A relação entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato à Presidência da República, e o advogado Willer Tomaz atravessa uma série de negócios escusos, envolvendo apostas, viagens internacionais e investigações sobre suspeitas de lavagem de dinheiro. Nos últimos dias, diversas revelações mostraram novos elementos sobre os vínculos entre os dois.
Tomaz foi apontado pelo Ministério da Fazenda como o maior apostador em plataformas online do País em 2025, com cerca de 5 bilhões de reais em apostas na Blaze. A Polícia Federal também apura transações bilionárias relacionadas ao advogado e suspeitas de que recursos de origem ilícita tenham circulado por empresas e contas ligadas a ele.
Documentos obtidos pela PF indicam que Flávio teve acesso a uma conta bancária vinculada a uma empresa de Tomaz, enquanto reportagens anteriores apontaram que negócios do advogado custearam viagens internacionais do candidato.
Apostas bilionárias e suspeita de lavagem
Uma nota técnica da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda, revelada pelo UOL, aponta que Tomaz movimentou aproximadamente 5 bilhões de reais em apostas na Blaze ao longo de 2025. Os números se referem ao fluxo de apostas, depósitos e saques, e não propriamente a um lucro. O advogado teria depositado mais de 258 milhões e sacado cerca de 200 milhões de reais.
A Fazenda identificou falhas nos mecanismos de prevenção à lavagem de dinheiro da Foggo Entertainment, empresa que opera a Blaze no Brasil, e recomendou medidas contra a plataforma. Parte expressiva do valor sacado por Tomaz foi movimentada dentro do próprio sistema de apostas, em operações que podem incluir ganhos, perdas e reapostas.
Em reportagem publicada em 18 de outubro, o UOL informou que a PF investiga cerca de 1,4 bilhão de reais em transações financeiras envolvendo Tomaz e a Blaze. A apuração considera a hipótese de que apostas e transferências entre contas relacionadas ao advogado tenham sido usadas para ocultar a origem ou o destino de recursos. Investigadores também examinam a possibilidade de Tomaz ter participação não declarada na empresa. Ele nega irregularidades e afirma que os recursos têm origem lícita.
A dimensão das operações levou o caso ao Supremo Tribunal Federal. A investigação examina suspeitas de lavagem de dinheiro e a relação financeira entre Tomaz e Flávio. A campanha do senador afirma que ele não é formalmente investigado, enquanto o candidato nega ter mantido relação comercial com o advogado.
Conta bancária e viagens pagas
A ligação financeira entre os dois ganhou força após a divulgação de mensagens e documentos apreendidos pela PF. No início deste mês, foi revelado que Flávio aparecia como usuário com poderes de administração em uma conta do Santander vinculada à Alcazar Holdings, empresa sediada em Portugal e relacionada a Tomaz.
O acesso permitia consultar movimentações e administrar operações bancárias. Uma funcionária de Tomaz solicitou ao banco a retirada do acesso de Flávio em maio de 2025. Os dois negam que tenham compartilhado uma conta bancária.
A revista piauí já havia descrito conexões entre a Alcazar e a Cathedral Holdings, outra empresa de Tomaz sediada na Ilha da Madeira, território português. A Cathedral aparece como controladora da Rede Loto, dona da marca Best Bet, que recebeu licença da Loterj para operar apostas no Rio. A revista apontou semelhanças nos registros societários e contábeis das holdings e relatou que a PF solicitou a abertura de investigação sobre a suspeita de que Flávio fosse sócio oculto da casa de apostas.
A empresa de apostas ligada a Tomaz também pagou voos de Flávio para a Europa em 2025. O advogado afirmou que custeou passeios de lazer entre amigos; o senador nega participação na empresa.
Daniel Vorcaro
Outro episódio que aproximou o nome de Flávio de negócios investigados foi uma viagem em janeiro de 2025. O senador viajou com a família dos Estados Unidos para Brasília em uma aeronave ligada ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro, investigado no caso Banco Master. Tomaz também estava entre os passageiros.
Flávio afirmou que o deslocamento ocorreu a convite do advogado e que a viagem não teve relação com Vorcaro. Em julho, o senador disse que jamais havia entrado em um avião do ex-dono do Master.
O caso do INSS
Em agosto, Tomaz foi alvo de uma operação da Polícia Federal sobre fraudes em descontos de aposentadorias e pensões do INSS. A Operação Sem Desconto apura um esquema de cobranças associativas indevidas que lesou beneficiários da Previdência. Em uma nova fase da investigação, a PF cumpriu mandados de busca e apreensão contra Tomaz e familiares do senador Weverton Rocha (PDT-MA).
Uma das suspeitas investigadas é que Tomaz tenha atuado na lavagem de dinheiro para Weverton. A PF examina movimentações financeiras do advogado e relações com pessoas próximas ao senador maranhense. Durante as buscas no escritório de Tomaz, os agentes apreenderam dinheiro em espécie e uma máquina de contar cédulas.
O advogado Willer Tomaz, o empresário Carlos Alberto de Sá e os senadores Weverton Rocha e Flávio Bolsonaro. Foto: Reprodiução/O Globo
PF apura tentativa de apagar referências à relação
O UOL também informou que a PF encontrou mensagens e documentos indicando que Tomaz contratou serviços para remover ou desindexar páginas que o associavam a Flávio. O material incluía reportagens sobre a relação entre os dois e disputas envolvendo uma mansão.
Tomaz afirmou que a iniciativa foi judicial e se limitava ao Google, com o objetivo de retirar conteúdos que considerava desatualizados.
A campanha de Flávio sustenta que a relação entre os dois é de amizade e nega irregularidades. Tomaz também nega ilícitos e afirma que suas movimentações financeiras são legítimas.
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Créditos do autor: CartaCapital
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