Depois de quase 700 mil mortos na pandemia e de um presidente que atacou a democracia por quatro anos, Lula foi eleito em 2022 por uma coalizão que ia do MST a Pedro Malan e Armínio Fraga, formuladores do Plano Real, e aos donos do Itaú, Roberto Setúbal e Pedro Moreira Salles. Foi uma frente amplíssima que comportava dentro de si interesses bastante antagônicos.
No início, Lula governou como a frente pedia. Antes mesmo de assumir, aprovou a PEC da Transição, que financiou a volta das políticas sociais que em 2025 tirariam o Brasil do Mapa da Fome. Mas, logo no início de 2023, veio a contrapartida do arcabouço fiscal. E isso não trouxe frutos políticos. Nas eleições municipais de outubro de 2024, o PT elegeu prefeito em uma só capital.
Em novembro de 2024, o governo anunciou outra medida que seria típica da coalizão: um pacote de corte de gastos. Ao mesmo tempo, anunciou a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais. O “mercado” reagiu mal e o dólar passou de 6 reais pela primeira vez.
Em janeiro de 2025, um vídeo do deputado Nikolas Ferreira sobre a fiscalização do Pix colocou o governo nas cordas e levou à revogação da norma. Ou seja, a direita pautava o governo. Mais: Nikolas invocava diretamente a categoria “trabalhadores”, então exclusiva da esquerda.
No mês seguinte, a aprovação de Lula chegou ao menor nível dos seus três mandatos.
Lula só verbalizou o diagnóstico em setembro de 2025, na ONU: por vezes, ganha-se as eleições com discursos de esquerda e, uma vez no governo, é preciso governar para o “mercado”, e é assim que a extrema direita cresce, observou o presidente. De fato, o centro para o qual a frente ampla governava acabou com a crise de 2008: sobraram extrema direita, de um lado, e esquerda, do outro.
A mudança de postura de Lula no atual governo começou, porém, um pouco antes do anúncio da isenção do IR. Em junho de 2025, depois da derrota acachapante do decreto do governo que aumentava o IOF – contra um acordo anunciado de que o tema só seria pautado oportunamente –, o presidente percebeu que não podia contar com as elites políticas e iniciou a campanha contra os BBBs (bilionários, bancos e bets), pela taxação dos super-ricos.
Em agosto, o fim da coalizão ampla foi formalizado: o slogan do governo mudou de “União e Reconstrução” para “Do lado do povo brasileiro”.
Em novembro, com o empurrão político que o tarifaço de Donald Trump deu a Lula, o Congresso aprovou por unanimidade a taxação de quem ganha mais de 50 mil reais por mês e a isenção de quem ganha até 5 mil.
No 1º de Maio de 2026, Lula fez possivelmente o discurso mais classista de seus mandatos. Em setembro, já na campanha, acabou com as bets. Em 14 de outubro, o Senado aprovou, por 75 votos a 1, o fim da escala 6×1.
Cutucando onças
Em 2011, o cientista político André Singer explicava por que o governo Dilma não faria duas coisas: taxar grandes fortunas e reduzir a jornada para 40 horas. As forças ligadas ao capital, dentro da coalizão, não aceitariam. Ela, que cutucou onças com bases curtas, tentou mobilizar o povo com a linguagem de classe média, e não de classe trabalhadora. Acabou sofrendo o impeachment.
Quinze anos depois, Lula fez versões das duas medidas no Congresso mais à direita da Nova República. Mobilizou as bases – com seu carisma extraordinário – e fez de cada votação um confronto aberto entre os interesses do capital e os do povo.
No último 15 de outubro, na entrevista ao vivo à Rede Globo, perguntado sobre a dívida pública, repetiu o que dissera no mesmo espaço no primeiro turno: não vai cortar dinheiro dos pobres para fazer ajuste. Ou seja, em rede nacional, bancou que austeridade é instrumento de poder, fazer o emprego depender da confiança dos empresários, manter a classe trabalhadora sob controle.
O custo
Armínio Fraga, que assinou carta e declarou voto em Lula em 2022, disse em maio de 2025 que o País está na UTI. A Fiesp que puxou o manifesto pela democracia em 2022 era a de Josué Gomes; Paulo Skaf, que voltou à presidência neste ano, abriu a casa a Flávio Bolsonaro em 24 de agosto e falou em “candidato da nossa simpatia, sem dúvida nenhuma”.
Três dias depois, Flávio foi recebido pelos diretores de um grande banco que em 2022 assinara, pela Febraban, a “Carta pela Democracia”. Na segunda-feira depois do primeiro turno, com Flávio na frente, o real subiu mais de 5%, o Ibovespa passou de 208 mil pontos e os cinco maiores bancos ganharam 100 bilhões de reais de valor de mercado na primeira hora de pregão.
A imprensa corporativa, porta-voz do capital financeiro, reclamou durante a campanha inteira que Lula não escolheu o “centro” (leia-se, o “mercado”), martelando a tecla da confiança.
