Um levantamento baseado em dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e nas estimativas populacionais mais recentes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revela que o Brasil possui 732 municípios com mais eleitores aptos a votar nas eleições de 2026 do que moradores. O número representa 13,1% das cidades brasileiras, o equivalente a um em cada oito municípios.
Embora o cenário possa parecer incomum, especialistas afirmam que a situação não indica, necessariamente, irregularidades no cadastro eleitoral. A legislação brasileira permite que o eleitor mantenha seu domicílio eleitoral em um município com o qual possua vínculo afetivo, familiar, profissional ou comunitário, mesmo residindo em outra cidade.
Segundo o TSE, o país contabiliza 158,7 milhões de eleitores aptos para o pleito de 2026, enquanto a população estimada pelo IBGE para 2025 é de aproximadamente 213,4 milhões de habitantes.
Pequenos municípios concentram maior parte dos casos
A maior parte das cidades onde o eleitorado supera a população é de pequeno porte. Apenas 33 municípios da lista possuem mais de 10 mil habitantes.
Em números absolutos, São João da Barra, no Rio de Janeiro, lidera o ranking, com 4.456 eleitores a mais do que moradores. Já proporcionalmente, Davinópolis, em Goiás, apresenta a maior diferença, com um eleitorado equivalente a cerca de 220% da população estimada.
Para o demógrafo Járvis Campos, pesquisador da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), o fenômeno está relacionado principalmente à migração de jovens para centros urbanos, à existência de municípios turísticos e de cidades com elevado número de imóveis de veraneio.
Segundo ele, muitos eleitores optam por manter o título eleitoral em cidades onde possuem vínculos familiares ou patrimônio, mesmo residindo em outro local.
Minas Gerais lidera em número de municípios
Em números absolutos, Minas Gerais aparece na liderança nacional, com 186 municípios nessa situação. Em seguida estão Goiás, com 87 cidades, Piauí, com 76, Rio Grande do Sul, com 74, e Paraíba, com 64.
A Bahia ocupa a oitava posição do levantamento, com 23 municípios registrando mais eleitores do que habitantes.
Quando o critério é proporcional, Goiás lidera o ranking, com 35,4% dos municípios nessa condição, seguido por Piauí, Rio Grande do Norte, Paraíba e Minas Gerais.
TSE explica diferença entre domicílio eleitoral e residência
O TSE destaca que a Resolução nº 23.659/2021 estabelece que o eleitor pode escolher como domicílio eleitoral qualquer município com o qual mantenha vínculo pessoal, familiar, profissional ou comunitário.
O pesquisador do IBGE Gustavo Junger Silva explica que o conceito de domicílio eleitoral é diferente do domicílio civil. Além disso, a legislação não obriga o cidadão a transferir o título eleitoral sempre que muda de cidade, fator que contribui diretamente para as diferenças observadas.
Especialistas também apontam que projeções populacionais podem apresentar variações em relação aos movimentos migratórios reais, o que pode ampliar as discrepâncias entre o número de habitantes estimados e o eleitorado registrado.
Número permanece dentro da tendência recente
O levantamento mostra que o fenômeno permanece relativamente estável nas últimas eleições. Em 2022, eram 572 municípios nessa situação, número influenciado pelo atraso na realização do Censo Demográfico. Já em 2024, após a divulgação dos dados do Censo 2022, o total subiu para 850 cidades.
Agora, para as eleições de 2026, o total caiu para 732 municípios, mantendo um patamar considerado compatível com as características demográficas, migratórias e eleitorais do país, segundo especialistas e órgãos responsáveis pelo cadastro eleitoral.
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