Em meio a um plano econômico confuso do candidato do PL, uma pesquisa do Instituto de Finanças Funcionais para o Desenvolvimento (IFFD) estima 2,36 trilhões de reais a menos para saúde, educação e políticas sociais entre 2027 e 2036, em comparação com as regras atuais. Flávio Bolsonaro e sua coordenadora econômica, Daniella Marques, ex-presidente da Caixa, prometem cortar gastos, reduzir impostos, melhorar o SUS, comprar dívidas dos brasileiros, entre outras medidas que levantam questionamentos sobre a execução e o financiamento delas. O que me leva a perguntar: qual regra vai valer depois que o Brasil apertar “confirma” na urna?

O candidato prometeu comprar dívidas bancárias e dar seis meses de carência às pessoas físicas e um ano às empresas. Também anunciou um SUS “padrão Einstein”, um “LinkedIn” governamental e propôs ampliar creches pagando voucher onde faltar vaga pública. Como conciliar planos que custam bilhões com o ajuste fiscal da ordem de 1,5% do PIB e, ao mesmo tempo, manter programas sociais e investimento de base?

No estudo do IFFD, David Deccache e Fabiano Dalto estimam que as medidas propostas produziriam contenção de 0,97% do PIB apenas em 2030. A meta anunciada de 2% só seria ultrapassada em 2035. Portanto, naquele cenário, nem os cortes estudados entregariam o ajuste prometido durante um mandato – que o candidato diz não querer continuar.

O estudo examina a proposta atribuída à equipe de corrigir apenas pela inflação os pisos federais de saúde e educação, a complementação ao Fundeb e benefícios hoje vinculados ao mínimo. No cenário central do IFFD, as áreas analisadas receberiam 2,36 trilhões de reais a menos entre 2027 e 2036, comparados às regras vigentes, a preços de 2026.

Seriam sacrificados 823 bilhões de reais da saúde e cerca de 493 bilhões da educação, incluindo o Fundeb. Ao comparar com o padrão “Paulo Guedes” no governo Bolsonaro, podemos entender que a base da economia é a primeira na planilha dos cortes.

O orçamento federal paga compras, serviços e benefícios que sustentam outras rendas. O dinheiro da aposentadoria vira compra na farmácia e no mercadinho. O fornecedor que recebe do governo paga funcionários e consome turismo. A despesa que some da planilha pública simplesmente desaparece do faturamento das empresas, principalmente das micro e pequenas empresas, como no caso do Programa Bolsa Família.

Um estudo divulgado pelo Federal Reserve de São Francisco, revisado em julho de 2026, estimou que transferências extras do Bolsa Família equivalentes a 1% do PIB estadual produziram crescimento de aproximadamente 2 a 3 pontos percentuais a mais, em relação aos outros estados. Os efeitos se concentraram em atividades voltadas ao mercado local. O multiplicador regional não é uma previsão para todo o País, mas mostra o efeito de uma política pública eficiente de distribuição de renda.

Outro estudo, divulgado pelo National Bureau of Economic Research (NBER) em março de 2026, examinou uma expansão do Bolsa Família e encontrou aumento de aproximadamente 5% no emprego e redução de 8% nas hospitalizações entre os beneficiários. Aliviar restrições de alimentação e saúde pode melhorar a capacidade produtiva do País. Na experiência estudada, a transferência ajudou a ampliar a autonomia financeira das pessoas – sobretudo das mulheres, público-alvo do programa.

Os resultados ajudam a enxergar o problema brasileiro de longa data. Para Celso Furtado, o subdesenvolvimento é uma estrutura histórica que pode se reproduzir. Superá-la exige ampliar capacidades e transformar a produção. Escola, creche, saúde, renda básica, ciência, indústria e infraestrutura participam desse processo. Uma mãe sem creche, um estudante sem universidade de qualidade e um trabalhador sem remédio gratuito da Farmácia Popular enfrentam obstáculos concretos para melhorar a produtividade do País.

É por isso que considero perigoso vender corte de gasto como solução para problemas econômicos complexos. Quando a renda dos clientes cresce menos, a demanda por bens e serviços cai e empresas faturam menos. O cenário vai desde adiamento de investimentos, descontrole financeiro e endividamento até demissão em massa. Não tem como o pequeno empresário comemorar a tesoura que corta a renda do seu cliente – até tem, mas isso é papo para outra hora.

Corrigir benefícios apenas pela inflação preserva, em princípio, o poder de compra, mas retira a valorização real prevista pela regra atual. Segundo o IFFD, a diferença para quem recebe aposentadoria no piso ou BPC chegaria a 479 reais por mês em 2036, a preços de 2026.

O choque na vida das famílias pode ser de queda no consumo, uma vez que o índice de reajuste não contempla a diversidade da cesta de bens e serviços do brasileiro. Se o salário recebe reajuste de 4,5%, por exemplo, mas o aluguel, que consome parte significativa da renda, sobe 8%, há uma perda considerável no poder de compra das famílias.

Caminhando rapidamente em outro cenário, o corte de gasto irresponsável também ameaça a capacidade do serviço público e pode alimentar o discurso da privatização. Se o serviço público piora, quem consegue pagar busca uma alternativa privada e quem não consegue enfrenta a fila. O histórico de privatização no Brasil acende alerta para aumento de preços e queda no atendimento da população. Dessa forma, a finalidade de uma estatal (servir a sociedade) é vendida para a lógica do lucro.

As próprias promessas de Flávio, embebedadas de incoerência, exigem essa presença do Estado que seu discurso trata como excesso. Comprar dívidas demanda recursos, riscos, juros e a tão temida emissão monetária. Saúde e creches exigem contratações, equipamentos e financiamento contínuo.

Tecnologia pode aumentar a eficiência, como defende sua coordenadora ao citar substituição de servidores públicos por IA, mas o candidato precisa demonstrar quanto economizaria e como ampliaria o serviço com o financiamento proposto. Prometer o que não pode cumprir é um artefato da política brasileira que só quem viveu promessas do tipo “vou asfaltar a cidade inteira” conhece.

Responsabilidade fiscal não é apenas sobre corte de gastos: envolve também responsabilidade social, ambiental e econômica. O gasto público também constrói o mercado em que o empresário vende e as condições em que o trabalhador produz. Sem reconhecer isso, o tesouraço de Flávio Bolsonaro e demais medidas prometidas podem cortar as maiores possibilidades de crescimento e desenvolvimento econômico do século.

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Créditos do autor: Rodrigo Martins

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