileiras.

Outro destaque é a atividade “A Arte como alternativa terapêutica“, seguida da roda de conversa “O poder da arte no processo curativo“. A proposta amplia o debate sobre o papel das expressões artísticas na experiência humana e convida o público a refletir sobre como a arte pode integrar processos de acolhimento, expressão e cuidado.

Também integra a programação a oficina “Memórias em movimento de uma dança surda”, conduzida por Daisy Souza e Cintia Santos, que utiliza a expressão corporal para aproximar arte, acessibilidade e pertencimento.

Embora diferentes entre si, essas atividades compartilham um mesmo ponto de partida: oferecer espaço para que experiências humanas sejam narradas, reconhecidas e compartilhadas.

Inclusão como prática

Na Flipelô, a inclusão não aparece apenas como tema das mesas de debate. Ela também faz parte da experiência do público. Entre as ações está a Oficina de áudio descrição, que amplia o acesso às manifestações culturais por pessoas com deficiência visual.

A exposição “A inclusão através da arte“, promovida pela Associação de Amigos do Autista da Bahia (AMA-BA), utiliza produções artísticas para ampliar o diálogo sobre inclusão.

O festival também mantém um Espaço de Acessibilidade, destinado ao acolhimento de pessoas com deficiência e pessoas em situação de vulnerabilidade social.

Para o público infantil, o Cantinho da Proteção: brincar, aprender e proteger promove atividades lúdicas, musicais e inclusivas voltadas para crianças com deficiência e suas famílias.

Nesse contexto, a inclusão deixa de ser apenas um discurso para tornar-se parte da organização do próprio festival.

Imagem por IA

Literatura para conversar sobre temas difíceis

Alguns convidados aproximam o público de assuntos que muitas vezes permanecem restritos aos consultórios, hospitais ou ambientes acadêmicos.

A médica paliativista Ana Claudia Quintana Arantes, referência nacional em cuidados paliativos e humanização do cuidado, participa de um bate-papo voltado ao público infantil, mostrando como a literatura pode abrir caminhos para conversar sobre vida, afeto e finitude entre crianças e adultos.

Também integra a programação o lançamento de “Bruna, uma amiga com DOWN mais que especial”, de Celina Bezerra, que aborda inclusão e convivência desde a infância.

Outro destaque é o livro “Ser Humano”, de Katiana Rigaud, que convida o leitor à reflexão sobre identidade, sensibilidade e relações humanas.

A programação infantil ainda reúne atividades como a contação de histórias “Os monstros das Emoções Kitty”, que utiliza a literatura para abordar emoções, diferenças, convivência e respeito à diversidade de maneira acessível às crianças.

Memória também fortalece vínculos

Ao homenagear a poeta Myriam Fraga e celebrar os 40 anos da Fundação Casa de Jorge Amado, a Flipelô reafirma a literatura como um patrimônio vivo, capaz de preservar histórias, identidades e afetos.

Essa dimensão da memória também aparece em diferentes espaços da programação.
No Museu Nacional de Enfermagem, por exemplo, acontecem rodas de conversa sobre mediação de leitura para crianças e adolescentes e sobre a força das histórias orais, aproximando literatura, educação e desenvolvimento humano.

Já encontros como “Santos, devotos & orixás” reforçam a importância das tradições culturais e da ancestralidade como formas de preservar experiências coletivas e fortalecer o sentimento de pertencimento.

Em comum, essas atividades demonstram que contar histórias também significa construir referências compartilhadas sobre quem somos, de onde viemos e como nos reconhecemos enquanto comunidade.

Espaço RODA de Sustentabilidade – Flipelô 2026

Quando a escuta também é cuidado

Ao percorrer a programação da Flipelô, torna-se evidente que a principal conexão entre literatura e cuidado não está concentrada em uma palestra, um livro ou uma oficina específica.

Ela atravessa o festival inteiro.
Está na disposição para ouvir.
Na conversa que acontece depois de uma mesa literária.
Na criança que descobre um novo universo por meio da leitura.
Na pessoa com deficiência que encontra um evento pensado para acolhê-la.
Na mãe que reconhece sua própria trajetória ao assistir a um documentário.
No leitor que percebe, na história do outro, aspectos da própria experiência.
Mais do que apresentar respostas, a literatura amplia perguntas.
Mais do que oferecer soluções imediatas, cria espaços para reflexão, diálogo e convivência. Em tempos marcados pela aceleração permanente, pela sobrecarga de informações e pela dificuldade crescente de estabelecer relações profundas, a Flipelô propõe outro ritmo.

O ritmo da permanência.
Da conversa. Da escuta.

 

Esse talvez seja um dos aspectos mais originais da programação deste ano. Sem transformar cultura em tratamento nem reduzir saúde a uma experiência cultural, o festival mostra que cuidar também envolve criar oportunidades para que pessoas se encontrem, compartilhem histórias, fortaleçam vínculos e ocupem os espaços públicos por meio da arte e da literatura.

É uma compreensão ampliada do cuidado, construída menos por respostas prontas e mais pela capacidade de ouvir, acolher e reconhecer diferentes experiências humanas.

Onde a programação dialoga com o cuidado

Ao longo da Flipelô 2026, diferentes atividades aproximam literatura, arte, inclusão e temas relacionados ao cuidado e ao bem-estar:

Exibição do documentário “Mães Atípicas – O Filme”
• “A Arte como alternativa terapêutica”
• Roda de conversa “O poder da arte no processo curativo”
• Oficina “Memórias em movimento de uma dança surda”
• Oficina de áudio descrição
• Exposição “A inclusão através da arte”
• Espaço de Acessibilidade
• Cantinho da Proteção: brincar, aprender e proteger
• Bate-papo com Ana Claudia Quintana Arantes
• Lançamento de “Bruna, uma amiga com DOWN mais que especial”
• Contação de histórias “Os monstros das Emoções Kitty”
• Rodas de conversa no Museu Nacional de Enfermagem

Serviço

Evento: Festa Literária Internacional do Pelourinho (Flipelô 2026)
Quando: 5 a 9 de agosto
Onde: Centro Histórico de Salvador
Entrada: Gratuita
Programação: disponível nos canais oficiais da Flipelô.

Confira a programação completa aqui.

 

 

  • A produção desta matéria contou com o aporte de ferramentas de Inteligência Artificial, utilizadas como apoio ao processo editorial.

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