Investigadores da Polícia Federal (PF) detectaram nas tratativas para ocultar das autoridades os rastros da compra de um apartamento de luxo de R$ 2,45 milhões em Salvador para o senador Jaques Wagner (PT-BA) a repetição da mesma estratégia de esconder imóveis de alto padrão adotada por um operador de Daniel Vorcaro que repassou coberturas e unidades de luxo ao ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa como propina no esquema de fraudes do Banco Master.

A menção ao modus operandi do advogado Daniel Monteiro, tido como operador financeiro do ex-banqueiro, consta em um relatório da PF tornado público pelo relator do caso Master no Supremo Tribunal Federal (STF), ministro André Mendonça, na última quinta-feira (30).

O apartamento de 245 metros quadrados no edifício Poème Horto foi adquirido por Augusto Lima, à época sócio do banco, através de uma cadeia de fundos de investimentos ligados ao banco, à gestora Reag, parceira de negócios de Vorcaro controlada na época por João Carlos Mansur, a Daniel e seu irmão, David Monteiro, e a outro investigado chamado Valério Marega Júnior, gestor da WNT, que administrava fundos do Master.

Além do pagamento pelo imóvel ter sido realizado pela Reag, os investigadores descobriram que o contrato de cessão dos direitos do imóvel foi entregue a Guilherme Sodré, que é pai do enteado do Wagner, o secretário de Meio Ambiente da Bahia, Eduardo Sodré, e muito próximo do senador do PT.

Segundo a Polícia Federal, a dinâmica “encontra correspondência direta com o modus operandi identificado em fases anteriores da Operação Compliance Zero, quando foi comprovado o emprego sistemático de interpostas pessoas por Daniel Monteiro para ocultar a entrega de imóveis como vantagens indevidas a agentes públicos cooptados, a exemplo do ex-presidente do BRB, Paulo Henrique Costa”.

“Reforça essa hipótese o fato de que os valores destinados ao apartamento nº 1.702 do Poème Horto terem sido disponibilizados por estruturas societárias ligadas à Reag, cujos fundos de investimento foram identificados no curso das investigações como veículos de lavagem de ativos em benefício do grupo Master, sobretudo por Augusto Ferreira Lima”, segue o relatório da PF.

Como mostramos no blog em abril, Monteiro e Vorcaro mobilizaram fundos geridos pela Reag para ocultar os repasses de seis apartamentos de luxo para o dirigente do BRB.

A PF identificou quatro apartamentos em São Paulo e outros dois em Brasília repassados ao então presidente do banco estatal pelo CEO do Master. Um deles fica no edifício Heritage, no Itaim Bibi, na capital paulista, cujas unidades podem chegar a mil metros quadrados e custam até R$ 42 milhões. PH Costa, como é conhecido no mercado, chegou a constar como morador do prédio.

Além do Heritage, o então dirigente do BRB teria escolhido, junto com a mulher, unidades nos condomínios Arbórea, One Sixty e Casa Lafer, em São Paulo, além do Ennius Muniz e do Valle dos Ipês, em Brasília.

A operação de Daniel Monteiro, porém, foi interrompida a mando do então dono do Master após o Ministério Público Federal instaurar um inquérito para apurar as suspeitas de fraudes na compra de carteiras de crédito podres do Master pelo BRB. Assim como Vorcaro, Costa está preso no 19º Batalhão da Polícia Militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha.

No caso do apartamento direcionado a Jaques Wagner, a Polícia Federal destaca no relatório tornado público por Mendonça que Monteiro e Valério Marega Júnior, o gestor da WNT, “são comprovadamente operadores financeiros dos gestores do Master, especializados na criação de estruturas financeiras, usualmente via fundos de investimentos, para ocultar transações ilícitas”.

A PF destaca, ainda, que o envio do contrato de cessão dos direitos do imóvel a uma pessoa próxima de Wagner – no caso, Guilherme Sodré – se deu já em fevereiro deste ano, após a primeira prisão de Vorcaro e Lima na deflagração da Operação Compliance Zero, em novembro de 2025 e antes do ex-CEO do Master ser levado para a cadeia pela segunda vez.

Para a corporação, a cronologia representa “novas manobras contratuais executadas com o propósito de evitar a descoberta do negócio ilícito pelos investigadores”.

“Observa-se aparente intenção de dissociar a real titularidade do imóvel, circunstância evidenciada pela forma como as tratativas foram conduzidas e pela atuação de terceiros na interlocução e formalização dos documentos relacionados ao bem”, frisa a PF.

Após ser alvo da Compliance Zero, o senador Jaques Wagner admitiu em uma entrevista à Folha de S. Paulo que Augusto Lima comprou o apartamento no Poème Horto. Na versão de Wagner, seu plano era dar o imóvel de presente para sua filha. Alegou ainda que pagaria o ex-sócio de Vorcaro posteriormente, sem detalhar como honraria a dívida milionária.

“A pergunta que cabe é a seguinte: por que você pediria para reservar um apartamento num prédio em construção se fosse para corrupção? Por que eu não ia pegar um apartamento novo pronto? Eu digo: ‘não tenho condições de comprar, ela vai ter que vender o apartamento dela para eu ajudar no resto e financiar uma parte. Eu só quero que garanta aquilo lá’. Foi isso”, declarou Wagner à época.

A repercussão da operação policial levou o parlamentar, amigo de Lula há mais de 40 anos, a deixar a liderança do governo no Senado após forte pressão do Palácio do Planalto. Ele conta, no entanto, com o apoio público do presidente na disputa eleitoral da Bahia, onde concorre à reeleição.

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