Era o final do ano de vestibular, uma época difícil, de muitas indecisões e de provas mil. Estava no fim da medonha década de 1990, período de novo impulso do neoliberalismo no Brasil, marcado por arrochos e privatizações. Meu pai estava passando por um desemprego pesado, o que me tirou do Colégio Salesiano de Santa Rosa, espaço que adorava e que frequentava desde o início da adolescência. Assim, de uma hora para outra, fui parar na escola pública em Niterói, o que, no fim das contas, foi maravilhoso. Nesse processo aprendi na marra a ser uma pessoa, e não um filho da classe média do Rio de Janeiro.

Em meio a essa mudança brusca, saí daquele universo do colégio particular, de roupas de marca, videogames e viagens para Cabo Frio ou para o sul da Bahia, e fui estudar no Liceu de Niterói, um colégio estadual. Também passei a frequentar a Igreja Batista do Fonseca, na Alameda São Boaventura.

O Fonseca é a terra dos meus pais, lugar que os adolescentes “riquinhos” chamavam de Bronx. Sim, “Niterói é um ovo”, mas aquela mudança me levou a outros circuitos. Agora, eu ia às casas dos irmãos da igreja no Bronx e aprendia a tocar instrumentos numa igreja na entrada da boca do “Buraco do Juca”. Meu pai sempre lembra disso, afinal, seu filho tinha voltado a frequentar os locais de onde havia saído por causa do trabalho. Mas, permitam-me, o ponto é outro.

No terceiro ano do Ensino Médio, quando voltava de um reforço escolar, um grupo de amigos da minha antiga turma do Salesianos me chamou para uma despedida, uma noite cultural que aconteceria no teatro do colégio. Um deles, Roberto Jorge, avisou “Py, a ‘Banda Tal’ vai tocar!”. Respondi logo: “Demorou!”, o que, na linguagem niteroiense, significa “já estou dentro!”.

Chegou o dia. Coloquei minha melhor roupa (até calça!), mama tascou o bendito gel no meu cabelo, e Carol brigou comigo por causa da bermuda que eu tinha separado. Afinal, eu não podia fazer feio ao rever meu antigo pessoal. Fui andando para o colégio, ansioso. Quando cheguei, o lugar já estava lotado. Sentei-me numa das pontas, no meio do auditório.

A última atração prevista seria a “Banda Tal”. Enquanto isso, sucediam-se apresentações, cantos, danças e coros. Tudo lindo. Até que o apresentador chamou uma dupla que faria uma esquete. Os dois estavam com roupas improvisadas. Um deles era Paulo, alguém que treinava vôlei comigo.

A cada indicação do parceiro, ele imitava os trejeitos das nossas mães, falando alto e rápido. Reproduzia como elas gritavam na entrada do colégio quando iam nos buscar, como torciam nos jogos. E, assim, frase a frase, eu não sabia o que fazer. Na verdade, ninguém na plateia conseguia parar de rir. Ríamos de boca aberta, de olhos arregalados, sem conseguir desviar o olhar do que acontecia no palco. A barriga já não aguentava a dor das gargalhadas. Logo, eu estava chorando de rir. Li-te-ral-men-te!

Não era apenas eu. A plateia inteira estava entregue à catarse do riso, afinal, ele estava imitando a “tia Déa”, sua linda e carismática mãe. Ela, que no fundo, era também a minha mãe. Era um esboço da minha família. As cenas, o escândalo que fazíamos, os jogos, o bico, as ameaças de bater, o ciúme, o humor, os dramas. Aquela performance sempre foi tudo nosso, nossa gente, nosso amor.

A apresentação foi tão boa que voltaram algumas vezes. A dupla voltou depois que terminou a esquete programada e, por incrível que pareça, a apresentação ficou melhor. Era impressionante. A verdade é que nunca ri tanto quanto naquela noite. Olhava para os lados e via meus amigos pedindo que eles voltassem. Tanto que a “Banda Tal” foi engolida, e a última atração da noite acabou sendo ele, o Paulo Gustavo.

