Ansiedade, estresse, conflitos pessoais e outras situações que afetam o bem-estar emocional podem levar à busca por atendimento especializado. Mas, diante desses sinais, surge uma dúvida comum: é melhor procurar um psicólogo ou um psiquiatra?
A resposta depende da situação. Embora as duas áreas estejam relacionadas à saúde mental, elas têm atuações diferentes. A psicologia trabalha principalmente com a escuta, o acolhimento e a compreensão de emoções, pensamentos e comportamentos. A psiquiatria, por sua vez, é uma especialidade médica voltada ao diagnóstico e tratamento dos transtornos mentais e pode incluir o uso de medicamentos.
A diferença não significa, porém, que uma área exclua a outra. Em determinadas situações, o acompanhamento psicológico e o psiquiátrico podem ser realizados em conjunto.
O que faz um psicólogo?
O acompanhamento psicológico pode ser procurado diante de dificuldades emocionais, conflitos interpessoais, situações de estresse e ansiedade. A psicoterapia também pode ajudar a pessoa a compreender padrões de pensamento e comportamento e a desenvolver maneiras de lidar com situações do cotidiano.
Raquel de Alcântara Santos, professora da Afya Itabuna e psicóloga, explica que a terapia pode contribuir para diferentes aspectos da vida, sem estar necessariamente relacionada à existência de um transtorno mental.
“A psicoterapia atua como um espaço de escuta, acolhimento e compreensão das emoções, pensamentos e comportamentos que fazem parte da vivência humana. No dia a dia, ela auxilia as pessoas a desenvolverem recursos emocionais mais saudáveis para lidar com desafios pessoais, profissionais e relacionais”, explica.
De acordo com a psicóloga, situações de ansiedade, estresse e conflitos interpessoais também podem ser trabalhadas durante o acompanhamento. Nesse processo, o paciente pode compreender melhor os próprios sentimentos, identificar gatilhos emocionais e buscar formas de enfrentamento.
“Em situações de ansiedade, estresse ou conflitos interpessoais, o acompanhamento psicológico contribui para que o indivíduo compreenda melhor seus sentimentos, identifique gatilhos emocionais e encontre formas mais equilibradas de enfrentamento. Além disso, a terapia favorece o fortalecimento da autoestima, da autonomia emocional e da capacidade de tomada de decisões”, afirma Raquel.
Outro ponto destacado pela profissional é que não é necessário esperar o sofrimento chegar a um nível extremo para procurar ajuda. O acompanhamento também pode ter caráter preventivo.
“Buscar acompanhamento psicológico de forma preventiva pode trazer inúmeros benefícios, como desenvolvimento pessoal, autoconhecimento e promoção de saúde emocional”, afirma.
Segundo ela, esse acompanhamento pode contribuir para a construção de habilidades emocionais, melhorar a comunicação e fortalecer a capacidade de lidar com situações estressantes do cotidiano.
E quando procurar um psiquiatra?
A principal diferença é que o psiquiatra é médico e atua no diagnóstico e tratamento dos transtornos mentais. Além do acompanhamento clínico, esse profissional pode prescrever medicamentos quando houver indicação.
A atuação também pode envolver situações como crises de ansiedade e surtos, além de questões relacionadas ao sono, uso de substâncias e reinserção social e ocupacional. Alguns psiquiatras também têm capacitação para realizar psicoterapia.
Vitor Almeida, psiquiatra e professor da Afya Salvador, explica que a necessidade de acompanhamento psiquiátrico varia de acordo com o transtorno e com a gravidade do quadro.
“Existem doenças mentais que impreterivelmente necessitam tanto do uso contínuo de medicações específicas quanto do acompanhamento psiquiátrico regular, que é a especialidade médica indicada para lidar com doenças mentais, como é o caso do transtorno afetivo bipolar e da esquizofrenia”, afirma.
O professor cita ainda o transtorno depressivo maior e o transtorno de ansiedade generalizada. Nesses casos, segundo ele, a necessidade de medicamentos e acompanhamento psiquiátrico depende da gravidade.
“Existem outros transtornos mentais que somente necessitarão de medicações e do acompanhamento psiquiátrico a depender da gravidade, como é o caso do transtorno depressivo maior e do transtorno de ansiedade generalizada, em que a literatura geralmente recomenda acompanhamento psiquiátrico e tratamento medicamentoso a partir dos quadros moderados a graves”, explica.
Para os casos leves desses dois transtornos, Vitor afirma que, na maioria das situações, somente o acompanhamento psicológico é necessário.
Por que não esperar o sofrimento piorar?
A procura por atendimento também está relacionada ao momento em que a pessoa decide buscar ajuda. Segundo Vitor Almeida, adiar o acompanhamento diante de um sofrimento mental pode prolongar o tratamento e, em situações mais graves, aumentar os riscos para o paciente.
“Os riscos de se adiar a busca por apoio diante de um sofrimento mental podem variar desde o aumento do tempo de tratamento e maior dose das medicações para tratar o quadro, até eventos mais graves, como o próprio atentado contra a vida, por isso a recomendação de iniciar um acompanhamento com brevidade”, afirma.
A avaliação profissional é importante justamente porque sintomas semelhantes podem estar relacionados a situações diferentes. Por isso, a definição do tratamento não deve ser feita apenas a partir da percepção do paciente sobre a própria condição.
Psicólogo e psiquiatra podem trabalhar juntos
A atuação dos dois profissionais pode se complementar. Enquanto a psicoterapia concentra-se em aspectos relacionados a emoções, pensamentos, comportamentos e formas de enfrentamento, a psiquiatria realiza a avaliação médica dos transtornos mentais e pode indicar medicamentos quando necessário.
Em alguns casos, portanto, o paciente pode precisar dos dois acompanhamentos. Em outros, o acompanhamento psicológico pode ser suficiente. Já determinadas condições exigem acompanhamento psiquiátrico regular.
A busca por terapia também não significa, necessariamente, que uma pessoa tenha um transtorno mental. Como explica Raquel, o acompanhamento psicológico pode ser utilizado antes mesmo do agravamento de um sofrimento, com objetivos relacionados ao autoconhecimento, desenvolvimento pessoal e prevenção do adoecimento psíquico.
Por outro lado, diante de um transtorno mental que demande avaliação médica, o acompanhamento psiquiátrico pode fazer parte do tratamento. A necessidade de medicamentos e a frequência das consultas dependem da avaliação profissional e das características de cada quadro.
Assim, a pergunta não precisa ser apenas “psicólogo ou psiquiatra?”. Em determinadas situações, a resposta pode ser um profissional, o outro ou os dois. O mais importante é que a busca por atendimento não seja adiada quando o sofrimento começa a interferir na vida cotidiana ou apresenta sinais de agravamento.
Confira a entrevista do PodComSaúde com a psicóloga e psicanalista Sheyna Vasconcellos.
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