Em 2022, a Globo aceitara Lula como garantia contra o golpe, que veio a ser tentado por um líder alinhado às redes digitais, inimigas da imprensa profissional. Em 2026, a cobertura voltou ao padrão anterior.
No domingo 11, quando o ato de esquerda ocupou sete quarteirões da Avenida Paulista, a cobertura destacou um acesso do metrô degradado, em caso literal de enquadramento seletivo. As entrevistas do segundo turno, à Rede Globo, tiveram tratamentos diferentes: com Flávio, em 16 de outubro, foi suave – horas depois de ele almoçar com João Roberto Marinho e Paulo Tonet, da cúpula da Globo.
O afastamento do capital não se explica pela política econômica. Lula cumpriu a meta fiscal de 2025, o Plano Safra deste ano chegou a 610 bilhões de reais, o consignado para trabalhadores de carteira assinada, criado em 2025, rendeu aos bancos 117 bilhões em contratos no primeiro ano. Os três maiores bancos privados lucraram 16% a mais em 2025. O que mudou foi a posição do capital dentro do governo.
Deslocamentos
Washington, que em 2021 mandou o diretor da CIA a Brasília dizer a Jair Bolsonaro que parasse de atacar as urnas, está agora do outro lado: o tarifaço veio atrelado ao julgamento de Bolsonaro. Os EUA declararam seu suposto direito de controle sobre o seu “quintal”. A Meta, alinhada a Trump desde janeiro de 2025, atua de maneira descaradamente parcial: derrubou anúncios de Lula e recusou-se a gerar imagens dele.
O sistema partidário é outro deslocamento importante entre. Em 2002 e 2006, Lula se elegeu com José Alencar, empresário, de vice. Em 2022, com Alckmin e a frente ampla atrás dele – Simone Tebet, terceira colocada, e Fernando Henrique Cardoso declararam voto em Lula no segundo turno. Em 2026, Alckmin continua na chapa, mas sozinho: nenhum conservador está com ele. Nenhum candidato derrotado com mais de 1% dos votos apoiou Lula: o PSD liberou, o MDB foi majoritariamente para Flávio, e União, PP, Republicanos e Podemos o apoiaram.
O TSE, que em 2022 atuou para conter o golpe, em 2026 está nas mãos de um indicado pelo golpista preso – preso ao menos enquanto Lula for presidente.
Mantiveram-se apoios relevantes de personalidades como Miguel Reale Júnior, autor do pedido de impeachment de Dilma, e Raquel Sherazade, notória apoiadora daquele processo. Mas são pessoas, não estruturas.
Lula está sozinho. Só com o povo, porque assim decidiu.
O preço
Quem disputa com uma coalizão estreita precisa do apoio popular, e o eleitorado quer a redução da maioridade penal – 79% no Datafolha de julho, 81% entre os que votaram em Lula em 2022. A campanha de Flávio levou o tema à PEC da Segurança em 14 de outubro (14 anos para crimes hediondos e 16 anos, para qualquer outro), horas depois da aprovação do fim da escala 6×1.
Lula, sabendo da imensa sensibilidade eleitoral do tema, aceitou expressamente a bandeira na versão da emenda de Camilo Santana, líder do PT no Senado: 16 anos, só para crimes hediondos e sem alcançar o tráfico de drogas. O tráfico responde, com o roubo, por 57% das internações de adolescentes. A emenda do governo, portanto, pretende reduzir danos. O encarceramento de adolescentes será maior na versão do PL.
O PT não é o Partido Democrata
Foi como “esquerda brâmane” – rótulo do economista francês Thomas Piketty para os partidos progressistas que viraram partidos das elites escolarizadas – que os democratas perderam em 2024 os eleitores que Kamala Harris supunha seus: aceitaram disputar como gestores do sistema e perderam para quem vendia rebeldia.
Lula fez diferente: decidiu disputar a eleição sobre as bases materiais de produção e reprodução da vida e, ao contrário de Dilma, primeiro mobilizou o povo e depois cutucou. Em 2026, a coalizão do lulismo disputa sozinha como nunca. O agro já não estava com ele. Agora, também não estão a Fiesp, a Globo, o MDB e o PSD, os EUA e os bancos.
Talvez o Brasil seja hoje o único caso no mundo de um presidente que disputa quase sem alianças, com o povo mobilizado como classe trabalhadora, contra uma extrema direita que tem o Império do seu lado – e praticamente sozinho num hemisfério em que quase todos os outros países já tombaram. É uma batalha épica.
O dia 25 de outubro vai dizer se o povo basta e também se a aposta de que a esquerda só vence a extrema direita sendo esquerda se confirma nas urnas. O que já se sabe é que a eleição não foi sobre qualquer democracia contra autoritarismo. Foi sobre democracia para o Povo, com P maiúsculo. E foi Lula quem a pôs nesses termos.
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Créditos do autor: Rodrigo Martins
Créditos da imagem: Reprodução/Divulgação

