Na última volta, depois de assistir pela terceira vez às suas piadas e brincadeiras, olhei novamente para a plateia, e ela, completamente tomada pelo riso. Foi quando parei de rir e comecei a apreciar o simples dado de estar vivendo aquilo. Não sei se vocês, leitores, já passaram por isso: a certeza de estar diante de algo grande, maior do que nós mesmos.

Vibrei quando ele, mesmo com aquelas roupas improvisadas, levou o prêmio do festival. Mas, era mais do que isso. Ao sair do auditório, passei por Roberto Jorge e Fernando, ambos com os olhos brilhando, e perguntei o que tinha acabado de acontecer. Roberto, meu amigo poeta, sorrindo e balançando a cabeça, disse: “Foi um trem chamado Paulo Gustavo”. Eles me chamaram para ir a um bar e nem me toquei. Estava aéreo, tentando codificar a experiência. Tanto que, até hoje, quando vejo os filmes dele, volto a esta dimensão.

Eu tenho uma tese sobre o que vivi naquela noite. Defendo que não era puramente “humano”. Foi algo de outra dimensão, um universo epifânico tal como foi assistir um show de Tom Zé no Circo Voador, de ouvir Milton Schwantes pregar numa igreja da Baixada Fluminense, de ver Mujica discursar na Uerj, de ouvir Teresa Cristina canta Cartola no Rival ou de ver e ouvir Cássia Eller cantar Nirvana no Rock in Rio (seis vezes melhor que o original).

Aqui, no fundo, creio que estava em outra dimensão. Talvez por isso, há coisas que só foram captadas pelos místicos – os especialistas dos entre mundos. Como já indiquei, alguns deles vão chamar isso de uma “epifania”, uma manifestação do divino na Terra. Gosto de uma definição da teologia medieval – aquela avessa à cultura do dinheiro e “jaula de aço” –, segundo a qual se trata de uma aproximação do universo à Terra, ou, então, de um olhar do céu sobre a humanidade.

Uma monstruosidade diante do finito. Sim, o que aconteceu no teatro foi algo estrondoso, luminoso. Não foi (apenas) uma apresentação de comediante no palco: foi o olhar do infinito sobre a nossa limitação.

A interpretação do Paulo Gustavo foi tão especial porque expandia muito de nós. Aquilo parecia um ritual de nós mesmos, um momento em que o tempo parava. Infelizmente, só consigo escrever sobre mais de cinco anos depois de seu encantamento, próximo à data de seu aniversário (em 30 de outubro). É que só consegui agora me organizar para fazê-lo.

Ao mesmo tempo, não posso mentir. Estamos em um momento delicado, Paulo Gustavo morreu em 4 de maio de 2021, em decorrência da Covid-19, tornando-se uma das vítimas da tragédia da pandemia no Brasil. Essa hecatombe foi agravada pela omissão do governo de Jair Bolsonaro na aquisição de vacinas.

Neste período eleitoral, em que seu filho Flávio se apresenta como candidato, buscando aprofundar as pautas ultraliberais defendidas por seu pai — como o corte e a contenção dos gastos públicos, as privatizações, o endurecimento das regras relativas aos programas de transferência de renda, como o Bolsa Família, e o arrocho fiscal —, além de defender pautas de caráter fascista, como a restrição à atuação de sindicatos e entidades estudantis nas universidades, a deslegitimação das decisões do STF, a defesa do extermínio de integrantes de facções criminosas, da castração química e do trabalho forçado nas prisões, sinto-me compelido a escrever sobre o assunto.

Lembro dessa dor ligada a falta que faz. É triste lembrar que nos tiraram Paulo Gustavo. Eles nos lembrava com maestria como uma mãe pode ser o centro da vida, uma entidade linda, bondosa, contraditória e engraçada. O que nos traz a tristeza pela perda de amigas e amigos do colégio como Carolina, Juliana, Fernando, Roberto, Willian também pela Covid. E, confesso, essa dor está dentro de mim e se tornou uma nervura aberta quando percebo que meu filho João não vai conhecer o “tio” Paulo, que lhe deu uma calça de seu aniversário.

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Créditos do autor: Rodrigo Martins

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